segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Primeiros Povos da América



Texto 1 - Primeiros Povos da América

Por Felipe Araújo

Na opinião de muitos historiadores, o surgimento dos seres-humanos deu-se na África. Somente após muitos anos eles se deslocaram para outras regiões do planeta, até chegarem ao continente americano. Existem diversas opiniões sobre a maneira como estes povos chegaram na América, a mais aceita é de que teriam vindo do Norte da Ásia pelo Estreito de Bering, trecho que faz a separação entre Rússia e Estados Unidos (Alaska). Naquela época, o mar encontrava-se mais baixo devido à glaciação, isso fez com que uma passagem de gelo natural fosse formada entre os continentes americano e asiático e por ela os povos antigos passaram a chegaram à América.Por outro lado, existe a hipótese de que os primeiros povos da América teriam chegado no continente ao atravessar ooceano Pacífico. Eles teriam vindo da Ásia e da Oceania. Calcula-se que os primeiros homens a migrarem para a América teriam feito a travessia há cerca de 20 a 70 mil anos e que utilizaram diversos caminhos. Os homens que chegaram ao Brasil formaram agrupamentos de caçadores, coletores, tinham domínio do fogo e construíam instrumentos de pedra. Provavelmente estariam localizados no Piauí, mas não existem muitas fontes seguras quanto a isso.Peter Wilhelm Lund, naturalista dinamarquês, encontrou fósseis de 30 crianças e adultos da pré-história em Lagoa Santa, Minas Gerais. Segundo cálculos, estes fósseis teriam 12 mil anos. Até o ano de 1970 haviam sido encontrados aproximadamente 250 fósseis de seres humanos, o mais famoso foi um crânio batizado como “crânio de Luzia”, com data de aproximadamente 11 mil anos atrás. Estes descobrimentos em Lagoa Santa foram de suma importância para a compreensão do aparecimento do homem na América e rendem estudos até hoje.Pesquisando a morfologia do crânio de Luzia, Walter Alves Neves, do Instituto de Biociências da USP, descobriu traços parecidos com os dos atuais aborígenes australianos e dos negros africanos. Com o apoio de outros pesquisador, o argentino Héctor Pucciarelli (Museo de Ciencias Naturales de la Universidad de La Plata), Neves elaborou uma teoria de que os povos que chegaram à América seriam de grupos distintos. Os primeiros chegaram há 14 mil anos e tinham a aparência de Luzia. Já os segundos teriam sido os mongolóides (11 mil anos atrás) e deles descenderam todas as tribos de índios da América.Apesar de todas as teorias, o mais provável é que as Américas tenham sido povoadas por homens de diferentes origens. Com o passar dos anos, eles formaram um mosaico com uma infinidade de povos e línguas.Fontes:COTRIM, Gilberto. História Global: Brasil e geral. São Paulo: Editora Saraiva, 2005.http://pt.wikipedia.org/wiki/Povos_ameríndioshttp://www.viewzone.com/paleonuke.htmlFonte: http://www.infoescola.com

Texto 2 - A Povoação das Américas - História da Povoação das Américas

Sobre os estudos que envolvem o povoamento das Américas é importante ressaltar algumas considerações: 



a) A preocupação sobre os habitantes das Américas pré-colombianas só começaram da aceitação pelos europeus que os indígenas possuíam alma e, portanto, eram considerados seres humanos. Isso ocorreu por volta de 1540 após a publicação de uma bula papal, a qual confirmava esta afirmativa, baseada no argumento que um dos apóstolos esteve na América anteriormente. 



Esta bula resolvia questões surgidas pelo contato com os ameríndios os quais desconheciam a existência de Jesus Cristo, contrariando a ordem deste aos apóstolos, de espalhar os ensinamentos do Novo Evangelho a todos os povos, conseqüentemente, colocando em perigo toda a doutrina cristã. 


a) A preocupação sobre os habitantes das Américas pré-colombianas só começaram da aceitação pelos europeus que os indígenas possuíam alma e, portanto, eram considerados seres humanos. Isso ocorreu por volta de 1540 após a publicação de uma bula papal, a qual confirmava esta afirmativa, baseada no argumento que um dos apóstolos esteve na América anteriormente. 

Esta bula resolvia questões surgidas pelo contato com os ameríndios os quais desconheciam a existência de Jesus Cristo, contrariando a ordem deste aos apóstolos, de espalhar os ensinamentos do Novo Evangelho a todos os povos, conseqüentemente, colocando em perigo toda a doutrina cristã. 

A solução foi encontrar algo que comprovasse a estada de um apóstolo na América repassando os ensinamentos de Cristo. Comparando a semelhança do nome do principal deus de algumas tribos indígenas (ZUMÉ), chegaram a conclusão que o apóstolo em questão, seria o São Tomé, não só pelo nome, mas também pelo fato deste, ter sido o único apóstolo a duvidar da ressurreição de Jesus e por isso, recebeu como punição ensinar a “boa nova” aos povos mais longínquos e “primitivos”. Isso também demonstrava a facilidade de aceitação dos ensinamentos cristãos aos indígenas da época. 

b) Os estudos feitos sobre o povoamento americano fundamentam-se, principalmente, de achados arqueológicos. Sob esta ótica, salienta-se que a Arqueologia é uma ciência de raras certezas, mas não gosta de especulações e que, além dos restos arqueológicos, suas conclusões também se baseiam em observações comparativas comportamentais e culturais de “povos vivos”, os quais conservam características ainda “primitivas”. Outro ponto importante a ressaltar é que descobertas arqueológicas futuras, podem forçar a novas reconsiderações consideradas corretas até o presentemomento, através de novas inovações tecnológicas e/ou novas pesquisas e achados nesta área de interesse. 

c) As técnicas de datação mais utilizadas pelos pesquisadores e disponíveis atualmente são: 

CARBONO-14: A utilização desta técnica é mais ou menos precisa na análise de materiais com até 50 milênios (com margem de erro abrangendo menos de 20 ou mais que 5000 anos). O carbono-14 é um elemento presente em todos os organismos vivos, se desintegrando em uma taxa constante após a morte. Esta taxa corresponde que, a cada 5730 anos a quantidade dos átomos radioativos de carbono cai pela metade, fenômeno conhecido como meia-vida. Um aparelho chamado acelerador espectrômetro de massa, conta os átomos de carbono-14 da matéria orgânica analisada, determinando assim sua idade. 

URANO-TÓRIO: É empregado no estudo de objetos com milhões de anos. Funciona pelo mesmo princípio do método carbono-14, mas toma por base as meias-vidas do urânio 238 e do tório 230, mais longas. 

TERMOLUMINESCÊNCIA: Esta técnica é confiável no exame de achados com poucos milhares de anos. Não se detém na radioatividade dos materiais, mas em uma emissão de luz. Assim, o fóssil é aquecido e libera, em forma de luz, energias que capturou e reteve em sua estrutura cristalina. Considerando o ambiente em que o material foi encontrado e a quantidade de energia existente nas diversas épocas, é estabelecida sua idade. 

TESTES DE DNA: Através do mapeamento genético, já é possível determinar parentescos e outras características. Para os próximos anos será a grande ferramenta para a solução de variadas questões. 

d) Há algumas semelhanças físicas e culturais em todos os habitantes pré-colombianos. Dentre as semelhanças físicas pode-se ressaltar: todos possuem pele de tez bronzeada ou acobreada; todos possuem cabelos pretos e muito lisos; todos possuem olhos castanhos ou pretos, geralmente de forma amendoada. As semelhanças culturais serão analisadas detalhadamente na apresentação dotrabalho, porém destaca-se algumas: a rápida difusão do horizonte cultural paleoíndio de pontas de projétil, como peça diagnóstico; a religião politeísta; o uso da cerâmica; padrão de subsistência de caçadores-coletores; o ferro não era trabalhado, com exceção dos Esquimós, que o importavam da Sibéria por volta de 1000 d.C.; e nas sociedades construtoras: a liteira como símbolo de status social, cabeças humanas como troféus; o significado ritual dos felinos, como o homem-leopardo ou jaguar e o homem-pássaro e ainda, a serpente aparecendo em diversas manifestações artísticas. 

e) O Novo Mundo é um excelente laboratório de pesquisa para o estudo do homem, tanto antropologicamente, quanto no relacionamento adaptativo dele com o ambiente natural. 

Sob o ponto de vista geográfico, a América é uma área compacta e mais integrada que o Velho Mundo. As barreiras naturais são menos marcadas por todo o continente, facilitando a transponibilidade e as áreas transicionais são menos abruptas, além de ambas as costas fornecerem um habitat excelente para moluscos, peixes e cretáceos, principalmente na costa canadense. 

O continente possui uma “espinha dorsal” hemisférica que percorre o Norte e o Sul, inclusive ela podendo ter propiciado uma canalização dos movimentos migratórios da fauna e do homem. No lado oeste, as cordilheiras são jovens sendo: as Montanhas Rochosas na América do Norte convertendo-se em Sierras Madres no México e América Central, as quais se unem com os Andes da América do Sul. No lado leste, as cordilheiras são mais antigas e mais baixas e suaves seguindo toda a costa atlântica de norte a sul. No centro, tanto para o norte, quanto para o sul do Equador estão gigantescas planícies drenadas por enormes bacias fluviais. A planície costeira do Pacífico, confinada com a cordilheira de montanhas é estreita em toda a sua extensão, desaparecendo em certos trechos. 

É o único trecho do planeta que possui todos os tipos climáticos; isto porque, seccionado ao meio pelo Equador, fornece similaridade de clima e vegetação em ambos os hemisférios, com pequenas variações produzidas pela altitude e pluviosidade, por exemplo. Este ambiente natural influenciou, também, o desenvolvimento cultural do homem pré-histórico. No sentido das adaptações de subsistência, o ameríndio pôde espalhar-se por longa áreas, sem mudanças radicais no seu “modus-vivendi”. Quanto à cultura, o ambiente similar facilitou a interação em algumas regiões, estimulou desenvolvimentos paralelos em outras e somente em poucas, deixou em isolamento. 

Quando as geleiras recuaram pela última vez para o norte, mudanças climáticas e ecológicas alteraram a ordem imposta anteriormente, causando, inclusive, a extinção de várias espécies da fauna, as quais faziam parte da principal dieta dos grupos, modificando os padrões de subsistência, povoamento e tecnologia, ocorrendo assim, uma diversidade variável na cultura americana que obrigou os americanos a inovações adaptativas. 

Embora essas mudanças não tenham ocorrido em todo o continente, persistindo em algumas áreas os antigos modelos de caça e coleta, dois tipos adicionais apareceram como resposta as transformações: a exploração de moluscos ao longo das costas, surgindo a cultura dos sambaquis e a coleta de sementes em regiões áridas. 

2. A chegada do homem nas Américas 

Até os dias atuais as polêmicas sobre a ORIGEM, COMO, POR QUAL ROTA e principalmente QUANDO o homem teria chegado na América, ensejam acirrados debates dentro da comunidade científica. 

Existem várias teorias ou hipóteses, muitas sem nenhuma comprovação e até absurdas; outras sendo seriamente analisadas, como as descobertas de Raimundo Nonato, no Piauí; outras ainda quase derrubadas, a teoria de Clóvis; e outras praticamente aceitas, no caso da rota ter sido pelo Estreito de Bering. 

O fato é que ainda não se chegou a conclusão alguma e as questões expostas acima, revelam-se de ímpar importância, pois, além do reconhecimento internacional do cientista, caso ele chegue as soluções dos problemas levantados, o esclarecimento deles poderão iluminar os estudos das origens e do passado do Novo Mundo, aprofundando a capacidade de compreensão do desenvolvimento cultural humano do presente e do futuro, como também das crescentes crises sociais e ecológicas, não só da América, mas em todo o globo terrestre. 
Diante de tantas probabilidades e em vista da importância, exporemos a seguir as teoria ou hipóteses existentes. 

3. Teorias relacionas à origem 

a) A teoria de Florentino Ameghino, famoso paleontólogo, é que o homem americano teria se desenvolvido na América, calcado em inúmeras descobertas de ossos humanos, nas margens do Rio Frias, próximo a Buenos Aires, Argentina. Além, também, de carvão vegetal em abundância, terra tostada, ossos de animais pré-históricos que ostentavam estrias, sulcos e entalhaduras feitas pela ação humana. Encontrou também, pontas de flechas e facas de pedras, ossos pontiagudos e diversas ferramentas para afiar. Esses achados provariam a coabitação humana com os animais antediluvianos. Essa teoria, atualmente, é amplamente rejeitada, pois até o momento, não foram descobertos fósseis de antropóides superiores no continente, como também, em relação aos ossos humanos encontrados na época da formulação da teoria não se conhecia a técnica de datação pelo carbono-14. 

b) Outra teoria é a de Alis Hardilick ou teoria mongólica – o homem americano migrou para a América há cerca de 15.000 anos, através do Estreito de Bering. Esta teoria é negada por Paul Rivet, quando diz que o homem não é só de origem mongólica, mas oriundo da Polinésia e Austrália, isto é, o ameríndio possui origem múltipla, migrando através da Beríngia, como também das Ilhas do Pacífico, originando todos os povos americanos. Por sua vez, Salvador Canals Frau contesta a teoria de Paul Rivet, quando diz não existir esta passagem e sim ondas sucessivas de imigrações, devido ao fato da Sibéria e Alasca, ainda hoje, ser habitada pelos Esquimós. 

c) Um trabalho científico de dois geneticistas brasileiros, Sérgio Danilo Pena e Fabrício Santos, publicado na Revista Science em março de 1999, confirma o parentesco genético entre tribos de seis países americanos (Brasil, Peru, Argentina, Colômbia, México e Estados Unidos) e um pequeno povoado nas Montanhas Altai, localizado entre a Sibéria, Rússia e Mongólia. Este trabalho foi apresentado como prova irrefutável da origem asiática dos ameríndios, os quais penetraram pelo Estreito de Bering, comprovando a teoria de Alis Hardilick. 

