segunda-feira, 15 de abril de 2013

O imaginário popular na época dos descobrimentos quinhentistas: da terra plana ao mundo esférico.

 
Discutir a questão do imaginário quinhentista é de fundamental importância para entender o período das grandes navegações. 
Este foi um fator que fomentou ou retardou o achamento de novas terras.
A despeito de existirem fortes indícios que o mundo, tal como se apresenta atualmente, com boa parte de seus contornos, fosse conhecido de alguns desde a antiguidade.
A América já era conhecida muito antes de Colombo.
Durante a idade antiga a ciência chegou a desenvolver-se de tal modo que hoje sabemos que os romanos possuíam um relativo conhecimento geográfico da Ásia e África.
Eles ainda não desconheciam de todo a existência da América.
Uma vez que foram encontradas moedas cartaginesas do século IV a.C. nos Açores, e moedas romanas de datas posteriores na Venezuela.
No entanto, alguns historiadores defendam a tese de que tais embarcações teriam sido arrastadas por tempestades, nos tempos clássicos e que, portanto, não existiriam garantias de que a noticia da existência da América tenha chegado a Europa.
Porém como explicar o mito da Atlântida, o continente perdido, cuja existência o filosofo Platão narra em suas obras Timeu e Critias.
Não seria tal continente pura e simplesmente a América?
Na verdade, o que importa saber é que tal conhecimento, de um modo ou de outro, era um tanto vago e acabou se perdendo para a imensa maioria da população européia com o esfacelamento do Império Romano.
Sabemos também que os chineses, em meados de 1400, possuíam uma tecnologia marítima em muitos aspectos igual se não superior a européia, mantendo relações comerciais regulares com o Sudeste asiático.


 
 
Já está provada através da cartografia do período que os chineses realizaram expedições comandadas pelo Almirante Cheng Ho, chegando até o Sri Lanka, África Oriental, e acreditasse ao Norte da Austrália e possivelmente ao litoral da América do Norte, através do oceano Pacifico.
Acontece que a China desta época, por um lado se considerava cultural e politicamente superior aos demais povos, aos quais olhava como bárbaros, e, por outro angulo relegava a um plano inferior o comércio, considerando-o até mesmo desonroso.
De modo que as expedições de Cheng Ho não tiveram continuidade e, precisamente quando os portugueses começaram a abrir caminho rumo à Índia, a China havia se encerrado em um isolamento voluntário.
Assim, a existência de um continente ainda inexplorado era conhecida em alguns mosteiros medievais, onde o conhecimento acumulado na antigüidade foi confinado depois da queda do Império Romano.
Igualmente, alguns homens de letras conheciam vagamente as potencialidades da Ásia e da África através do contato com relatos de viajantes que estiveram na China.
A noção da existência da América estava expressa em alguns mapas e livros, mas o advento do fechamento da sociedade em feudos e as dificuldades de comunicação fizeram com que tais conhecimentos permaneceram ocultos da maioria.
Especificamente em Portugal, dado a guerra de reconquista, a pilhagem aos mouros proporcionou aos lusos um contato com livros escritos em árabe que continham informações valiosas sobre a América, Ásia e África.
Tratavam-se em sua maioria de traduções de obras gregas e latinas, hoje, em sua quase totalidade, perdidas.
A grande questão é que, enquanto alguns letrados e particularmente os níveis mais altos da nobreza portuguesa possuíam uma visão mais condizente com a realidade, imperava junto à maior parte da população um quase total desconhecimento acerca de tudo além e aquém da Europa.
A ignorância cartográfica chegava a se estender a alguns lugares mais afastados ou isolados dentro do próprio continente.
Dentro deste contexto, a igreja Católica, em plena fase de expansão e consolidação de seu rebanho, desde a queda do Império Romano, procurou fazer uso da ignorância reinante entre povo para reforçar relatos míticos que servissem a comprovação de seus dogmas ou a seu propósito de conversão.
Como o conhecimento cartográfico se perdeu?
Muitos pergaminhos gregos contendo importantes informações científicas foram simplesmente apagados, em uma época em que o papel era valioso e escasso, para dar lugar à transcrição de trechos bíblicos ou tratados teológicos.
Era então usada uma técnica que reaproveitava o papel dos pergaminhos antigos, transformando-os em material a ser reutilizado em fólios medievais.
Atualmente, graças à evolução tecnológica, partes destes textos antigos começaram a ser recuperados por meio de uma técnica que consegue ler eletronicamente o texto apagado sem danificar o que foi escrito por cima, que ironicamente terminou por adquirir também seu valor histórico.
A mentalidade quinhentista.
Para os homens que viveram na época da transição da Idade Média para a Moderna, o possível não se distinguia do impossível, com freqüência, em nome da experiência de outrem, de alguém digno de fé, de quem se ouvia uma história sobre monstros, criava-se uma imagem aterrorizadora do desconhecido.
Neste período, todos viviam em um mundo de mais ou menos, de ouvir dizer, quando o Oriente era considerado como confins da Terra.
Entretanto, não obstante ao fato de obras valiosas terem se perdido por serem considerados textos escritos por pagãos ou ainda por contrariarem a ordem que se queria estabelecer, parte do legado antigo foi preservado em alguns mosteiros de orientação menos ortodoxa.
A maior parte dos textos antigos sobreviveu graças às traduções árabes dos textos em grego, contudo, o acesso a este conhecimento, como já mencionado, era restrito e na maior parte dos casos combatido ferozmente pela igreja, quase sempre com o apoio do Estado.