d) Em 1972, o arqueólogo Knut Fladmark, da Universidade Simon Fraser em Vancouver, Canadá, afirmou que os primeiros americanos eram pescadores de embarcações precárias, originários da Polinésia, Ásia ou Austrália, vindos via Oceano Pacífico, através de uma longa cadeia de ilhas hoje desaparecidas. Para sustentar esta teoria, em setembro de 1998, descobriu-se no sul do Peru, dois acampamentos de povos marítimos desconhecidos: Quebrada Jaguay com 11.100 anos e seus moradores comiam mariscos e peixes; e os de Quebrada Tacahuay, mais ao sul de idade datada de 10.700 anos, os quais alimentavam-se de peixes e pássaros marinhos como os cormorões.
A provável face de Luzia. A surpresa são os traços negróides 

e) O arqueólogo Walter Neves da Universidade de São Paulo e seu parceiro de pesquisa, Héctor Pucciarelli formularam uma hipótese, a qual milhares de anos antes da escravidão negra, já poderia haver africanos na América. Baseou-se na análise de detalhes anatômicos de centenas de ossos de índios no Brasil, Chile e Colômbia. As medidas quase sempre coincidem com as de atuais povos do Extremo Oriente. No entanto, os crânios mais antigos, apresentam traços africanos, parecidos com os aborígenes da Austrália. Um deles, o de uma mulher encontrada em Lagoa Santa, Minas Gerais, com 11.500 anos de idade, segundo datação realizada em 1998 é o crânio mais velho das Américas, cognominada de Luzia, que fazia parte do grupo dos “homens de Lagoa Santa”, os quais se alimentavam de mais vegetais, através da coleta, do que da caça. A medição dos ossos de Luzia revelaram um queixo proeminente, um crânio estreito e longo e faces estreitas e curtas. Assim, sugere que, antes da chegada dos ancestrais asiáticos dos ameríndios, houve uma primeira leva de imigrantes que deixou a África há 120.000 anos.
Um grupo teria ido para a Oceania há 40.000 anos e outro grupo teria entrado na América pela Sibéria em data desconhecida. Mais tarde, os asiáticos teriam exterminado os africanos, sobrando só os ossos, devido a disputa pela caça e territórios. Para reforçar essa hipótese, pesquisadores ingleses da Universidade de Manchester fizeram vários exames tomográficos do crânio de Luzia, sendo o resultado desses exames reprocessados por um computador da University College London, Inglaterra, obtendo uma imagem tridimensional e produzindo um crânio idêntico ao encontrado. Esse modelo foi encaminhado ao professor Richard Neave, especialista em reconstituições faciais, da Universidade de Manchester que coincidiram com o modelo negróide defendido pelo arqueólogo brasileiro. Luzia, portanto, seria uma mulher de feições negróides, com nariz largo, olhos arredondados, queixos e lábios salientes, muito diferente dos povos de origem asiática, presentes quando da chegada do homem europeu. Para reforçar ainda mais essa teoria, as configurações cranianas de Luzia foram encontradas em fósseis de mais ou menos 9.000 anos perto da cidade colombiana de Tequendama e na Terra do Fogo, do outro lado do Estreito de Magalhães, territorialmente localizado no fim da América do Sul. Portanto, atualmente, a hipótese de Walter Neves e Héctor Pucciarelli, acrescenta mais uma celeuma na conturbada história do povoamento americano.
A provável face do Homem de Kennewick 

f) Em 1996, nos arredores de Kennewick, no Estado de Washington, noroeste dos Estados Unidos, foi encontrado, por dois estudantes, um esqueleto de um homem de meia-idade. A análise química revelou que o fóssil data de 9.300 anos e pode ser a prova material da presença nas primeiras levas dos ancestrais americanos oriundos da Europa ou do Oriente Médio. Esta hipótese foi reforçada pelo geneticista Douglas Wallace, da Universidade Emory, Geórgia, Estados Unidos, que detectou em grupos isolados de índios norte-americanos, um tipo de DNA, encontrado na Finlândia, Itália e Israel, mas inexistente no leste da Ásia. A análise genética do fóssil pode resolver a questão, mas encontra-se obstaculizada pela justiça norte-americana, por ser o objeto de um processo, o qual os índios da região reivindicam a posse dos ossos, alegando pertencer a seus ancestrais. 

4. Teorias relacionadas à antigüidade 

Pegada fossilizada de uma criança em Monte Verde, Chile. 
a) Teoria de Clóvis: os primeiros habitantes teriam chegado ao continente há 12.000 anos depois de cruzar a Beríngia. Essa teoria apoia-se nos vestígios do sítio arqueológico de Clóvis ou Folsom, Novo México, Estados Unidos, com 11.200 anos, exatamente o tempo necessário para que os caçadores fizessem a viagem do Alasca até o Novo México – 7.000 km em 800 anos. Essa teoria, atualmente, não se sustenta devido a descoberta de dois novos achados. Em 1976, lenhadores desenterraram presas de um mastodonte em Monte Verde, sul do Chile, onde o arqueólogo Tom Dillehay desde então, vem trabalhando e encontrando um tesouro arqueológico inestimável de um grupo com horizonte cultural paleoíndio, que vai desde ferramentas de pedras até uma pegada de um menino, de 13 cm de comprimento, gravada em argila. Se o grupo de Monte Verde, viveu na região há 12.500 anos, conforme o reconhecimento em março de 1998 da Sociedade Americana de Arqueologia e estava a 15.000 km de Bering, seus antepassados teriam gasto cerca de 15.000 anos para percorrer a distância que separa o Alasca do sul do Chile. Portanto, leva-se a conclusão que o homem penetrou na América, no mínimo, há pelo menos 27.500 anos. Outra descoberta mais recente foi anunciada por arqueólogos do Museu de História Natural de Santa Bárbara, Califórnia, Estados Unidos; John Johnson e Lisa Urone atestaram a existência de dois ossos da coxa de uma mulher batizada de Arlington, encontrada na Califórnia e datada de 13.000 anos. 

b) A Lingüística é uma ciência que auxilia, extremamente, o estudo dos movimentos pré-históricos da população e a lingüista Johanna Nichols, da Universidade de Bekerley, Estados Unidos, identificou 143 troncos lingüísticos entre o Alasca e a Patagônia. Os idiomas são tão diferentes entre si quanto o polonês é do japonês e do árabe. Apoiada neste estudo, ela conclui que para se atingir o atual estado de diversidade das línguas indígenas americanas, mesmo considerando a ocorrência de múltiplas migrações em épocas diferentes, seriam precisos 35.000 anos, haja vista que para duas línguas originárias de um ancestral comum perderem completamente a semelhança, demora cerca de 6.000 anos. 

c) Ainda em relação à antigüidade do ameríndio, há muitas descobertas arqueológicas ainda em discussão quanto a autenticidade e possibilidade, que questionam a entrada no período de 12.000 anos passados. 

A arqueóloga Maria da Conceição Beltrão afirma, após escavações no sertão baiano, Brasil, que entre 20 e 30 milênios atrás, o homem já habitava o lugar, apoiada nos ossos de animais que exibem marcas de ação humana.
Pintura rupestre em Central, Bahia de prováveis calendários pré-históricos
Pintura rupestre em São Raimundo Nonato, Piauí de um veado 
Niéde Guidon em 1971, na serra da Capivara, Piauí anunciou a descoberta de vestígios de carvão de uma suposta fogueira datada de 40.000 anos, sendo assim, os primeiros grupos teriam, há pelo menos 70.000 anos, adentrado a América pelo Estreito de Bering. Essa teoria tem sido pesquisada seriamente pela comunidade científica de arqueologia, recebendo adesões de importantes arqueólogos. 

A existência de um grande número de sítios arqueológicos que contém uma indústria lítica de pré-pontas de projétil, como talhadores pesados de grandes dimensões, raspadores, raspadores-planos, facas e batedores, muitas vezes em notável abundância, por exemplo no Chile, Argentina e Uruguai; em outros como El Jobo e Cumare, Venezuela, os artefatos ocorrem em altos e distantes terraços fluviais; em Farmigton, na Califórnia, eles estão soterrados abaixo de 5 metros de aluvião. No abrigo-sob-rocha de Levi no Texas, eles estão estratigraficamente abaixo das pontas de projétil mais antigas. Restos de animais que faziam parte da dieta, estão associados com estes artefatos em variada áreas. As datações destes sítios chegam a ultrapassar 24.000 anos. Porém, apesar de dois principais fatores atestarem sua credibilidade, como a existência de uma ponte terrestre anterior a 37.000 anos, a qual foi cruzada pelo caribu e mamute peludo e provavelmente o homem os seguiu; e a magnitude de datas procedentes do norte a sul, visto que a expansão geográfica foi muito lenta e a população inicial muito pequena; estes achados não são considerados como feitos pelo homem. Diversas são as razões para o questionamento: pedras rudemente lascadas podem ter sido feitas por ação natural; alegam que em muitos sítios, a datação pelo carbono-14 e os restos culturais não foi correta; a antigüidade do contexto geológico ou os artefatos são intrusivos e de origem mais recente; e, principalmente, a inexistência de fósseis humanos mais antigos, especialmente localizados na região da América do Norte ou até mesmo em outra região qualquer. 
5. Reflexões sobre as teorias apresentadas 
A hipótese de que o homem evoluiu no Velho Mundo e migrou para a América a pé, partindo da Sibéria pelo Estreito de Bering é uma das hipóteses mais prováveis e mais aceitas pela maioria dos cientistas. Para isso ter acontecido é importante explanar algumas considerações: 

a) Teria que existir uma conexão terrestre entre a Sibéria e o Alasca, a Beríngia, ocorrida no Pico Glacial e mantida assim por longo intervalo. Isso acontecia, quando o nível do mar baixava cerca de 200 a 160 metros do nível atual. 

b) Deveria haver, também, um afastamento do lençol de gelo, formando um corredor verde, a qual a vida poderia ser mantida tornando acessível o percurso entre o Nordeste da Sibéria e o Vale Yucon, ao longo da vertente oriental das Montanhas Rochosas Canadenses e Americanas, caso contrário a migração nesta área seria impossível . Durante cerca de 10.000 anos esta passagem ficou interrompida, pois a glaciação atuou como barreira, impedindo novos movimentos migratórios. 

Estas duas condições ocorreram simultaneamente em algumas ocasiões: 

O último Pico Glacial data mais ou menos entre 28.000 e 10.000 anos atrás, quando depois a ponte ficou submersa novamente, fato que perdura até hoje. 

O penúltimo Pico Glacial aconteceu entre cerca de 50.000 a 40.000 anos e foi usada por muitas espécies de grandes mamíferos do Velho Mundo. 

Houve ainda uma passagem anterior mais antiga com cerca de 150.000 anos atrás. Observa-se, neste período, a existência do Homo sapiens neanderthalensis na Ásia. 

Esta possibilidade da entrada do homem na América por motivos glaciais e da origem mongólica, é uma concepção dos cientistas a partir do século XIX, por argumentos dedutivos em vista de a Ásia ser a região mais próxima da América. Um argumento favorável que se apresenta para fortalecer esta hipótese, são as características biológicas do ameríndio, conforme houve inclusive, algumas provas apresentadas no tópico anterior. 

As evidências arqueológicas nos sítios, no entanto, desconhecem traços característicos e especializados de adaptações ao frio nos primeiros imigrantes. Portanto, a hipótese estaria mais próxima do caráter biológico do que arqueológico e, por isso, muitos se afastaram da possibilidade de que o homem seria oriundo da Ásia, levando ao pensamento de teorias distintas e diversificadas. 

Sobre a teoria da origem da Polinésia ou da Austrália, pode-se levantar que tanto os australianos, quanto os polinésios possuem cabelos ondeados ou anelados, características biológicas ausentes na população americana quando da chegada do europeu à América. Porém, avançados estudos genéticos cada vez mais procuram esclarecer estas dúvidas definitivamente 

As teorias quanto à antigüidade são as que mais geram polêmicas. Conquanto haja discordâncias, é unânime a crença de que os primeiros imigrantes eram compostos de pequenos bandos de famílias aparentadas e sobreviviam da caça e da coleta. Os instrumentos para a subsistência não eram especializados e estes, serviam tanto para cortar, raspar e bater. 

No período de 10.000 anos em diante, segundo informações arqueológicas provenientes de sítios por todo o continente, é incontestável um grande contingente populacional e muito bem adaptado as adversidades ambientais. Estes grupos fariam parte do horizonte cultural paleoíndio, com artefatos sem similaridade no Velho Mundo e perfeitamente adaptado a fauna e flora americana. Isto leva a seguinte reflexão: se o homem pré-histórico americano chegou no último Pico Glacial, em pequenos bandos e levando em consideração que as migrações são extremamente lentas, devido ao fato de que para percorrer algumas centenas de quilômetros eles têm que se adaptar e superar inúmeros obstáculos ambientais para sobreviver, levando para isso, em média, cerca de 1.000 anos, e se também, não há horizonte paleoíndio na Ásia, como, em poucos milênios, a cultura de caçadores e coletores especializados se difundiu tão rapidamente por toda a América? Para uma cultura se espalhar rapidamente são necessários receptores que a aceitem e adaptem-na à região habitada e em grandes grupos. Isso não leva a suposição que muito antes de 15.000 anos, os ameríndios já habitavam essas paragens? E que já não haveria uma cultura pré-pontas de projétil? 

Perguntas como essas ainda não foram comprovadamente respondidas. O certo é que há 13.000 anos o homem estava presente na América, com provas irrefutáveis desta afirmação. Porém, como pode-se observar nas teorias e descobertas mais recentes discutidas anteriormente, tudo leva a crer que, muito antes disto houve ondas migratórias distintas e sucessivas, sendo mais provável em torno de quatro. Entretanto, não há evidências materiais e inquestionáveis, como por exemplo, fósseis humanos anteriores a 40.000 anos, o que afirmaria essa presença anterior. Assim, as provas apresentadas continuam a escapar ao reconhecimento e as amostras de carbono-14, favorecendo fortemente a hipótese da entrada do homem ameríndio no último Pico Glacial. 

Pouca consideração recebe os argumentos, que, arqueologicamente, as pesquisas foram mínimas ou que, em muitos lugares mais prováveis a encontrar essas respostas, a urbanização atual destruiu vários sítios ou impossibilita novas escavações; ou ainda, e isso é importante ressaltar, o fato de não ter sido descoberto nada mais comprovador não significa que não existam estas evidências, apenas elas ainda não foram encontradas. 

Enfim, enquanto provas incontestáveis, sob todos os aspectos, não surgirem, os mistérios e as inconclusões continuarão. 
6. Conceitos gerais 
Bandos: pequenos grupos, menos de uma centena de pessoas, que se caracterizam pela exogamia local e são conhecidos por sua limitada concepção de parentesco. São caçadores e coletores que mudam periodicamente de residência, à medida que os recursos naturais são exauridos ou em reação às mudanças climáticas. Eles não possuem líderes formais nem tampouco diferenças na posição político-econômica. A subsistência depende, normalmente, da propriedade comunal. A única diferença determina-se pela idade e pelo sexo. 

Tribos: sociedades maiores que os bandos, multicomunitárias, porém sem exceder alguns milhares de indivíduos. Encontram-se entre os agricultores com povoamento relativo ou completamente sedentário. Quando vivem em aldeias, os habitantes estão mais compactados ou quando estão mais dispersos, a designação é vizinhança. As comunidades individuais estão interligadas em uma sociedade maior, normalmente por descendência ou clãs ou por associações voluntárias. Seus membros estão ligados por laços matrimoniais, parentescos, pactos de paz e/ou participantes da mesma cultura. Em alguns grupos há hierarquias internas de membros. Realizam cerimônias periódicas para renovarem seus laços e vínculos religiosos e políticos. As tribos mais organizadas podem ter uma aldeia sede e uma hierarquia de chefes tribais. Mesmo nestes casos, carece de uma base para a economia e o exercício do poder, haja vista as instituições econômicas das tribos serem muito simples. O comércio pode ser extenso, mas sem habitantes especializados neste setor e em tempo integral. 