Perseguições e avanços.
Não por acaso, filósofos e cientistas, ao longo de toda Idade Média, sofreram retaliações variadas, tendo suas obras censuradas, sendo presos e mesmo queimados como hereges por defenderem idéias cuja uma parte considerável do clero, do poder estatal e da comunidade científica sabia estarem corretas.
Desde pelo menos Eudoxo (400-347 a.C.), discípulo de Platão, tinha-se em conta, por exemplo, que a Terra era redonda e não plana.
Um conceito que foi confirmado por Aristóteles, filósofo que foi reabilitado pelo cristianismo e amplamente utilizado em defesa dos dogmas cristãos, dado, sobretudo, sua teoria acerca do geocentrismo, completada posteriormente por Ptolomeu.
Segundo este último, a qual a Terra seria o centro do universo, tese em conformidade com o teocentrismo cristão, para o qual Deus era o centro do universo.
Nada mais natural que todos os astros girarem em torno do local habitado pela principal criação divina, a mais significativa, aquela feita a sua própria semelhança.
No entanto, a despeito deste erro, Arquimedes (287-212 a.C.), criador do PI, usado para calcular a razão entre o perímetro de uma circunferência e o seu diâmetro, crente de que poderia calcular qualquer distância existente, teria chegado mesmo a um número bastante próximo do real diâmetro da esfera terrestre.
O que seria confirmado em 1231 pelo filósofo e médico muçulmano Ib Rushd, conhecido no ocidente como Averróis.
Ele deduziu e provou a partir dos antigos a esfericidade da Terra.
Todavia, a simples menção de que a Terra era redonda, afirmação também acompanhada do conceito de que a terra não era o centro do universo (heliocentrismo), valeu punições a Copérnico e Galileu.
O mesmo motivo que fez com que Colombo fosse taxada de louco por muitos de seus contemporâneos, embora, quando de sua passagem por Portugal a procura de financiamento, as razões que levaram os lusos a recusarem seu pedido não tenha sido exatamente esta.
Ao contrário, alguns acreditam que tenha sido em Portugal que Colombo adquiriu os conhecimentos básicos que lhe permitiriam chegar a América.

O imaginário como obstáculo.
Apesar do pressuposto básico que nortearia as grandes expedições, a partir do século XV, fosse conhecido desde a antigüidade, como outras informações, esta também ficou confinada a um circulo restrito.