Chefias: a partir das chefias surge a hierarquização para integrar as sociedades multicomunitárias. Acredita-se que os membros das chefias descendem de um único ancestral e que a classificação hierárquica se basearia no princípio da primogenitura. A sociedade é baseada no parentesco e a pessoa do chefe é quase sacrossanta, porque desempenha, inclusive, funções sacerdotais; o contato com o chefe é limitado cheio de protocolos e todas as crises de crescimento, casamento e morte são acompanhadas de um complicado ritual público – as regras suntuárias. Todos os membros ocupam uma posição única na escala hierárquica, determinada pelo grau de distância ou proximidade do chefe, resultando nisso uma sociedade estratificada. A base econômica do poder do chefe consiste no papel de redistribuir os bens. A produção das matérias- primas e alimentos, bem como a especialização em produtos artesanais são altamente desenvolvidos.
O chefe utiliza os excedentes entregues para a manutenção de sua corte ou para a distribuição aos seus súditos em caso de fome. Também solicita trabalhos para a manutenção ou construção dos bens públicos, templos ou sua casa ou ainda da sua corte. Devido as obrigações de parentescos as relações são recíprocas, especialmente dos alimentos. O mercado inexiste ou é fracamente desenvolvido e a especialização artesanal em tempo integral está ligada à corte. As chefias são sociedades maiores que as tribos, com milhares de indivíduos e podem incluir aldeias ou vizinhanças inteiras baseadas no parentesco. O que distingue claramente uma tribo de uma chefia é que esta, possui um centro ou capital, onde estão situados os templos, os edifícios administrativos, a residência do chefe, sendo que toda sua linhagem direta residirá na capital, as casas de seus servidores, os artesãos e os sacerdotes. Em caso de guerra, toda a população poderá também residir neste centro, chegando a uma população extraordinariamente grande. As chefias muito pequenas gozam de uma posição desprivilegiada em relação as grandes chefias, cujos chefes são dotados de uma grande força carismática e uma incomum habilidade. 

Estados antigos: regras suntuárias, sistemas de hierarquização e a dicotomia entre o centro e as povoações dependentes e o poder concentrado em um único líder como distribuidor de dádivas e bens gerais baseados na reciprocidade, estão presentes nesta sociedade. A posição do líder, senhor ou rei, é limitada a uma linhagem reinante, de descendência divina. A sociedade não está baseada somente em relações de parentesco, mas também por agricultores ou locatários, embora a propriedade territorial pertença ao rei. As relações entre eles envolvem direitos, obrigações, deveres e privilégios mútuos através de um contrato legal. O rei possui um exército permanente, uma força policial e um sistema judicial, administrando seus bens por uma burocracia de funcionários nomeados. As contribuições são reconhecidas como rendas ou taxas e apesar do rei poder ordenar serviços e coletar excedentes de seus súditos, tais coisas são consideradas obrigações de parentes. Apesar da reciprocidade, o balanço de pagamentos é muito maior para o rei.
Este estabelece leis e também pode exercer funções sacerdotais, embora a maior parte é exercida pelos sacerdotes nos templos. Há uma distinção entre Estados urbanos e não-urbanos. Os Estados urbanos são caracterizados por povoamentos denominados vilas ou cidades, com vastas concentrações residenciais e diferenciações sociais e econômicas maiores que nos Estados não-urbanos; possuem um grande número de especialistas artesanais e artífices sem vinculação real, produzindo bens para uma economia de mercado. Estes Estados, urbanos ou não, só evoluíram graças a ambientes muito especiais, os quais possibilitaram um sistema de lavoura altamente produtiva que foi capaz de sustentar um aumento de população. Os Estados não-urbanos são amplos grupos de residência da realeza, burocratas, sacerdotes, artífices reais e soldados; comparados em função ou estrutura aos centros da chefia, a diferença reside em suas dimensões e complexidade interna. No coração destes centros urbanos ou não, estão os edifícios do governo, os templos e os mercados. Os Estados antigos podiam chegar a muitos milhares de pessoas, cerca de 50 milhões de habitantes, como por exemplo o Império Romano. 

Cacicados (Chefdoms): organizações de várias tribos, com hierarquização sujeita a chefes com poder coercitivo, imposições de tributos ou extrações regulares, sobretudo de aldeias densamente povoadas e fortificadas e elites capazes de mobilizar a força de trabalho para grandes empreendimentos coletivos. A economia é baseada na exploração intensiva de recursos artesanais e de matérias-primas. 

Difusão: processo pelo qual uma inovação cultural se propaga, desde a sua fonte a outras áreas, cujas inovações são aceitas como costumes integrando-se num sistema cultural, pelo fato de terem sido bem adaptadas, outros grupos residentes no mesmo meio social e geográfico acabam por adotá-las também. Normalmente, ocorrem de forma muito rápida, face a proximidade de contato e seu sucesso às necessidades de sobrevivência. 

Caçadores-coletores: refere-se a grupos de indivíduos de caçadores-coletores generalizados, os quais se adaptam de forma flexível às extensões florestadas em ambos os continentes e baseando-se em uma grande variedade de alimentos selvagens, como também de pequena caça; desta forma favorecendo-se por uma dieta balanceada e quantidade segura. 

Caçadores especializados: formados por grupos maiores, os quais baseavam sua subsistência na caça de grandes animais, com horizonte cultural paleoíndio. 

Horizonte pré-pontas de projétil: grupos anteriores a 12000 anos, os quais possuíam artefatos de pedra rusticamente lascados, embora bastante diversificados. Viviam da caça e coleta. 

Horizonte cultural paleoíndio: Período que abrange de 12000 a 8000 anos. Grupos existentes por todo o continente extremamente adaptados ao ambiente. Possuíam artefatos e instrumentos mais caracterizados e que permitiam uma maior eficiência na sobrevivência. 

Pescadores-coletores: grupos que habitavam o litoral e viviam da coleta e pescarias pequenas e ocasionais. Não possuíam artefatos especializados para a pesca. Comiam pouco, mas constantemente.
O Tambor. Sambaqui em Cabo Frio-RJ. Ele tem 4m de altura e 75m na largura maior 


Coletores marinhos (Sambaquis): aparecem por volta de 6000 – 5000 anos a.C. praticamente em toda a costa americana e muito bem sucedidos. São os grupos formadores dos Sambaquis. Eram razoavelmente sedentários e com noção de territorialidade, os quais dominavam uma certa região. Seus instrumentos eram mais especializados, os quais permitiam uma pesca mais produtiva. No período de 4000 a 2000 anos já possuíam arte de pedra polida e também neste momento, começam a desaparecer. Sambaqui, nome tupi, deriva das expressões sambá ou tambá (concha) e qui ou quire (dormir, fazer). Seu significado amplo pode ser traduzido como cemitério. A maioria deles estão situados em ambientes de clima úmido, litorâneos ou margeando os rios. Trata-se de um tipo de colina formada por depósitos de areia, conchas, cascas de ostras e moluscos, além de restos de fogueiras, ossadas humanas e de animais, artefatos de pedras, ossos e dentes. São acampamentos de coletores marinhos, semi-permanentes, os quais produziram, por várias gerações, uma montanha de calcário que podiam alcançar centenas de metros de comprimento e até 40 metros de altura. 

Pontas de projétil: peça diagnóstico da cultura de um caçador especializado paleoíndio.
Ponta Clóvis. As duas faces da ponta e no centro, a ponta vista de lateralmente 

Pontas Lhano ou Clóvis: um dos principais artefatos paleoíndio, caracterizado por uma estria ou canaleta criada pela remoção de uma lasca da superfície mais baixa, em uma ou ambas as faces para poder escorrer o sangue da presa mais facilmente. Na variante Folsom somente os bordos permanecem intactos. O tamanho varia de 7 a 12 cm de comprimento, embora apareça pontas de até 4 cm. Sua largura é de aproximadamente 1/3 a 1/4 do comprimento, produzindo um contorno alongado, paralelo a lados convexos e uma base côncava. Tem variante também em forma de “rabo-de-peixe”. 

Pontas lanceoladas: também do horizonte cultural paleoíndio, porém, elas são menos uniformes e possuem duas variedades típicas: uma delas possui lados paralelos e uma base reta ou um pedúnculo incipiente; a outra é de forma oval, estreita e alongada, adelgaçando-se em ambos os extremos. A variação do tamanho é comparável a Clóvis. 

Período formativo: período em que as civilizações do Novo Mundo, na Mesoamérica e Andes Centrais, alcançaram seu desenvolvimento independentemente ou com um mínimo de comunicação. Durante este período, iniciaram os mais significativos traços, inclusive a manufatura da cerâmica e somente poucas plantas domesticadas passavam de uma a outra região. 

Período de transição: período em que ocorre o recuo das geleiras ao norte, provocando mudanças nas condições ecológicas que acarretaram a extinção de muitas espécies pleistocênicas. Estas transformações refletiram na cultura, criando novas forma de subsistência, de padrão de povoamento e tecnologia. Constata-se também, que foi neste período que o mar subiu ao nível encontrado hoje. 

Arcaico recente: período que abrange os anos de 2000 a 1000 a.C., cujos habitantes situados na área dos Grandes Lagos eram os únicos a manufaturar instrumentos de cobre como também de pedra. O cobre era extraído das minas com o auxílio de um instrumento de pedra e trabalhado por martelagem para a produção de variados artefatos como: lanças encabadas ou pontas de projétil, arpões, enxós, lâminas de machado, facas, formões, espátulas, sovelas, agulhas, anzóis, picões e contas. 

Cultura do deserto: padrão de vida com subsistência mais especializada e enfatizando plantas selvagens. Em algumas regiões, batatas, bolotas e pinhões, sementes de grama, raízes e amoras comestíveis forneciam uma colheita anual abundante, embora os recursos fossem menores e mais dispersos. Apesar da presença abundante de pontas de projétil, a caça não era vista como uma atividade importante, pois os traços típicos deste modo de vida eram os cestos para coleta e moedores para remover cascas duras e pulverizar as sementes em farinha. 

7. O horizonte cultural paleoíndio e sua difusão pelo continente americano 

O horizonte cultural paleoíndio, tendo como peça diagnóstico as "pontas-de-projétil", desenvolveu-se por volta de 12000 a 8000 anos, alcançando todo o continente e inúmeros grupos primitivos. Estes grupos eram formados desde 15 até 100 indivíduos, altamente adaptados ao ambiente e como base de subsistência, principalmente, a caça aos grandes animais, como o mamute, mastodonte e a preguiça-gigante, entre outros; além da coleta generalizada. 

Os grupos desta cultura procuravam como principal nicho adaptativo as luxuriantes pastagens e os vales florestados dos campos norte-americanos, com verões brandos e invernos suaves, e a paisagem entrecortada de riachos, lagos e pântanos. 

Para a grande caça, desenvolveram diversos artefatos, dentre eles as pontas-de-projétil (pontas Clóvis ou lanceoladas) uma arma que associada ao propulsor de dardos, quadruplicava a potência e precisão nos lançamentos, aumentando o alcance e a penetração do dardo, tornando a caça mais eficiente. Os lugares em que isso ocorria são denominados de “sítios de matança”, local onde ossos de mamute, bisão, mastodonte e outros estão misturados com os instrumentos usados para remover as peles e desmembrar as carcaças. 

Essa eficiência permitiu um aumento na densidade populacional, visto que ao matar um grande animal, a carne do mesmo não era totalmente aproveitada e portanto não eram necessárias atitudes para o controle da população, deixando-a se multiplicar naturalmente. 

Outro ponto a ressaltar é a probabilidade destes caçadores terem contribuído para a extinção dos animais já mencionados. 

Nos sítios de acampamento, encontram-se instrumentos de pedra de tipos bem definidos, como batedores, alisadores, rapadores, facas, buris, pontas de projétil e também, sovelas de osso, agulhas e espátulas. 

Esta intensa diversificação é atestada e corroborada no descobrimento de vários sítios arqueológicos que se estende de norte a sul da América, sendo o artefato mais comum as pontas lanceolada. Outra evidência desta cultura são as pinturas rupestres muito bem representadas, indicando um alto grau de desenvolvimento. 

Com este grande sucesso adaptativo a cultura difundiu-se rapidamente em um intervalo de cerca de 2500 anos na maioria dos espaços geográficos do Novo Mundo. Esta difusão implica em uma questão: como um pequeno bando pode povoar uma extensa região em tão pouco tempo, mesmo levando em consideração sua eficiência? Como resposta a esta indagação, pode-se admitir uma cultura anterior – pré-pontas de projétil – a qual explicaria esta rápida difusão. Uma cultura formada por caçadores e coletores de pequenos animais e plantas silvestres, com uma indústria lítica bem rudimentar, porém bastante diversificada, mas rusticamente lascada e, por isso, contestada ao ponto de alegarem ser obra de ação natural, teria habitado o continente anteriormente há 12000 anos. E, por conseguinte, adotado de imediato a cultura paleoíndia. 

Os sítios paleoíndios são mais facilmente reconhecidos do que os do horizonte “pré-pontas de projétil”, em face dos primeiros terem sido submetidos a um menor distúrbio geológico e também de seus instrumentos serem melhor caracterizados. 

Apesar desta intensa e extensa difusão, há locais que o modelo mais antigo de caça e coleta pouco se alterou, provavelmente de habitat onde os grandes mamíferos eram raros ou inexistentes. 

A única região com pouca produção da cultura pré-pontas de projétil ou paleoíndia é a região da Amazônia, devido a dois fatores: a ausência de pedras disponíveis limitou o inventário de artefatos; e os artefatos perecíveis não se conservam em ambiente de clima úmido tropical. Porém, é importante salientar que muito embora exista uma pequena existência destes objetos, isto não descarta a hipótese de que essa área tenha sido evitada pelos antigos grupos de caçadores e coletores. 

8. As alterações climáticas e as mudanças adaptativas da cultura 

A diversidade cultural que ocorreu nas terras do Novo Mundo, deve-se ao fato de que as variedades climáticas e ambientais obrigaram os grupos a adotarem comportamentos culturais de acordo com às regiões as quais estavam inseridos. 

No universo cultural dos caçadores e coletores o ambiente determinou algumas variações adaptativas quanto aos instrumentos e alimentos. A necessidade de utilização de instrumentos para a caça levou-os a utilizarem a madeira e o marfim na fabricação de armas. Para a coleta de vegetais, como ainda não tinham o conhecimento do metal, utilizavam peles de animais na fabricação de seus recipientes. 

As peças de cerâmica não estavam em evidência, visto que sendo de natureza frágil não suportavam as constantes andanças. 

O que tornava um grupo diferente do outro era o meio natural e os recursos ambientais presentes, pois os instrumentos tanto de caça como de coleta dependiam do material que estivesse mais acessível. Por conseguinte, a qualidade e a quantidade de vestimentas, a existência ou não de habitações mais duradouras e o tempo de permanência dos grupos, variavam de acordo com o meio. 

Do grupo de caçadores do Ártico foi exigido uma capacidade de adaptação ao frio e técnicas específicas para a obtenção de alimento. Os esquimós agasalhavam-se com as peles e as habitações fixas, sólidas e com uma estrutura interna bem elaborada, protegendo-os do frio e das grandes tempestades de neve. Para a locomoção, os barcos feitos com pele eram utilizados em tempo de verão e trenós puxados por cães nos períodos de inverno. A alimentação era baseada em mamíferos marinhos pescados com arpões de ossos ou marfim. 

Os caçadores das florestas do norte eram bandos concentrados na região do Canadá e estavam adaptados à floresta boreal de concentração populacional baixa e dieta alimentar pobre. A tecnologia de subsistência assemelhava-se aos dos esquimós. A caça era a base de subsistência e sua técnicas consistiam em armadilhas e a tocaia auxiliada por arcos e flechas. A pedra polida e a pedra lascada eram usadas como instrumentos cortantes. Na divisão social os bandos dividiam-se em dois grupos, uns caçando no interior das florestas e outros migrando para a tundra guiados por um chefe nas operações de caça. 

Os coletores de alimentos do oeste abrangiam parte do ocidente dos Estados Unidos (Califórnia, altiplano, Grande Bacia e Sudoeste). Nessa área, a sobrevivência calcava-se na alimentação de plantas nativas e sementes. O comportamento cultural caracterizava-se pela quantidade alimentar existente no meio. Por exemplo, no centro da Califórnia, a existência abundante de sementes, bolotas e gramíneas permitiu a sedentarização, estabeleceu um sistema social que envolvia os indivíduos em uma maior fraternidade. Por outro lado, onde os alimentos eram mais escassos, os bandos passaram a adotar mais o nomadismo, a fim de buscar lugares que oferecessem suprimentos alimentares suficientes a sobrevivência. 

No geral, os grupos coletores usavam a pedra lascada e polida e artefatos de pedra mó para amassar e triturar as sementes, armazenando-as para períodos posteriores. 

Os coletores chilenos de mariscos habitavam um ambiente relativamente pobre em recursos naturais e a quantidade de suprimentos (os mariscos) variavam constantemente. Os bandos eram de pequeno porte e nômades. 

Os caçadores pampianos e patagônios viviam em constantes migrações e eram formados por uma quantidade de pessoas que variavam entre 40 a 120. Caçavam guanaco e a ema com auxílio do arco e da flecha e ainda boleadeiras. Usavam como instrumento cortante a pedra lascada e suas roupas, recipientes e abrigos eram fabricados com pele destes animais. 

O grupo de caçadores e coletores da savana tropical, também chamados de agricultores incipientes, eram aqueles que viviam na região do Grande Chaco. Os recursos em pouca quantidade (com exceção do Grande Chaco) tornou esse grupo ocupante de áreas próximas às ribeiras, porém de breve duração, chegando a dispersar para os campos quando aconteciam os períodos de chuvas. Ao se tornarem cultivadores incipientes, eles incorporaram a agricultura em sua cultura, mas sem alterar seu modo de vida. Sua dieta incluía mariscos, moluscos e peixes, muito embora não dominassem a indústria náutica e não utilizassem os rios como sistema de transporte. 

Nas regiões dos Andes Centrais e Mesoamérica, o clima, o relevo e os aspectos biológicos proporcionaram a transformação de bandos coletores e caçadores (nômades) em povos sedentários. Isso só aconteceu devido às condições pouco favoráveis, as quais levaram-nos a desenvolver técnicas agrícolas mais elaboradas como a irrigação, o terraceamento e as curvas de níveis. Os abrigos eram mais duradouros, as ferramentas melhores trabalhadas e que serviram como primeiro passo no surgimento de civilizações urbanizadas e mais desenvolvidas culturalmente. 

Em contrapartida, os bandos que permaneceram em condições nômades continuaram a subsistir na base da coleta e caça selvagens, sem o desenvolvimento de instrumentos mais trabalhados para essas práticas. Isso implicou numa cultura pouco desenvolvida tecnologicamente e na distinção mais acentuada em relação ao grupo anteriormente explanado. 

Portanto, as variações climáticas e ambientais são fatores que não podem ser esquecidos quando se falar em diversidade cultural. Isso porque a sobrevivência em uma determinada região tem estreita ligação com a pré-disposição do indivíduo adaptar-se às condições oferecidas pelo meio. 

9. A agricultura e suas conseqüências culturais 

A agricultura passou a fazer parte do habitante americano de forma bastante incipiente a partir das alterações climáticas ocorridas, quando as geleiras recuaram pela última vez, entre cerca de 8000 a 5000 anos. 

Por esta época, a caça dos grandes animais passou a tornar-se cada vez mais rara. Como não existiam animais domesticados que pudessem garantir a sobrevivência grupal, foi necessário reagir ao ambiente surgindo novas formas de subsistência, de padrões de povoamento e de tecnologia. 

Com a substituição das florestas em lugar dos campos e as regiões melhor drenadas tornando-se cada vez mais áridas, o homem aprendeu, pela observância direta da natureza, a selecionar a coleta e propiciar uma melhor produtividade, através da domesticação das plantas, fazendo delas a fonte principal de alimentos. Este processo levou milhares de anos, estabelecendo-se como agricultura propriamente dita, a partir de cerca de 2000 a.C. 

A maior parte dos cultivos do Novo Mundo são diferentes dos originários do Velho Mundo. Ainda não se sabe se a domesticação foi o resultado independente de um seqüência de incidentes ou se foi difundida de um único centro mundial, adaptada às condições ambientais. 

A flora americana possui uma enorme diversidade. Alimentos como o milho, feijão, batata, abacates, amendoins, abóboras, batata-doce, castanhas, mandiocas, tomates, pimentões, chocolate e também plantas como a borracha, o fumo, quinina e coca são exclusivas da América e que fazem parte, atualmente, da dieta universal. 

Inicialmente, os grupos primitivos limpavam os terrenos ao redor da planta selecionada, evitando que ervas daninhas prejudicassem a produtividade. Aos poucos foi se p ercebendo a importância da irrigação e de outras técnicas agrícolas, como o terraceamento e as curvas de nível. Posteriormente, a planta selvagem já não mais sobrevivia sem a interferência humana, tornando-se assim o princípio da agricultura. 

Nessa época, os bandos eram semi-nômades e, somente aos poucos, foi se sedentarizando conforme os avanços iam progredindo a fim de estabelecer um aumento na produtividade das plantas, tornando-a capaz de ser fonte alimentícia segura e eficiente para a sobrevivência. 

A cultura material se modificou para adaptar-se a essa nova atividade. Foram desenvolvidos cestas para a conservação dos alimentos, moedores, lâminas de machado entalhados, almofarizes e mãos de pilão entre outros. 

Devido ao longo período de domesticação, os efeitos dessa nova fonte alimentar no tamanho da população e a organização sociopolítica foram brandos. Acredita-se que a partir da irrigação esta cultura atingiu uma significativa expansão. 

A agricultura intensiva na Mesoamérica e na área Andina, necessitou de séculos para desenvolver-se e o cultivo incipiente nos planaltos mexicanos surge no período de 7000 a 4000 anos a.C. e, segundo alguns especialistas, o aspecto fundamental foi a grande quantidade de terras não cultiváveis, bem como a pressão populacional sobre os recursos agrícolas finitos. Quanto a área Andina, há dúvidas se os passos iniciais se desenvolveram independentemente dos verificados na Mesoamérica ou se foram estimulados pelo contato com estes. 

A origem do milho, que se tornou o alimento básico do Novo Mundo, tem sido discutida há muito tempo. A informação mais completa vem do Vale de Teotihuacán, iniciando por volta de 5000 anos a.C. Um grande número de variedades foram produzidas, diferindo não apenas em tamanhos, cor e propriedades de subsistência, mas também em viabilidade sob diversas condições de umidade, solo e duração de crescimento. O feijão surge, primeiramente nos Andes, e a associação dele com o milho, propiciou uma das conquistas mais importantes ao crescimento populacional e desenvolvimento cultural, devido às circunstâncias bioquímicas. O milho possui um alto valor protéico e energético, mas é deficiente em lisina, uma substância essencial ao Homo sapiens para realizar um eficiente metabolismo das proteínas. O feijão é rico em lisina, suprindo essa deficiência. 

A mandioca é tida como raiz cultivável em solos pobres, ocasionadas pelas chuvas fortes e constantes. Ela surge nas terras baixas tropicais úmidas da América Central e Sul, onde o feijão e o milho eram menos produtivos. Ela é particularmente interessante, porque as espécies diferem em relação ao acúmulo de ácido hidrociânico concentrado nos tubérculos. 

O algodão e a corcubitácea são os vestígios de domesticação de plantas mais antigas, embora não sejam comestíveis. 

Enfim, vale salientar que o desenvolvimento tecnológico da agricultura através da irrigação, terraceamento, rotação de cultura e curvas de nível, está diretamente relacionado à urbanização e a transformação das sociedades construtoras. 
10. Ritos agrícolas 
As mudanças ocasionadas no Período Transicional, implicaram em transformações na dieta alimentar dos grupos primitivos do Novo Mundo. A agricultura incipiente começou a fazer parte do processo comportamental, interferindo no tamanho da população e na organização social e política, mesmo que de forma pouco acentuada. 

A agricultura, como um processo tecnológico, foi internalizada a partir de um longo aprendizado e mesmo sendo uma fonte segura na obtenção de alimentos, ela é suscetível aos fenômenos climatológicos, às pragas e outros fatores. Em conseqüência disso, os ritos religiosos existentes anteriores a agricultura foram sendo adaptados de acordo com as necessidades agrícolas. Exemplo claro pode ser percebido em regiões de baixa pluviosidade, onde os ritos agrícolas foram adotados no sentido de obtenção de chuvas e melhoria de produtividade. Esses cultos relacionavam-se com os ancestrais, vistos como seres fazedores de chuva e produtividade.

A Rota da Seda

A Rota da Seda



A Rota da Seda (chinês tradicional chinês simples pinyin: sī chóu zhī lù, persa; Râh-e Abrisham, turco: İpekyolu, quirguiz: Jibek Jolu) era uma série de rotas interconectadas através da Ásia do Sul, usadas no comércio da seda entre o Oriente e a Europa. Eram transpostas por caravanas e embarcações oceânicas que ligavam comercialmente o Extremo Oriente e a Europa, provavelmente estabelecidas a partir do oitavo milénio a.C. – os antigos povos do Saara possuíam animais domésticos provenientes da Ásia – e foram fundamentais para as trocas entre estes continentes até à descoberta do caminho marítimo para a Índia. Conectava Chang'an (atual Xi'an) na China até Antioquia na Ásia Menor, assim como a outros locais. Sua influência expandiu-se até a Coréia e o Japão. Formava a maior rede comercial do Mundo Antigo.

Estas rotas não só foram significativas para o desenvolvimento e florescimento de grandes civilizações, como o Egito Antigo, a Mesopotâmia, a China, a Pérsia, a Índia e até Roma, mas também ajudaram a fundamentar o início do mundo moderno. Rota da seda é uma tradução do alemão Seidenstraße, a primeira denominação do caminho feita pelo geógrafo alemão Ferdinand von Richthofen no século XIX.

A rota da seda continental divide-se em rotas do norte e do sul, devido à presença de centros comerciais no norte e no sul da China. A rota norte atravessa o Leste Europeu (os mercadores criaram algumas cidades na Bulgária), a península da Criméia, o Mar Negro, o Mar de Mármara, chegando aos Bálcãs e por fim, a Veneza; a rota sul percorre o Turcomenistão, a Mesopotâmia e a Anatólia. Chegando a este ponto, divide-se em rotas que levam à Antioquia (na Anatólia meridional, banhada pelo Mediterrâneo) ou ao Egito e ao Norte da África.
 
Mapa Fra Mauro, Veneza, 1549
Um cavalo da última dinastia Han - séculos I e II.

Representação do comércio na rota

A última estrada de ferro conectada à rota da seda contemporânea foi completada em 1992, quando a via Almaty-Urumqi foi aberta.

A rota da seda marítima estende-se da China meridional (atualmente Filipinas, Brunei, Sião e Malaca) até destinos como o Ceilão, Índia, Pérsia, Egito, Itália, Portugal e até a Suécia. Em 7 de agosto de 2005, foi confirmado que o Departamento do Patrimônio Histórico de Hong Kong pretende propor a Rota da Seda Marítima como Patrimônio da Humanidade.

Muitas caravanas já seguiram essa rota antiga desde 200 a.C. No passado remoto,os chineses aprenderam a fabricar seda a partir da fibra branca dos casulos dos bichos-da-seda. Só os chineses sabiam como fabricá-la e mantinham esse segredo muito bem guardado. Quando eles fizeram contato com as cidades do Ocidente, encontraram pessoas dispostas a pagar muito caro pela seda.

Os dois lados da rota aprenderam muito sobre culturas diferentes das suas, e isso expandiu suas idéias sobre o mundo.

O viajante veneziano Marco Polo percorreu a Rota da Seda no século XIII.

 
Império Mongol
Após 1260 se desintegrou nos reinos

Origens

Viagem continental
Quando as técnicas da navegação e da domesticação de bestas de carga foram assimiladas pelo Mundo Antigo, a sua capacidade de transporte de grandes cargas por longas distâncias foi muito melhorada, possibilitando o intercâmbio de culturas e uma maior rapidez no comércio. Por exemplo, a navegação no Egito pré-dinástico só foi estabelecida no século IV a.C., período em que a domesticação do burro e do dromedário começaram a ser instituídas. A domesticação do camelo bactriano e o uso do cavalo como meio de transporte foram feitas em seguida.

Como as rotas náuticas provêm um meio fácil de transporte entre longas distâncias, largos terrenos do interior como as planícies, que permanecem longe do litoral, não se desenvolveram como as rotas costeiras. Em compensação, dispõem de terreno fértil para pastos e água em abundância para as caravanas. Estes terrenos permitem a passagem de caravanas, mercadores e exércitos sem precisar envolver-se com povos sedentários, além de fornecer terras para a agricultura. Da mesma forma, também os nômades preferem não ter que atravessar longos descampados.

Enquanto isto, cargas, especiarias e idéias religiosas eram propagadas por todos os cantos, contrapondo a idéia antiga da troca que, provavelmente, conduzia-se somente por uma rota pré-determinada. É improvável que a rota da seda fosse transcorrida somente por terra, visto que percorre a África, a Europa, o Cáucaso e a China.


Transporte antigo
Os povos antigos do Saara já haviam importado animais domesticados da Ásia entre 7500 a.C. e 4000 a.C.. Artefatos datados do 5º milênio a.C., encontrados em sítios bádaros do Egito pré-dinástico indicam contato com lugares distantes, como a Síria. Desde o começo do 4º milênio a.C., egípcios antigos de Maadi importam cerâmica e conceitos de construção dos Cananeus.

O comércio de lápis lazuli provém da única fonte conhecida no mundo antigo, Badakshan, localizada no noroeste do Afeganistão, localidade distante das grandes culturas, com a Mesopotâmia e o Egito. A partir do 3º milênio a.C., o comércio do lápis lazuli foi estendido até Harappa e Mohenjo-daro, ambos no Vale do Indo.

Pensa-se que tenham sido usadas rotas que acompanhavam a Estrada Real Persa (construída por volta do ano 500 a.C.) desde 3500 a.C.. Existem evidências de que exploradores do Antigo Egito podem ter aberto e protegido novas ramificações da rota da seda. Entre 1979 e 1985, amostras de carvão vegetal foram encontradas nas tumbas de Nekhen, onde eram datadas dos períodos Naqada I e II, identificadas como cedro-do-líbano, originário do Líbano.

Em 1994, escavadores descobriram fragmentos de cerâmica gravada com o símbolo serekh de Naramer, datando do milênio 3000 a.C.. Estudos mineralógicos revelaram que os fragmentos pertenciam a uma jarra de vinho exportado do Vale do Nilo até Israel.


Comércio marítimo egípcio
A pedra de Palermo menciona o rei Sneferu da quarta dinastia do Egito enviando navios para importar cedro de alta qualidade no Líbano. Em uma cena no interior da pirâmide do faraó Sahuré, da quinta dinastia, os egípcios surgem retornando com grossos troncos de cedro. O nome de Sahuré é encontrado estampado numa pequena peça de ouro numa cadeira libanesa, e foram encontrados cartuchos da quinta dinastia em recipientes libaneses de pedra; outras cenas em seu templo mostram ursos sírios. A pedra de Palermo também menciona expedições ao Sinai assim como minas de diorita ao noroeste de Abu Simbel.