Em muitos Estados Nacionais em formação, tamanha foi a propaganda da igreja em contrário que até os elementos mais esclarecidos, leiam-se aí aqueles com acesso aos meios de informação da época, passaram a acreditar firmemente nos mitos populares sobre o Mar Tenebroso acabando em um abismo.
Na península Ibérica, devido à forte religiosidade de seu povo, este imaginário negativo, como em outras partes da Europa, enraizou-se e persistiu por muito tempo, resistindo à transição da Idade Medieval para a Moderna.
No caso especifico de Portugal, não se poderia esperar nada diferente, pois, enquanto toda a Europa se entregava ao cartesianismo (doutrina filosófica-cientifica criada pelo filosofo francês René Descartes no século XVII), os portugueses continuavam a seguir os velhos e ultrapassados manuais baseados em Aristóteles.
O atraso português, por este prisma, era muito grande frente às outras nações européias.
A estagnação das ciências não ligadas ao aperfeiçoamento da indústria náutica terminou por refletir diretamente na mentalidade portuguesa e, consequentemente, no imaginário popular.
É mesmo surpreendente que uma nação com tais características tenha conseguido superar o medo do suposto desconhecido, uma vez que a carga negativa acerca do Mar Tenebroso constituiu um grande problema ao recrutamento de voluntários dispostos a se engajarem na empreitada marítima lusitana.
Não fosse o imaginário popular ibérico, a rota comercial para a Índia poderia ter sido aberta muito tempo antes do que concretamente aconteceu.
Excetuando-se os obstáculos naturais, tais como as correntes marítimas e a direção dos ventos, era justamente o imaginário que impedia os portugueses de colocar em marcha a expansão ultramarina.
Fazia-se necessário expurgar as fantasias da coletividade, o que se começaria a acontecer depois da passagem do cabo Bojador, em 1434, após várias tentativas, por Gil Eanes, um escudeiro do Infante D. Henrique.

Mudando a mentalidade.
Antes do feito de Gil Eanes, segundo palavras de um cronista da época, os marinheiros se recusavam passar para alem do cabo Bojador, não por míngua de fortaleza nem de boa vontade, mas pela novidade do caso, misturado com geral e antiga fama, a qual ficava já entre os mareantes de Espanha, quase por sucessão de gerações.
Ninguém queria por sua vida em semelhante aventura, pois se tinha em mente que, ir além dos termos impostos pelos padres, poderia significar a perdição das almas juntamente com os corpos.
Diziam os mareantes que depois do cabo não haveria gente nem povoação alguma, a terra não seria menos areosa que os desertos da Líbia, onde não haveria água, nem arvore, nem erva verde e o mar seria tão baixo, que a uma légua de terra não haveria de fundo mais que uma braça.
Para além destes impedimentos, na concepção popular, ao passar o Bojador às correntes seriam tamanhas, que navio que lá passe, jamais poderia tornar.
De modo que aqueles que se dispunham a tripular os navios enviados para cruzarem esta barreira psicológica, diante do medo de cair em um abismo, ou mesmo, no caso de alguns homens mais esclarecidos, de encontrar correntes contrarias que impossibilitassem o retorno a Portugal; sempre no último momento, acabavam por desistir de sua missão.
Em casos extremos, várias tripulações chegaram a insubordinarem-se contra comandantes mais ousados ou corajosos que tentaram levar a termo sua missão.
Na verdade, até o advento do estabelecimento da Carreira da Índia, apesar da abundância de desocupados nos centros urbanos, por conta também do imaginário popular negativo acerca do Mar Tenebroso, mas, igualmente, pelo receio de viver a história de privações e brutalidades que se sabia serem corriqueiras a bordo dos navios, a carência de mão de obra foi sempre um problema a ser contornado.

Embora a fome e a violência fossem constantes na vida dos desocupados urbanos, não havia nenhum tipo de atrativo, em pleno século XV, na vida no mar.

O risco era grande demais, sem que, em contrapartida, existisse qualquer tipo de compensação àqueles que conseguissem sobreviver ao regime de pão e água das caravelas lusitanas.
Foi por este motivo que, precisamente, um escudeiro do Infante precisou vencer seus próprios medos e, mais do que isto, convencer sua tripulação da necessidade de prosseguir, vencendo a primeira grande barreira psicológica imposta pelo medo de cruzar o Bojador.
No entanto, o medo do desconhecido havia enraizado no imaginário do povo miúdo o medo não só de perder o corpo como também a alma.
A imagem que se tinha do desconhecido, como vimos, não era a imagem de um vazio desprovido de juízo, mas sim a imagem do próprio inferno desprovido de retorno.
Mesmo com o feito de Gil Eanes, o homem comum continuou a desconfiar da veracidade de seu relato, os mitos acerca do Mar Tenebroso tinham raízes profundas e não tão fáceis de ser arrancadas a força pela Coroa, fazia-se necessário combater o mítico com o mítico.