A mais antiga expedição de que há registo à Terra de Punt foi organizada por Sahuré, aparentemente a procura de mirra, assim como malaquita e electrum. O faraó da décima-segunda Dinastia do Egito, Senuseret III, fez um "Canal de Suez" antigo, ligando o rio Nilo ao Mar Vermelho, para a troca direta com Punt. Por volta de 1950 a.C., no reino de Mentuhotep III, um oficial chamado Hennu fez algumas viagens a Punt. Foi conduzida uma expedição muito famosa por Nehsi e pela rainha Hatchepsut a Punt, realizada no século XV a.C., com o intuito de obter mirra; um relato da viagem sobrevive em um pedido de socorro localizado no templo funerário de Hatshetup, em Deir el-Bahari. Muitos de seus sucessores, incluindo Tutmés III, também organizaram viagens a Punt.


Estanho britânico
A Grã-Bretanha possui grandes reservas de estanho nas regiões da Cornualha e de Devon, no sudoeste da Inglaterra. Por volta de 1600 a.C., o sudoeste da Bretanha experimentou uma explosão comercial, onde o estanho britânico era comercializado por boa parte da Europa (veja também Bretanha pré-histórica). Quando a era do Bronze substituiu a era do Ferro, a navegação baseada em peças de estanho (concentrada no Mediterrâneo) declinou entre 1200 a.C. e 1100 a.C.. No entanto, não foi encontrada nenhuma rota terrestre entre a Bretanha antiga e as civilizações do Mediterrâneo.


Contatos de chineses e centro-asiáticos
Desde o segundo milénio a.C., nefrita e jade são extraídas de minas das regiões de Yarkand e Khotan, ambas na China, para serem comercializadas. Curiosamente, estas minas não estão muito longe das minas de lápis lazuli e espinélio de Badakhshan, e apesar de estarem separadas pelos montes Pamir, muitas estradas cruzam as montanhas, algumas desde tempos muito longínquos.


Placas de jade e pedra-sabão chinesas, no estilo artístico cítio para animais das estepes. Data dentre o intervalo entre os séculos III e IV a.C. (Museu Britânico).As múmias de Tarin, múmias chinesas de um tipo indo-europeu, foram encontradas em Tarin Basin, como as da área de Loulan, localizada na rota da seda, a 200 km a este de Yingpan, que datam de 1600 a.C. e sugerem uma linha de comunicação muito antiga entre ocidente e oriente. Pode-se supor que estes restos mumificados devem ter sido feitos por ancestrais dos Tocários, cuja língua indo-européia permaneceu em uso em Tarin Basin (moderna Xinjiang) até o século VIII d.C..

Muitas sobras do que parece ser seda chinesa foram encontradas no Egito, datando de cerca de 1070 a.C.. Ainda que a origem seja suficientemente confiável, a seda degrada-se facilmente e os especialistas não puderam verificar com precisão se a seda era cultivada (muito provavelmente terá vindo da China) ou se era um tipo de seda "selvagem", que pensam vir da região mediterrânea ou do Médio Oriente.

Contatos próximos da China metropolitana com nômades fronteiriços dos territórios oeste e noroeste no século VIII a.C. permitiram a introdução do ouro da Ásia Central no território chinês. Assim sendo, os escultores de jade chineses começaram a imitar as estepes em suas obras (devido à adoção do estilo artístico cítio para animais das estepes, onde os animais eram retratados em combate). Este estilo refletiu-se particularmente nos cintos de placas retangulares, feitos em ouro e bronze, com versões alternadas de jade e pedra-sabão.


Estrada Real Persa
No tempo de Heródoto, a Estrada Real Persa percorria 2.857 km da cidade de Susa, no baixo Tigre até o porto de Esmirna (moderna Izmir na Turquia) no mar Egeu. Era mantida e protegida pelo império Aquemeu, e possuía estações postais e estalagens a intervalos regulares. Com cavalos descansados e viajantes prontos a cada estalagem, mensageiros reais podiam carregar mensagens em até nove dias, ao contrário de mensageiros normais que demoravam cerca de três meses. A Estrada Real era conectada a outras rotas. Muitas delas, como as rotas indianas e centro-asiáticas, também eram protegidas por Aquemênidas, que mantinha contato regular com a Índia, a Mesopotâmia e o Mediterrâneo. Existem registros em Ester de despachos feitos em Susa para províncias indianas e para o Cush durante o reinado de Xerxes.


Viagens transatlânticas feitas por Roma e Egito
Em 1975, duas ânforas intactas foram resgatadas no fundo da Baía de Guanabara, próxima ao Rio de Janeiro, Brasil. Em 1981, o arqueologista Robert Marx descobriu milhares de fragmentos de cerâmica em um mesmo local, incluindo duzentos pescoços de ânfora. A princípio acreditava-se que haviam sido fabricadas na Roma Antiga, por volta do século II a.C.. Entretanto, o mergulhador Americo Santarelli afirmou ter ele mesmo enterrado as ânforas, as quais teriam sido fabricadas no século XX.

Testes feitos em amostras de tecido biológico de múmias do Egito Antigo, demonstraram a aparição de traços de substâncias químicas que na época eram encontradas somente nas Américas, como o tabaco e a coca. Já que as amostras foram retiradas de diversas múmias, a possibilidade de contaminação é muito pequena.


Conquistas helenísticas
O primeiro grande passo para a abertura da rota da seda entre leste e oeste veio da expansão de Alexandre, o Grande no interior da Ásia Central. Alexandre chegou a Fergana, às fronteiras de Xinjiang (região chinesa, onde ele fundou em 329 a.C. um assentamento grego na cidade de Alexandria Eschate - Alexandria, a distante), e Khujand (agora Leninabad), no Tadjiquistão.

Quando os sucessores de Alexandre, o Grande (os Ptolomeus), assumiram o controle do Egito, em 323 a.C., começaram a estimular o comércio (com a Mesopotâmia, a Índia, e o leste da África) por intermédio dos seus portos no Mar Vermelho e de rotas terrestres. Isto era supervisionado por uma ativa participação de intermediários, especialmente os Nabateus e outros Árabes. Os gregos permaneceram na Ásia Central por mais três séculos, primeiramente através da administração do Império Selêucida e mais tarde estabelecendo o reino Greco-Bactriano na Bactria. Eles continuaram a expandir-se em direção ao oriente, especialmente durante o reino de Eutemides, que expandiu o seu controle à Sogdiana, atingindo e superando a cidade de Alexandria Eschate. Existem indicações que deverão ter liderado expedições longas, como a Kashgar, no Turquestão Chinês. Também deverão ter iniciado as primeiras relações entre China e o oeste por volta de 200 a.C.. O historiador grego Estrabão escreve que "eles estenderam o seu império a locais como Seres [China] e Phryni."


Exploração chinesa da Ásia Central

Zhang Qian (138-126 a.C.)
O próximo passo iniciou-se cerca do ano 130 a.C., com as embaixadas da dinastia Han na Ásia Central, seguindo os relatos do embaixador Zhang Quian (que fora originalmente enviado para obter uma aliança com os Yuehzi contra os Xiong-Nu, embora em vão). O imperador chinês Wudi interessou-se no desenvolvimento das relações comerciais com as sociedades urbanas sofisticadas de Ferghana, Bactria e Pártia; O filho do vento, como era chamado, pretendia tomar alguns territórios destas civilizações e tinha as suas razões: Ferghana (Dayhuan) e as possessões da Bactria (Ta-Hia) e da Pártia (Anxi) eram grandes nações, ricas, e com a população vivendo em residências fixas e disposta a trabalhar em áreas idênticas às que a grande maioria dos chineses se ocupava. Possuíam exércitos supostamente desorganizados, e uma grande capital que incrementaria a economia da China.


Um cavalo da última dinastia Han - séculos I e II.Os chineses tinham grande fascínio pelos cavalos altos e fortes da possessão de Dayhuan (chamados cavalos celestes), que cedia à capital da possessão uma grande importância na luta contra os nômades de Xiongnu. Os chineses fundaram várias embaixadas subseqüentes, algo próximo de dez por ano, para regiões como a Síria seleuca. Deste modo, mais embaixadas foram inauguradas em locais como a Pártia, Yancai (que depois se uniu aos Alões), Lijian (Síria seleuca), Tiaozhi e Tianzhu (noroeste da Índia). Por via de regra, muito mais de dez missões foram enviadas por ano, sendo no mínimo seis. Os chineses fizeram campanha na Ásia Central em várias ocasiões, e foram mesmo registados encontros diretos entre as tropas dos Han e os legionários de Roma (provavelmente capturados ou recrutados como mercenários por Xiong Nu), particularmente durante o ano 36 a.C., na batalha de Sogdiana. Supõe-se que a besta chinesa foi transmitida para os Romanos nestas ocasiões.

O historiador romano Florus também descreve a visita de inúmeros enviados, de entre eles o de Seres, e a visita do primeiro imperador romano, Augusto, que comandou Roma entre 27 a.C. e 14 d.C.:

"Inclusive o resto das nações do mundo que não se subjugaram ao domínio imperial estavam sensibilizadas quanto à sua grandeza, e olhavam com reverência o povo romano, o grande conquistador de nações. Deste modo, até os Cítios e Sármatas destacaram enviados para tentarem estabelecer relações de amizade com Roma. Mais, os Seres comportaram-se do mesmo modo, e os Indianos que habitavam abaixo do trópico de Câncer trouxeram presentes, pedras preciosas, pérolas e elefantes, mas o que não imaginavam no momento era a vastidão da jornada que eles experimentariam, que disseram que ocupou quatro de seus anos. Na realidade, é necessário observar a sua complexidade para perceber que eles são um povo de outro mundo que não o nosso." (A China e o outro lado, Henry Yule)
A rota da seda existe essencialmente desde o século I a.C., seguindo os esforços da China em consolidar uma rota para o Ocidente e a Índia, sendo repleta de povoados na região do Tarin Basin e de relações diplomáticas com as regiões dos Dayuan, Pártios e Bactrianos, mais ao oeste.

A rota da seda marítima foi aberta entre Jiaozhi (controlada pelos chineses, localizada no Vietnã moderno, próximo a Hanói) e os territórios nabateus na costa noroeste do Mar Vermelho. Provavelmente inaugurada no século I d.C., estende-se pelo litoral da Índia e Sri Lanka e pelos portos controlados por Roma, entre eles os principais portos egípcios.


Ban Chao
No ano 97 d.C., Ban Chao atravessou o Tian Shan e as montanhas Pamir com uma armada de 70.000 homens em uma campanha contra Xiongnu (i.e, os Hunos). Chegou a alcançar o mar Cáspio e a Ucrânia, percorrendo a Pártia, onde enviou um enviado chamado Gan Ying (segundo boatos) para Daqin (Roma). Gan Ying detalhou um estudo sobre os países ocidentais, apesar de aparentemente apenas ter chegado ao Mar Negro antes de voltar.

O exército chinês aliou-se com os Pártios e estabeleceu vários fortes a alguns dias de marcha da capital pártia, Ctesiphon, planejando vigiar a região por algumas gerações. Em 116 d.C., o imperador romano Trajano avançou à Pártia e a Ctesiphon e sitiou o território partiano por alguns dias, atingindo as guarnições fronteiriças chincesas, embora não seja conhecido nenhum contato direto.


O Império Romano e a seda
Logo após os Romanos conquistarem o Egito Antigo em 31 a.C., o comércio e a comunicação regular entre a Índia, o Sudeste Asiático, o Sri Lanka, a China, o [Médio Oriente]], a África e a Europa, florescem a um nível nunca visto antes. Rotas terrestres e marítimas tornam-se rigorosamente conectadas, e começam-se a difundir pelos três continentes novos produtos, tecnologias e idéias. O comércio e a comunicação intercontinental tornam-se regulares, organizados e protegidos pelos "Grandes Poderes". O comércio romano logo se desenvolve, auxiliado pelo entusiasmo modístico romano pela seda chinesa (fornecida pelos Pártios), ainda que os Romanos pensassem que a seda era proveniente de árvores:

"Os Seres [chineses], eram famosos pela substância lanosa que obtiam de suas florestas; depois de embeber em água, penteavam para fora as sobras brancas das folhas. Tão variado é o tipo de trabalhos, e tão distante é a região do globo abrangida, para permitir às donzelas romanas ostentar roupas transparentes em público" (Plínio, o Velho, em A História Natural)
O senado Romano decretou, em vão, vários éditos que proibiam o uso da seda como roupa, por motivos econômicos e morais: a importação da seda Chinesa provocava uma grande fluxo de ouro para fora do Império, e as roupas de seda consideraram-se decadentes e imorais:

"Eu posso ver roupas de seda, como se materiais que não escondem o corpo e não têm nenhuma decência pudessem ser chamados de roupas. Multidões de donzelas ordinárias trabalham para que possam ser vistas como adúlteras através destes vestidos finos, e para que os seus maridos não tenham mais conhecimento sobre o corpo delas que qualquer outro estranho ou estrangeiro." (Sêneca, Declamações vol. I)
Os registros de Hou Hanshu contam que o primeiro romano enviado à China, chegou em seu destino através da rota marítima em 166 d.C., iniciando uma série de lista de embaixadas romanas na China.


Intercâmbios culturais e comerciais na Ásia Central

Buda parado, Gandhara, século I d.C.
Um gladiador greco-romano em um vaso de vidro, Begram, século II d.C.
Ocidental em um camelo, dinastia Tang, Museu de XangaiVeja também: Transmissão do budismo na Rota da Seda.
Notavelmente, a fé budista e a cultura greco-budista iniciaram sua viagem em direção ao leste percorrendo a rota da seda, entrando na China por volta do século I a.C.

O império Kushan, na parte noroeste do sub-continente Indiano, estava localizado no centro destas trocas. Eles promoveram a interação multi-cultural sinalizada pelas suas reservas de tesouros do século II d.C., repletas de produtos provenientes do mundo Greco-romano, Chinês e Indiano, assim como no sítio arqueológico de Begram.

O apogeu da rota da seda correspondeu ao império Bizantino no lado oeste, ao império Sassânida (do período de Il Khanate na seção no Nilo—Oxus e do período dos Três Reis, na dinastia Yuan da zona sinítica) no lado leste. O comércio entre leste e oeste também se desenvolveu no mar, entre Alexandria (no Egito) e Guangzhou (na China), graças à expansão dos postos de comércio na Índia. Historiadores também falam de uma rota da porcelana, através do oceano Índico. A rota da seda representa um antigo fenômeno de integração cultural e política juntamente com o comércio inter-regional. Em seu apogeu, a rota da seda sustentou uma cultura internacional que era juntamente encadeada com diversos grupos, como os Magiares, os Armênios e os Chineses.

Debaixo destas fortes dinâmicas de integração única, existem os impactos de uma mudança ser transmitida para os outros, como nas sociedades tribais que anteriormente viviam isoladas no entorno da rota da seda ou nos pastores bárbaros que se desenvolveram a ponto de enriquecerem e criarem oportunidades às civilizações conectadas pela rota. Estas conexões também ajudaram a classes pilhadoras, como os saqueadores e mercenários. Muitas tribos bárbaras começaram a treinar guerreiros aptos a conquistar cidades ricas e terras férteis, e a forjar grandes impérios militares.

A rota da seda deu novo ânimo aos agrupamentos dos estados militares de origem nômade do Norte da China, estimulando as religiões nestoriana, maniquéia, budista e depois islâmica a adentrarem a Ásia Central e a China, criando a influente Federação Khazar. Nom fim da sua glória, a rota trouxe ao Mundo Antigo algo sobre o maior império (geograficamente) já visto: o império Mongol, que tinhas seus centros políticos enfileirados ao longo da rota: Pequim, no norte chinês, Karakorum, na Mongólia central, Samarcanda na Transoxiana, Tabriz, no norte do Irã, Astrakhan no baixo Volga, Bahcesaray, na Criméia, Kazan, na Rússia central e Erzurum, na Anatólia oriental. Com isto, realizou a unificação política de zonas previamente livres e conectadas interminantemente por benefícios culturais e materiais.

Os principais comerciantes durante a Antiguidade eram os Indianos e os Bactrianos, seguidos pelos Sogdianos (do século V até VIII) e depois pelos Persas.

O império Romano, com sua demanda por produtos asiáticos sofisticados, desmoronou no oeste por volta do século V. Na Ásia Central, o Islã expandiu-se do século VII para a frente, provocando uma interrupção na expansão ocidental chinesa com a Batalha de Talas, em 751. Mais adiante, a expansão dos Turcos islâmicos na Ásia Central no século X finalizou com uma ruptura comercial naquela parte do mundo, provocando um extermínio de budistas.


Transmissão artística na Rota da Seda
Primeira estátua chinesa conhecida de Buda, encontrada num sepultamento da dinastia Han na província de Sichuan. Feita por volta do ano 200. O cabelo, o bigode e o manto indicam forte influência do estilo GandharaVer artigo principal: Transmissão artística da Rota da Seda
Muitas influências artísticas transitaram ao longo da rota, especialmente através da Ásia Central, onde os estilos helenístico, iraniano, indiano e chinês estavam aptos para se misturar. A arte greco-budista, em particular, foi o exemplo que mais representou esta interação.


Divindades budistas
A imagem de Buda, originada durante o século I a.C. no norte da Índia (nas áreas de Gandhara e Mathura) foi transmitida progressivamente através da Ásia Central e da China até adentrar a Coréia no século IV d.C. e o Japão no século VI d.C. Geralmente a transmissão de muitos detalhes iconográficos é clara, porém, existem exceções, como a inspiração de Hércules em Nio (guardião das deidades japonês, presente na entrada dos templos budistas do Japão), e as representações do Buda de Kamakura, similares aos estilos da arte grega.

Outra deidade budista, Shukongoshin, é também um caso interessante da transmissão da imagem do famoso deus grego Héracles para o Extremo Oriente através da rota da seda. Héracles era usado na arte greco-romana para representar Vajrapani, o protetor de Buda, e sua representação era usada na China, Coréia e Japão para ilustrar os deuses protetores dos templos budistas.


Deus do Vento
Várias outras influências artísticas da rota da seda podem ser encontradas na Ásia, e uma das mais surpreendentes vêm do fato que o deus grego do Vento, Boreas, transitou toda a Ásia Central e a China para vir a ser o deus japonês do Vento, Fujin (Xinto).
Padrão ornamental floral
Finalmente o tema artístico do rolo de papel floral foi transmitido do mundo Helênico até a região do Tarim Basin, por volta do século II d.C., visto na arte serindiana e nos resquícios da arquitetura de madeira. Este foi adotado pela China entre os séculos IV e VI e foi exposto em vasos e cerâmicas; este foi ainda transmitido para o Japão sob a forma de telhas para telhados de templos budistas japoneses por volta do século VII d.C, particularmente para o telhado do templo de Nara, muitos dos quais retratando com perfeição videiras e uvas.


Era Mongol

A expansão mongol na maioria do continente asiático ocorreu entre 1215 e 1360, auxiliada pela estabilidade política trazida pelo re-estabelecimento da rota da seda (vis-à-vis Karakorum). Em meados do século XIII, um explorador veneziano chamado Marco Polo tornou-se um dos primeiros europeus a percorrer a rota da seda em direção à China. Os ocidentais obtiveram mais conhecimento do Extremo Oriente quando Polo documentou suas viagens em Il Milione. Ele seguiu os passos de numerosos missionários cristãos que foram para o leste, como William de Rubruck, Giovanni da Pian del Carpini, Andrew de Longjumeau, Odoric de Pordenone, Giovanni de Marignolli, Giovanni di Monte Corvino, e outros viajantes como Ibn Battuta ou Niccolo Da Conti. Bens luxuosos foram comercializados de um revendedor para outro, da China para o ocidente, resultando em altos preços nas mercadorias.


Transferência tecnológica para o Ocidente
Junco chinês e navios atlânticos e mediterrâneos. Ilustração do Mapa Fra MauroVer artigo principal: Tecnologia medieval
Muitas inovações tecnológicas do oriente da época serícea dão a impressão de terem sido filtradas pela Europa. O período da Alta Idade Média européia viu grandes avanços tecnológicos, incluindo a adoção direta de inovações seríceas, como a impressão, a pólvora, o astrolábio e o compasso, e sustentando de muitas maneiras o desenvolvimento do Renascimento europeu e da Era da Exploração.

Mapas chineses como o de Kangnido e a cartografia islâmica parecem ter influenciado o aparecimento dos primeiros mapas-múndi práticos, como os mapas de De Virga ou Fra Mauro. Giovan Battista Ramusio, um contemporâneo, declara que o mapa de Fra Muro é "uma cópia aperfeiçoada do mapa trazido de Cathay por Marco Polo."

Muitos juncos chineses também foram observados por estes viajantes, sendo que haviam se equipado com o ímpeto para depois se desenvolver em navios maiores na Europa.

"Os navios, chamados juncos, que navegavam estes mares carregando quatro mastros ou mais, muitos dos quais poderiam ser levantados ou abaixados, e possuíam de 40 a 60 cabines para os mercadores e somente um timoneiro." (texto retirado do mapa Fra Mauro)
"Um navio carrega um complemento de mil homens, sendo seiscentos destes marinheiros e quatrocentos soldados, incluindo arqueiros, escudeiros e besteiros, que atiram nafta. Estas embarcações são construídas nas cidades de Zaytun (ou Zaitun, hoje Guangzhou; 刺桐) e Sin-Kalan. A embarcação tem quatro conveses e contém quartos, cabines e salões para mercantes; uma cabine possui compartimentos e um lavatório, e pode ser trancada por seus ocupantes." (Ibn Battuta)

Desintegração

Império Mongol

Após 1260 se desintegrou nos reinos:
Canato da Horda Dourada


Canato de Chagatai

Ilkhanato

Dinastia Yuan
Entretanto, com a desintegração do império Mongol, houve uma descontinuação da unidade política, cultural e econômica da rota da seda. Senhores turcomanos marcharam para se apossar do lado ocidental da rota, contribuindo com o declínio do império Bizantino. Após os Mongóis, as grandes forças políticas localizadas ao longo da rota tornaram-se separadas tanto economicamente como culturalmente. Iniciou-se o processo de edificação dos Estados regionais em contraposição ao estilo de vida nômade, em parte pela devastação do Mar Negro e em parte pelas invasões de civilizações sedentárias equipadas com pólvora.

O efeito da pólvora na modernização precoce da Europa sucedeu-se na integração dos Estados territoriais e no aumento do mercantilismo; considerando a rota da seda, a pólvora e a avançada modernização teve um impacto negativo: o nível de integração do império Mongol não foi mantido e o comércio declinou (apesar do aumento do intercâmbio marítimo europeu).

A rota da seda parou de servir com uma rota de despacho da seda por volta de 1400.


Os grandes exploradores: Europa chega à Ásia

Representação do comércio na rotaO desaparecimento da rota da seda seguindo o fim dos Mongóis foi um dos principais fatores que estimularam os europeus a alcançar a India e a China através de outra rota, especialmente pelo mar. Enormes lucros seriam obtidos por qualquer um que concluísse um rota comercial direta com a Ásia.

Quando alcançou o Novo Mundo em 1492, Cristóvão Colombo (segundo boatos) desejaria criar outra rota da seda até a China. Foi alegado que um dos grandes desapontamentos das nações ocidentais foi encontrar um continente do meio, antes de reconhecer o potencial da América.

O desejo do comércio direto com a China foi também a principal razão por atrás da expansão dos Portugueses, que fizeram a volta na África por volta de 1480, seguido pelas potências Holanda e Grã-Bretanha no século XVII. Depois, no século XVIII, a China era costumeiramente considerada umas das civilizações mais prósperas e sofisticadas da Terra, apesar de sua renda per capita ser muito baixa comparando-se com a da Europa Ocidental. Gottfried Leibniz repercutiu sobre a percepção de predomínio na Europa antes da Revolução Industrial: "Tudo que é esquisito e admirável provém das Índias Orientais. A população instruída reparou que não há no mundo todo comércio comparado com o da China." (Leibniz)

No século XVIII, Adam Smith declarou que a China foi era uma das mais prósperas nações do mundo, mas tem estagnação persistente, os salários sempre foram pequenos e as classes baixas eram particularmente pobres.

"A China foi por um bom tempo uma das mais ricas, isto é, uma das mais férteis, melhor cultivadas, mais industrializadas, e mais populosas nações do mundo. Dá a impressão, porém, de estar muito tempo imutável. Marco Polo, que a visitou há mais de quinhentos anos atrás, descreve seu cultivo, indústria e abundância de habitantes em quase os mesmos termos em que é descrita por viajantes nos tempos atuais." (Adam Smith, A Riqueza das Nações, 1776)
De fato, o espírito da rota da seda resume-se ao desejo de nutrir um intercâmbio entre Oriente e Ocidente, somado com o chamariz dos altos lucros, e que afetou muito a história do mundo durante os últimos três milênios.

Fonte: http://www.achetudoeregiao.com.br

Quem descobriu o Brasil? Fenícios ? Celtas?

 Desde pequenos contam-nos que “Pedro Álvares de Cabral descobriu o Brasil em 22 de abril de 1500”. Mas o mais interessante de tudo isso é a história de como ele descobriu o Brasil: “Cabral estava contornando a África para chegar à Índia, quando chegou ao cabo da Boa Esperança foi pego de surpresa por uma tormenta que o levou até as terras do que hoje se denomina Brasil “. Uma coisa que sempre me intrigou foi à distância do Cabo da Boa Esperança até o Brasil, que, de acordo com o Google Maps, é de 8000 quilometros. Cabral, com todo seu domínio de ferramentas como o astrolábio e bússola, pôde navegar por meses sem saber se estavam perdidos. Mas isso não vem ao caso, o que quero falar é sobre quem realmente descobriu o Brasil.


Fenícios

Uma antiga lenda diz que os primeiros a buscar o nosso continente foram os fenícios. Grandes navegadores da antiguidade. Na obra Bibliotheca Historica, escrita no seculo 1a.C., fala sobre um capitão fenício que atravessou o “Oceano Ocidental” por volta do ano 500 a.C. e chegou a uma vasta terra de clima agradável e solo fértil.


Celtas?
No início da idade média existiam rumores de terras à Oeste que eram consideradas o paraíso na Terra, a imagem do Eden descrito na Bíblia, que os Celtas davam o nome de Hy Brazil, incrível não? Ninguém sabe ao certo da origem da palavra celta Brazil, alguns historiadores acreditam que vem da palavra barzil, que significa “ferro” ou pode ter vindo da palavra celta bress, que significa raiz. A lenda conta de um religioso Celta que no ano de 556 vai em busca do paraíso na terra em um currach, pequeno basco de madeira, que acabou encontrando a fabulosa terra de Hy Brazil, “cheia de bosques e grandes rios recheados de peixes”. Nenhuma evidência dessa visita dos celtas foi encontrada, mas a possibilidade não pode ser desprezada.


China? No ano de 2001 foi descoberto na China um mapa datado de 1763 com uma inscrição a baixo “O Cartógrafo Mo Yi Tong copiou este mapa a partir de um original de 1418”, até aí nada de estranho, porém olhando o mapa podemos perceber com riqueza de detalhes todos os continentes, inclusive a Oceania e o continente Americano. Aí você me pergunta, “como?”.
No Século 15, enquanto a Europa tentava se destruir com espadas, flechas e pedras, na China já existia armas de fogo, foguetes, torpedos e navios que deixariam qualquer caravela portuguesa no chinelo. Zhong Di grande imperador da dinastia Ming construiu uma frota de 300 ba chuan “navio do tesouro” com 150 metros de comprimento. Essa armada fez varias viagens pelo oceano Índico, dentre elas a mais conhecida partiu de Nanquim em 3 de março de 1421 sob o comando de Zheng He. Contam que Zheng navegou pela costa da África e deu meia volta próximo à Tanzânia. Em 2002 Gavin Menzies lança uma teoria em seu livro “1421” de que Zheng contornou o Cabo da Boa Esperança e continuou chegando assim no Novo Mundo. Claro que essa teoria pode ser desmentida, porém com ela pode-se explicar alguns furos históricos como, por exemplo, o Planisfério de Fra Mauro, desenhado por um monge Italiano em 1459. Nele aparece a localização exata do cabo da Boa Esperança mais de 30 anos antes de seu descobrimento oficial por Bartolomeu Dias. Menzies acredita que esse monge copiou um mapa Chinês da época.


Foi por Portugal, mas antes de 1500?
Em 1882, foi publicado em Portugal um tratado assinado por Duarte Pacheco Pereira, que era desconhecido até então. Nesse tratado diz “No ano de Nosso Senhor de 1498, Vossa Alteza nos mandou descobrir a parte ocidental, passando a grandeza do Mar Oceano, (nome dado ao Oceano atlântico), onde é achada e navegada uma vasta terra firme, grandemente povoada”. Os historiadores acreditavam que essa terra seja o Brasil e a descrição sobre o povo citado nesse tratador, bate muito bem com a tribo aruaque, que estava em grande numero antes da chegado dos portugueses nas Terras tupiniquins.
Como todos sabem a história é feita pelos ganhadores e através de interesses e como tudo na vida é sempre bom olhar os dois lados da moeda e tomarmos a nossas próprias decisões. Isso se você já terminou o ensino médio é não precisa mais fazer nenhuma prova de história.



Bibliografia - Super Interessante – Dezembro de 2006

Especial Consciência Negra: Zumbi Somos Nós (3/7)

Os descobridores do Novo Mundo: Chineses no Brasil? Vikings na América? Exploradores fenícios?

Os descobridores do Novo Mundo


Liu Gang e o mapa
Chineses no Brasil? Vikings na América? Exploradores fenícios?

No outono de 2001, em uma pequena loja de antiguidades na cidade portuária de Xangai, na China, estava pendurado na parede, entre outras relíquias, um velho mapa-múndi acumula poeira. Os olhos atentos de Liu Gang, um dos mais respeitados advogados corporativos da China e colecionador de antiguidades nas horas vagas, examinando o achado, logo notou algo estranho. O mapa estava coberto de anotações em caracteres chineses e uma delas continha a data em que foi desenhado - 1763. Mais abaixo, lia-se: "O cartógrafo Mo Yi Tong copiou este mapa a partir de um original de 1418". A informação era um contra-senso - pelo menos no que dizia respeito à história que se aprende nas lições escolares. Porque o mapa mostrava, com riqueza de detalhes, as Américas e a Austrália. Ou seja, todo o "Novo Mundo", supostamente descoberto por exploradores europeus a partir de 1492, na aventura de conquista que ficou conhecida como Era dos Descobrimentos.