O mito do Prestes João.
No âmbito de um contexto povoada de monstros e monstruosidades, o mito do Prestes João em conjunto com outros de menor envergadura passaram a ser utilizados para atrair mão de obra à empreitada marítima.
Era a única saída, já que, apesar da já mencionada grande quantidade de homens desempregados a perambularem pelas cidades, dado o êxodo rural verificado desde pelo menos o final de trezentos, intensificado no decorrer do século XV, a Coroa encontrou dificuldades no recrutamento voluntário de marinheiros para tripular suas caravelas.
Embora os lusos houvessem se lançado a aventura marítima em busca do lucro, buscavam também aliados em sua luta contra os infiéis.
É exatamente atendendo este anseio que a lenda do reino do Preste João se encaixou perfeitamente.
Segundo o mito, um poderoso reino cristão estaria situado entre a Etiópia, a África Oriental e a Índia.
Este reino poderia ser um aliado em potencial dos portugueses, o que exerceu um grande fascínio sobre o imaginário popular e estimulou os lusos a rumarem cada vez mais longe em suas explorações marítimas, sempre, esperando encontrar o Prestes João ao dobrar da esquina.
Segundo o historiador inglês Charles Ralph Boxer, forçados ou não, os relatos do Prestes João chegaram até Portugal através de monges e peregrinos por volta de 1402.
As versões mais extravagantes da lenda davam conta que comiam a mesa de esmeraldas do soberano 30.000 pessoas, sentando-se ao seu lado direito trinta arcebispos e ao seu lado esquerdo vinte bispos.
Entretanto, mais tarde, a existência deste reino acabou sendo realmente confirmada, ele existia.
Porém, tal reino praticava um tipo de cristianismo muito mais próximo ao ortodoxo do que ao romano, era ainda mais pobre do que Portugal.
Quanto aos relatos de Marco Polo, circularam muito mais entre os espanhóis do que entre os portugueses.
Em Portugal o relato de caráter mítico de maior circulação foi realmente o do Preste João.
Na verdade, confluíram dois mitos diferentes que, muitas vezes confundidos, exerceram grande estímulo a busca dos portugueses por um caminho marítimo por mares nunca dantes navegados.