Liu Gang pagou US$ 500, uma pechincha no mercado de antiguidades chinesas, e levou o mapa para casa. Durante os 3 anos seguintes, ficou se perguntando se o documento não seria uma farsa. Até que um dia leu o livro 1421 - O Ano em Que a China Descobriu o Mundo, do ex-oficial da Marinha britânica e historiador diletante, Gavin Menzies (escrita em 2002, a obra também foi lançada no Brasil). Embora nunca tivesse ouvido falar do mapa de Liu Gang, Menzies defendia uma tese que lhe caía como uma luva. A partir de uma pesquisa feita ao longo de 14 anos em diversas partes domundo, o ex-marinheiro concluiu que aquilo que os historiadores ocidentais diziam há centenas de anos estava errado: foram os chineses os primeiros exploradores a alcançar o Novo Mundo - e isso quando Cristóvão Colombo nem era nascido.

Revelado à comunidade científica em janeiro de 2006, o mapa do honorável Liu Gang incendiou manchetes e controvérsias ao redor do mundo. Para alguns, não passava de farsa; para outros, era mais uma entre muitas chibatadas no velho mito dos descobrimentos europeus. Hoje, evidências arqueológicas comprovam que pelo menos uma parte do Novo Mundo já tinha sido descoberta pelo menos 500 anos antes de Colombo - e isso sem falar nas lendas e documentos que falam de viagens transatlânticas na Antigüidade. Mas antes de se voltar na história e analisar cada uma das possíveis descobertas, recapitule a história oficial, contada pelos cristãos europeus, brancos e "civilizados", que desbravaram e colonizaram o globo entre a metade do século 15 e fins do século 18.

A Idade dos Descobrimentos

Cristóvão Colombo
Até os últimos anos da Idade Média (que acabou em 1453 com a queda de Constantinopla), a geografia era quase um gênero de literatura fantástica. Em sua maioria, os mapas feitos na Europa repetiam as idéias dos antigos gregos e romanos: o mundo era formado por apenas três partes - a Europa, a Ásia e a África - e dois mares navegáveis, o Índico e o Mediterrâneo. Esse era o Velho Mundo, que, bem ou mal, estivera conectado durante 5 mil anos anteriores de história. Fora disso, o que havia era trevas, superstição e dragões assassinos.

A invenção que abriu os mares aos exploradores europeus surgiu por volta de 1430: a caravela, obra-prima de marujos e engenheiros portugueses. Até então, a maior parte das navegações ocorria perto do litoral ou em águas conhecidas e mapeadas de antemão. Singrar oceanos e "águas nunca dantes navegadas" era perigoso demais: os barcos só flutuavam com segurança se estivessem a favor dos ventos e uma súbita mudança na circulação do ar podia causar naufrágios e fazer até o comandante mais exímio perder o rumo. A caravela era projetada exatamente para superar esse obstáculo. Tinha um sistema que rotacionava as velas de acordo com a direção do vento e assim permitia a navegação mesmo quando o ar soprasse na direção contrária.

A primeira grande descoberta da era das caravelas não foi um continente, mas uma apavorante península de rochas, castigada por tempestades e ondas gigantes. Era o Cabo das Tormentas, depois rebatizado de Cabo da Boa Esperança - o último limite no sul da África, onde as águas do Atlântico e do Índico se encontram, que foi desbravado por Bartolomeu Dias em 1487. Estava aberto o caminho marítimo entre a Europa e a Ásia, que logo se tornou uma movimentada rota comercial e deu origem ao primeiro processo de globalização em larga escala.

Pouco a pouco, as sombras nos mapas antigos foram clareadas. Em 1492, o genovês Cristóvão Colombo, a serviço da Espanha, atravessou o Atlântico. Sua missão era fazer a volta ao mundo pelo oeste e chegar à Ásia - já que a rota que contornava a África pelo sul era dominada pelos portugueses. Em vez disso, Colombo deu com suas caravelas nas ilhas do Caribe - na época, ninguém falou em descobrimento, já que o próprio Colombo acreditava ter chegado a algum arquipélago no leste asiático. E, em 1500, como você já ouviu milhares de vezes, Pedro Álvares Cabral deparou "por acaso" com o monte Pascoal, no litoral da Bahia - mero "desvio" no meio de uma viagem cujo destino oficial também eram os reinos opulentos do Extremo Oriente. A Idade dos Descobrimentos continuaria por mais dois séculos: o último grande explorador dos mares foi o britânico James Cook, que descobriu oficialmente a Austrália em 1771.

Tudo isso é o que todos aprendemos na escola - mas pesquisas modernas, muitas delas baseadas em documentos bem antigos, mostram que todas as "descobertas" citadas aqui são verdades relativas. Começando pelo "terra à vista" de 22 de abril de 1500.

Quem descobriu o Brasil?

Pedro Álvares Cabral
Verdade seja dita: nosso ilustre e oficial descobridor, o fidalgo Pedro Álvares Cabral, até 1500, nunca tinha pilotado um navio (os detalhes técnicos da viagem ficaram por conta de seus subordinados). Também há indícios de que não fosse um sujeito dos mais brilhantes. E hoje, quase ninguém acredita que ele tenha sido o primeiro navegador a chegar ao Brasil - e muito menos que ele o tenha feito "por acaso".

O maior concorrente de Cabral ao título de descobridor foi um personagem digno de romances de aventura: o também português Duarte Pacheco Pereira. Ele ficou famoso exercendo uma das profissões mais requisitadas da época, a de cosmógrafo, mistura de geógrafo, matemático e marujo - desenvolveu cálculos que lhe permitiam localizar melhor do que ninguém a posição de longitude da embarcação. Era também um guerreiro famoso pela valentia no campo de batalha, como na ocasião em que derrotou exércitos na Índia comandando um punhado de guerreiros. Celebridade lusa, foi transformado em personagem de Os Lusíadas. Em 1498, o rei dom Manuel encarregou esse marinheiro multifunção de uma missão ultraconfidencial: descobrir se as terras encontradas por Colombo do outro lado do Atlântico faziam mesmo parte da Ásia. Pacheco deveria navegar até a linha de Tordesilhas, fronteira diplomática traçada por portugueses e espanhóis para dividir as terras recém-descobertas - ou ainda por descobrir.

Durante séculos, ninguém soube por onde andou Pacheco. Até que, em 1882, foi publicado em Portugal o Esmeraldo de Situ Orbis, ou Tratado dos Novos Lugares da Terra, obra assinada pelo próprio Pacheco mas desconhecida até então. "No ano de Nosso Senhor de 1498, Vossa Alteza nos mandou descobrir a parte ocidental, passando a grandeza do Mar Oceano, onde é achada e navegada uma vasta terra firme, grandemente povoada", relata o navegante, que diz ter avistado nas praias desconhecidas uma multidão de "gente parda, mas quase branca". "Mar Oceano" era outro nome para o Atlântico e a descrição dos nativos bate com a tribo dos aruaques, que tinham pele parda, mas bem mais clara que a de povos considerados "escuros" pelos europeus na época, como africanos, indianos - mesmo entre os indígenas brasileiros, os aruaques são considerados os que têm a pele mais próxima do branco. Pesquisas arqueológicas feitas nos anos 90 revelaram que a tribo era muito numerosa no século 15, o que explicaria também a menção a "terras grandemente povoadas". Outro detalhe: os aruaques povoavam o litoral do Maranhão, por onde passava o traço invisível do Tratado de Tordesilhas.

A tese de que Pacheco esteve no Brasil em 1498 foi defendida pelo português Jorge Couto em A Construção do Brasil, de 1995 - na época, muitos historiadores reclamaram que a teoria estava baseada em um punhado de frases ambíguas. Ainda hoje, não há 100% de certeza quanto às andanças. "É plausível que Pacheco tenha estado no Brasil antes de Cabral e que a Coroa Portuguesa tenha preferido manter o achado em segredo", diz Leandro Karnal, especialista em História da América Latina, da USP. "Os reis de Portugal mantinham em grande sigilo as navegações. Divulgar rotas marítimas era crime punido com pena de morte".

Outro aventureiro famoso que pode ter lançado âncoras em nossas praias antes de Cabral foi o geógrafo e marujo italiano Américo Vespúcio, que entrou para a história ao desmentir as teorias de seu conterrâneo Colombo. Em 1504, Vespúcio publicou um texto chamado Novus Mundus, garantindo que as terras no oeste do Atlântico não eram parte da Ásia, mas um continente completamente desconhecido - "um novo mundo", como diz o título em latim. Você já deve ter notado que a região foi batizada como América - e não, digamos, Colômbia - em homenagem a Vespúcio, o verdadeiro descobridor do Novo Mundo para seus contemporâneos. Já Colombo jurou até o fim da vida que havia chegado à China ou à Índia - a teimosia arruinou sua carreira e ele morreu pobre, esquecido e amargurado.

O que pouca gente sabe é que o rival de Colombo pode ter desembarcado no Brasil em 1499. Pelo menos, é o que Vespúcio dá a entender em uma de suas cartas - cujo conteúdo é questionado por alguns pesquisadores. Em 27 de junho daquele ano, ele diz ter avistado "uma terra cheia de grandíssimos rios", a 5 graus de longitude sul - ou seja, o litoral do Maranhão. Outra viagem, a dos espanhóis Yanez Pinzón e Diego de Lepe, tem evidências mais sólidas - os dois marujos foram condecorados pelo rei da Espanha por terem "descoberto o Brasil" em janeiro de 1500, dois meses antes de Cabral - empate técnico, portanto. Em abril de 1500, o rei português teria simplesmente decidido tomar posse oficial das terras que muitos já sabiam existir. Um "acaso" bem planejado, portanto.

Todas essas hipóteses datam a descoberta do Brasil em algum momento no fim do século 15. Para o britânico Gavin Menzies, porém, a costa do país havia sido mapeada 80 anos antes. Vamos voltar para o ano 1421, quando a China dominava os mares.

A Armada do Dragão

Almirante Zheng He
No início do século 15, a China era, de longe, a nação mais avançada da Terra: seus exércitos já empunhavam armas de fogo quando ingleses, portugueses e espanhóis ainda se espetavam com lanças e flechas. E o maior contraste entre o avanço da China e o atraso europeu estava na engenharia naval. Por volta de 1400, Zhong Di, o imperador que levou a dinastia Ming ao seu auge econômico, construiu uma frota de 300 ba chuan ou "navios de tesouro" - monstros náuticos com 150 metros de comprimento. Relatos da época dizem que, ao serem lançados ao mar, os navios colossais pareciam uma cidade flutuante. Eram, sem dúvida, as maiores e mais mortíferas embarcações já feitas pelo homem até então.

A armada fantástica fez várias viagens pelo oceano Índico, entre 1400 e 1430. A mais famosa partiu de Nanquim no dia 3 de março de 1421, sob o comando do bravo almirante Zheng He, chinês de família muçulmana e eunuco. Os relatos oficiais dizem que o capitão eunuco navegou pela costa da África e deu meia volta nas proximidades da Tanzânia, no leste do continente. Isso não é pouco: o percurso, de 16 mil quilômetros, é praticamente o dobro da distância entre Brasil e Portugal. Mas, desde 2002, quando lançou o livro 1421..., Gavin Menzies vem divulgando a teoria de que a armada de Zheng He seguiu adiante e contornou o Cabo da Boa Esperança, 60 anos antes que Bartolomeu Dias fizesse o mesmo no sentido contrário. Dali, os chineses teriam se lançado à descoberta do Novo Mundo.

Contornar o cabo não seria um desafio tão grande para o ba chuan. A travessia ali é muito mais uma questão de força do que de jeito - não bastava ser um grande navegador, mas era preciso ter uma embarcação capaz de suportar a força dos ventos e das ondas nas "tormentas". A partir dali, a jornada seria facilitada graças à corrente de Bengala, que sobe pela costa da África, começando no Cabo da Boa Esperança. "O navegante que chegasse ao cabo, vindo do leste, seria levado pela corrente para o norte por 4 800 quilômetros", escreve Menzies. Nessa altura, o navio pegaria carona em outra corrente marítima - a Sul-Equatorial, que faz uma curva para o oeste e desemboca exatamente no norte do Brasil. Menzies calculou que a armada chinesa tenha passado pelo litoral do Maranhão ou de Pernambuco em setembro de 1421. Não há como saber se houve desembarque, mas Menzies apostou que os chineses toparam com os índios brasileiros e inclusive ficaram bem íntimos das índias: pesquisas feitas por geneticistas americanos no ano 2000 encontraram semelhannças entre genes chineses e de tribos do Mato Grosso do Sul. Além disso, sabe-se que tribos da Bacia Amazônica sofrem de uma doença chamada chimbere, que causa marcas concêntricas na pele, parecidas com tatuagens. A doença só ataca pessoas com predisposição genética, é passada de pai para filho, e o único lugar onde a situação se repete é o leste da Ásia - lá, a enfermidade se chama tokelau. "O chimbere sul-americano e o tokelau asiático são provas de que houve contato entre as regiões antes da chegada dos europeus", escreveu o geógrafo francês Max Sorre em A Luta Contra o Meio, ensaio científico publicado em 1967 - bem antes de Menzies começar suas pesquisas.

Depois de espalhar seus genes pelo Brasil, os chineses teriam entrado no Pacífico pelo sul da Argentina. Dali, foi só fazer a volta ao mundo. E ainda, bem no finzinho da viagem, Menzies acreditou que eles desembarcaram na Austrália. Em 1965, exploradores desenterraram um enorme leme de navio, com cerca de 12 metros da altura, no estado australiano de Nova Gales do Sul. "Somente um ba chuan teria um leme tão grande", escreveu Menzies, que também apostou no encontro entre os descobridores chineses e os nativos da Oceania. Tanto os aborígenes da Austrália quanto os maoris, povo que vive na Nova Zelândia, contam lendas sobre um grupo de navegantes, "vestidos em longas túnicas", que teria desembarcado em suas terras antes dos europeus (por sinal, há relatos chineses sugerindo que a Austrália já tinha sido descoberta até antes de 1421).

Mas, se tudo isso aconteceu, então por que Brasil e Austrália não falam mandarim e por que não comemos nossos pratos com a ajuda de pauzinhos? A resposta está no amargo regresso de Zheng He à China em 1423. Zhong Di, patrono das navegações, fora derrubado por uma rebelião - e o novo soberano decidiu que conquistar o mundo estava onerando os cofres imperiais. A marinha chinesa foi praticamente desativada e a maior parte dos documentos relativos à viagem de Zheng He foram queimados pelos censores do novo imperador, que queria desestimular extravagâncias futuras apagando os vestígios das passadas. A China desistiu de conhecer o mundo e decidiu se voltar para dentro, transformando a figura de Zheng He num tabu nacional, representante das tendências expansionistas e contrárias à idéia confuciana de que a China tinha de ficar fechada à influência dos "bárbaros". Abandonadas ao léu, as colônias chinesas no Novo Mundo definharam, e sua memória se perdeu. Pelo menos até agora.

Os navegantes de Odin

Leif Eriksson
A teoria de Menzies não é muito popular entre historiadores profissionais - embora nela tudo se encaixe, as provas concretas para apoiá-la são poucas, frágeis e todas fortemente contestadas por historiadores. Mas, se for verdadeira, preencheria muitas lacunas - entre elas, documentos inexplicáveis como o Planisfério de Fra Mauro, desenhado por um monge italiano em 1459 e que repousa na Biblioteca Nazionale Marciana, em Veneza. Nele, aparece a localização exata do Cabo da Boa Esperança mais de 30 anos antes da descoberta oficial de Bartolomeu Dias. Menzies apostou que o monge cartógrafo copiou uma carta náutica desenhada pela armada de Zheng He no início do século 15.

Entre tantas dúvidas, há alguns consensos. Por exemplo: a primeira descoberta da América aconteceu no século 9, séculos antes da dinastia Ming subir ao poder na China. Era a época em que os vikings, antigos habitantes da Escandinávia, exploravam o litoral da Europa e o norte do Atlântico. A Saga dos Groenlandeses, épico viking escrito por volta do século 13, fala das navegações de Leif Eriksson, que teria partido da Groenlândia por volta de 970 e fundado uma colônia no noroeste do Atlântico - a Vinlândia. Conta a saga que o entreposto foi destruído por ataques dos skraelingar - povo misterioso que "disparava flechas, vestia jaquetas de couro e remava botes cobertos de peles".

A lenda da Vinlândia era bem conhecida na Europa na época dos descobrimentos, mas durante séculos acreditou-se que o relato era pura mitologia - até que, em 1960, um grupo de arqueólogos desenterrou uma fazenda tipicamente viking na província de Newfoundland, no litoral do Canadá. As casas estiveram soterradas por centenas de anos, mas um rigoroso trabalho de recuperação arrancou da terra uma quantidade assombrosa de vestígios. "A estrutura de madeira das construções, com pilastras retangulares, é idêntica à de sítios arqueológicos na Islândia e na Groenlândia - que eram colônias vikings", explica o historiador Johnni Langer, que há anos pesquisa as viagens vikings às Américas. "Também foram encontrados vários objetos de metalurgia, como pregos, alfinetes e fusos de tecelagem. E os indígenas que habitavam a região não trabalhavam o ferro." A datação do carbono 14 (teste químico que determina a idade de peças arqueológicas) revelou que tudo isso foi produzido e construído por volta do ano 1000 - ou seja, a data bate com a história da Saga. E os tais skraelingar são a cara dos indígenas beothuk, que viviam na região nos séculos 10 e 11.

Uma questão permanece em aberto: será que os vikings exploraram o interior do continente ou ficaram só na pequena fazenda no litoral? "Hoje, não resta a menor sombra de dúvida de que os vikings navegaram à América no século 10 e ficaram alguns anos por lá. É uma questão de bom senso: seria estranho se não tivessem explorado terra adentro. Mas, por enquanto, faltam provas", diz Langer.

Fenícios e celtas

Diodorus Siculus
As primeiras navegações confirmadas à América foram mesmo as dos vikings - mas séculos antes de Leif içar suas velas, já circulavam no Velho Mundo lendas sobre grandes terras desconhecidas do outro lado do Atlântico. Contam historiadores antigos que o primeiro povo a procurar esse continente remoto foram os fenícios - os maiores navegadores da Antigüidade, antepassados dos libaneses. Na obra Bibliotheca Historica, escrita no século 1 a.C., o romano Diodorus Siculus conta que o capitão fenício Himilcon singrou o "Oceano Ocidental" por volta de 500 a.C. e chegou a uma "grande terra, fértil e de clima delicioso". A descoberta foi mantida em segredo para evitar que outros povos explorassem o lugar - revelar sua localização era crime punido com a morte.

No início da Idade Média, começaram a circular rumores de que o misterioso país do ocidente era uma espécie de paraíso terreno, imagem do Éden descrito na Bíblia. Entre os celtas da Irlanda, a terra encantada ganhou o nome de Hy Brazil. A palavra céltica Brazil tem origens incertas, mas alguns acreditam que derive do termo fenício "barzil", que significava "ferro" - sabe-se que fenícios e celtas comerciaram na Antigüidade e podem ter trocado vocábulos além de mercadorias. Outros tradutores acham que Brazil vem do celta "bress", raiz da palavra inglesa "bless" - abençoar. A história oficial, como se sabe, conta que nosso país foi batizado em homenagem ao "pau-brasil", a madeira "da cor da brasa" que abundava no litoral do Nordeste e cuja casca dava uma tintura vermelha, usada para tingir as vestes mais luxuosas de Lisboa. Essa versão esquece, claro, que a palavra Brasil é mais antiga que existência da própria língua portuguesa, cujos documentos mais antigos só surgiriam no século 9.

Um descobridor alternativo das Américas pode ter sido um religioso celta em busca do paraíso terrestre: A Navegação de São Brandão, obra escrita na Irlanda por volta do ano 900, conta a história de um monge irlandês que em 556 teria partido pelas águas do Atlântico em um currach - pequeno barco de madeira, coberto de peles e usado por pescadores. Reza a lenda que São Brandão, com uma pequena tripulação de monges-marinheiros, encontrou a fabulosa terra de Hy Brazil, "cheia de bosques e grandes rios recheados de peixes", e voltou à Irlanda para contar a história.

Nenhuma evidência arqueológica confirma que fenícios ou celtas tenham estado no Novo Mundo - mas a chance, segundo alguns pesquisadores, não é de desprezar. "Mesmo na falta de provas definitivas, é ingênuo negar a possibilidade de que povos antigos tenham navegado à América", diz Luiz Galdino, membro do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, que pesquisa as descobertas alternativas do Novo Mundo há mais de 30 anos. Galdino aponta para a corrente Sul-Equatorial (a mesma que pode ter trazido os chineses ao Brasil) como o caminho mais provável para exploradores antigos. "Os fenícios tinham navios capazes de carregar mais mantimentos que as caravelas portuguesas. Sabemos que eles navegaram pela costa da África até o século 4 a.C. - e, se um de seus barcos tivesse entrado por acaso na corrente Sul-Equatorial, iria diretamente para as praias de Pernambuco", diz Galdino, que planeja lançar um livro sobre "as descobertas do Brasil". "O mesmo caminho pode ter sido seguido porceltas, romanos, árabes. O Brasil e as Américas foram descobertos várias vezes ao longo dos séculos".

Novo Mundo ou fim do mundo?

James Cook
"E Deus quis que o Novo Mundo fosse descoberto pelos reis cristãos e seus vassalos, e que eles aceitassem alegremente o trabalho de converter e conquistar os idólatras. Bendito seja o Senhor!" Assim o espanhol Gonçalo Fernandes de Oviedo descreve o espírito de sua época, na obra Historia General de las Indias e de las Tierras del Mar Oceano, escrita em 1535. Tempo em que os espanhóis invadiam e dominavam as terras descobertas por Colombo, "para maior Glória de Deus". E foram os próprios conquistadores que começaram a transformar sua aventura em história: Oviedo, um fidalgo que veio às Américas para colonizar, foi o primeiro "cronista de Indias" da coroa espanhola - em outras palavras, historiador oficial encarregado de justificar e glorificar a conquista. A "descoberta" foi descrita como uma vontade divina. Os índios eram infiéis sem civilização, como os negros africanos: deviam se converter ou virar escravos.

Cronistas da época também esculpiram a versão de que nenhum outro povo "civilizado" alcançara o Novo Mundo antes dos ibéricos. Não à toa: o dono, claro, era quem chegou primeiro e a ele cabia o direito de ficar rico com isso. O mesmo raciocínio foi adotado uns dois séculos depois pelos colonizadores ingleses da Austrália: embora a ilha já tivesse sido avistada pelos portugueses em 1522, pelos holandeses em 1614 e talvez pelos chineses bem antes disso, o "descobridor oficial" foi o britânico James Cook, que tomou posse da terra em nome da Coroa inglesa. (De todos os possíveis descobridores da Oceania, só os chineses vestiam "longas túnicas", como os misteriosos visitantes das lendas aborígenes e maoris).

No Brasil, a transformação de Pedro Álvares Cabral em herói só ocorreu no século 19. Até então, livros de história mal falavam nele. Em Portugal, também era pouco lembrado: a casa que pertencera à sua família, na cidade de Santarém, ficou abandonada por séculos e chegou a virar um prostíbulo, até ser restaurada em meados do século 20. "Depois da Proclamação da República, em 1889, o país buscava uma identidade nacional, precisava de um herói em suas origens", diz Leandro Karnal, da USP. Colombo também permaneceu nas sombras por séculos e só foi reabilitado em 1866, quando americanos de origem italiana inventaram o Columbus Day, ou Dia de Colombo. O objetivo era sublinhar o papel da Itália na colonização da América - truque ideológico numa época em que os imigrantes italianos eram desprezados e até linchados pela elite anglo-saxã.

Com o tempo, a celebração da "descoberta" foi exportada para a América Central e do Sul e até hoje faz parte de muitos calendários nacionais. É um bom exemplo de história contada pelos vencedores: europeus, brancos e cristãos. Se nossos livros tivessem sido escritos pelos perdedores, talvez todos esses relatos não fossem contados como épicos, mas em tom apocalíptico. No México e no Peru, sacerdotes indígenas decretavam que seus deuses nativos estavam mortos e anunciavam o fim da civilização. O que os "descobertos" pensavam sobre a tal Idade dos Descobrimentos pode ser resumido em um verso, escrito por um poeta indígena do México na aurora do Novo Mundo: "Oh meus filhos, em que tempos detestáveis vocês foram nascer!"

Os primeiros moradores

Fóssil batizado de Luzia
Discutir se foram chineses, vikings ou espanhóis os primeiros a chegar ao Novo Mundo guarda um certo equívoco histórico. Afinal de contas, as Américas já tinham sido descobertas havia pelo menos 15 mil anos - e a Oceania, há cerca de 46 mil! Os pioneiros vieram da Ásia, quando os ancestrais dos portugueses ainda viviam na Pré-História.

Os primeiros australianos, ancestrais do povo que os colonizadores ingleses batizaram de aborígenes, eram caçadores e pescadores de pele escura, originais do Sudeste Asiático. Chegaram à Oceania caminhando - naquela época, havia ligações por terra entre as ilhas do Pacífico e o litoral da Ásia. O que pouca gente sabe é que os primeiros habitantes da América não foram os ancestrais dos nossos índios de pele avermelhada e olhos puxados, mas parentes dos australianos antigos. Em 1999, o arqueólogo brasileiro Walter Neves examinou um crânio feminino encontrado em Minas Gerais e descobriu feições aborígenes (ou "australo-melanésias", para usar o termo científico). O fóssil foi batizado de Luzia e data de 12 mil anos atrás - a primeira brasileira de que se tem notícia. Os tataravôs de Luzia devem ter chegado à América vindos do Sudeste Asiático.

Já os ancestrais dos nossos tupiniquins, dos astecas mexicanos e dos apaches dos EUA só começaram a chegar ao Novo Mundo há 12 mil anos. Vieram da Sibéria, atravessando o estreito de Bering e se espalharam para o sul. Como o interior da América do Norte estava congelado na época, os prototupis teriam navegado até a América Central e, a partir daí, desbravado o interior, chegando até os confins da Terra do Fogo, no extremo sul do continente. Segundo Walter Neves, devem ter entrado em conflito com os australo-melanésios, na disputa por caça e território. "Não se sabe ao certo quando o povo de Luzia foi extinto, mas é possível que alguns poucos ainda existissem na época do descobrimento português".

Como se enfrentava o mar bravio?
Currach
O pequeno barco irlandês feito de madeira era coberto com peles animais e tripulado por até 10 pessoas. Em 1978, um britânico construiu uma réplica do currach e viajou da Irlanda ao Canadá parando nas ilhas do norte do Atlântico.
Knorr
O barco viking era comprido e esguio, com linhas de remos nas laterais e uma única vela. Seu casco deslizava sobre ondas bravias em vez de perfurá-las - um truque de engenharia náutica para driblar as tempestades do norte.
Caravela
Ao contrário de todos os barcos acima, a invenção portuguesa não tinha velas quadradas, mas triangulares. Isso permitia navegar a "barlavento" (quer dizer, na direção contrária aos ventos) com muito mais rapidez e segurança.
Birreme
O navio fenício era a melhor embarcação da Antiguidade. Tinha 2 ou 3 fileiras de remos - daí o nome birreme ou trirreme - e até 35 metros. Foi copiado por gregos e romanos, que o usaram para dominar a navegação no Mediterrâneo.
Ba chuan
O navio chinês foi a mais potente embarcação construída até o século 20. Levava 200 toneladas de carga, o que garantia autonomia de 7 mil quilômetros - o suficiente para cruzar o Atlântico sem paradas.


Histórias oficiais e histórias alternativas


Quem descobriu a América?
Aprende-se: Em 1492, Cristóvão Colombo foi o primeiro navegante a chegar à América.
As outras versões: A grande armada da China imperial teria descoberto a América em 1421. Mas arqueólogos afirmam que vikings aportaram no Canadá por volta do ano 1000. E há relatos de que fenícios descobriram uma "grande terra no Ocidente" por volta de 500 a.C.

Quem dobrou o Cabo da Boa Esperança?
Aprende-se: O navegador português Bartolomeu Dias foi o primeiro navegante a contornar o promotório no sul da África, segundo os relatos oficiais, em 1487.
As outras versões: De novo, a taça seria dos chineses. Gavin Menzies disse que um ba chuan superou as fortes ondas e ventos do cabo cerca de 60 anos antes de Dias realizar a façanha.


Quem descobriu o Brasil?
Aprende-se: Um mero acaso a caminho das Índias. Assim Cabral descobriu o Brasil, em 1500.
As outras versões: Em missão secreta Duarte Pacheco Pereira teria chegado em 1.498. Outros ibéricos a aportar aqui antes de Cabral podem ter sido Américo Vespúcio, Yanez Pinzón e Diego de Lepe. E há quem defenda que chineses não só estiveram aqui, como fizeram filhos com as índias.

Quem descobriu a Austrália?
Aprende-se: Em 1771, o britânico James Cook mapeou a Oceania, então último continente habitado e desconhecido.
As outras versões: O português Cristóvão de Mendonça pode ter passado pela Austrália em 1522 - mas a primeira "descoberta" confirmada foi a do holandês Willem Janszoon, em 1605. Menzies garante que os chineses descobriram tudo em 1421.

Quem contornou o Estreito de Magalhães?
Aprende-se: O nome já entrega a história - a passagem entre o Atlântico e o Pacífico foi encontrada em 1520 pelo português Fernão de Magalhães.
As outras versões: Em 1421, a armada chinesa teria navegado pela costa da América do Sul até a Patagônia e dali seguiu rumo ao Pacífico.

Quem fez a primeira volta ao mundo?
Aprende-se: Após descobrir o estreito que leva seu nome, Magalhães navegou o Pacífico e tornou-se o primeiro europeu a dar a volta no globo. Morreu nas Filipinas, em combates com indígenas.
As outras versões: O circundamento completo da Terra já teria sido feita sob o comando do navegador Zheng He 100 anos antes da expedição de Magalhães.