Os cristãos de São Tomé.
Antes da chegada do mito do Prestes João em Portugal, circulava, desde muitos séculos, na Península Ibérica, a lenda dos cristãos de São Tomé, uma comunidade fundada pelo próprio apóstolo no Oriente que remontava ao inicio do cristianismo.
Segundo consta, toda velha tradição teria sido divulgada por meio das apócrifas Atas de Tomé, um tratado gnóstico escrito em siríaco (um dialeto aramaico), no inicio do século III, em Edessa (atual Urfa, no sul da Turquia), na altura o centro da cristandade siríaca e mais tarde da heresia nestoriana.
Embora os fragmentos das Atas que sobreviveram até nossos dias não passem de revisões católicas do texto gnóstico, John Villiers, professor do departamento português do colégio Real da Universidade de Londres, estudando o tema, chegou à conclusão de que teria circulado por Portugal uma versão bem especifica do mito.
Segundo esta versão, após a Crucificação, os apóstolos teriam distribuído entre si as diferentes partes do mundo para desenvolverem as suas missões, a Índia ficou entregue a Tomé.
Este, apesar de mostrar-se relutante em partir, argumentando que seu estado de saúde não era o melhor e que só sabia falar hebraico, depois de uma aparição de Jesus, terminou sendo vendido pelo próprio Messias como escravo a um mercador indiano chamado Habban, que tinha sido enviado à Palestina pelo seu senhor, o rei Gondofares, em busca de um carpinteiro para construir o seu novo palácio.
As Atas dão conta de que Tomé foi encarregado de construir o palácio, tendo-lhe o rei dado, para a tarefa, uma avultada quantia de dinheiro, mas, em vez de utilizá-lo na construção do palácio, distribuiu o dinheiro pelos pobres.
O que enfureceu de tal forma Gondofares que mandou açoitar e prender Tomé, ao mesmo tempo em que seu irmão Gad morria de desgosto ao ver este desperdício de bens reais.
Na sua subida ao céu, Gad viu um belíssimo palácio que lhe disseram pertencer a Gondofares e ter sido construído por Tomé.
Gad pediu então permissão a Deus para regressar a Terra e informar o irmão da magnífica residência que o aguardava na vida seguinte.
Recendo a noticia em sonho, Gondofares ficou tão impressionado com estes acontecimentos milagrosos que libertou Tomé e converteu-se ao Cristianismo, juntamente com muitos dos seus súditos.
Depois do ocorrido, Tomé teria sido convidado para o reino de outro governante indiano chamado Mazdai, onde converteu a rainha Tertia e o seu filho Vizan e pregou o celibato com tanta eloqüência que Tertia negou seu leito a Mazdai.
Assim, Tomé atraiu sobre si a ira do rei, que mandou quatro soldados armados de lanças para o matarem, numa montanha dos arredores da cidade.
Morto, Tomé teria sido sepultado nos túmulos dos antepassados do rei Mazdai, por Visan, a quem ordenou diácono, e por um indiano de nome Sifur, a quem ordenou padre.
Mais tarde sua sepultura teria sido aberta, ao que se descobriu que os ossos tinham sido removidos por alguns dos seguidores do Santo, os quais os tinham retirado secretamente e levado para as regiões do Ocidente, ou seja, de volta para Edessa.
Ao passo que Mazdai teria se arrependido e, tal como Gondofares, abraçado o Cristianismo, no que teria sido seguido por muitos dos seus súditos.
Até que ponto o relato encontra correspondência em algum foto verossímil é difícil precisar, contudo, existem provas arqueológicas que atestam a existência dos reis citados no período em que S. Tomé supostamente teria estado na Índia.
Além disto, relatos de cruzados e comentadores confirmam que cavaleiros cristãos visitaram o túmulo de São Tomé, ou que acreditavam ser dele.
Por esta altura o mito de São Tomé se cruza com o do Prestes João.


Pela tradição, segundo um relato anônimo de 1122, intitulado De adventum patriarchae indorum ad urbem sub Calixto papa segundo, certo patriarca João das Índias, leia-se aí do Oriente, teria viajado para Constantinopla, para receber o pálio de um patriarca ortodoxo grego e donde, acompanhado por embaixadores papais, passara à corte do papa Calisto II (1119-1124).
Em Roma, João das Índias tinha levado consigo notícias de uma cidade de nome Hulna, capital de um reino indiano situado num rio chamado Phison, que era habitado exclusivamente por cristãos, apesar de muitas das suas práticas não serem católicas.
Nos arredores da cidade indiana cristã existiria uma montanha no meio de um lago, na qual estava edificada a igreja de São Tomé, o Apóstolo, onde suas relíquias mortais estavam conservadas.
A lenda contava que por altura do dia da festa de São Tomé, as águas do lago recuavam e os crentes reuniam-se na igreja para receber, milagrosamente, a Sagrada Eucaristia das mãos do Santo, que se recusava a administrá-la aos infiéis, aos hereges e aos pecadores, depois da festa, as águas regressavam e enchiam de novo o lago.
João das Índias era ninguém menos que o Prestes João, apesar da confusão geográfica, devemos lembrar que estamos abordando as mentalidades, o imaginário, o qual nem sempre encontra correspondência no real. 
A busca pelo Prestes João
O nome Prestes João teria sido derivado do latim “Presbyter Iohannis”, cuja tradução literal seria Sacerdote João.
Uma carta falsificada do soberano enviada a Frederico Barba Roxa, forjada, ao que parece, por Cristiano, arcebispo de Mogúncia (1165-1183), teve ampla circulação em Portugal.
Este documento apresentava o Prestes como um soberano poderosíssimo, servido por um patriarca, doze metropolitas, vinte bispos, sete reis, sessenta duques e trezentos e sessenta e cinco condes, com um exército de 10.000 cavaleiros e 100.000 infantes.
Em seu reino não existiria mentira nem qualquer forma de malícia e, no leito dos rios do país, haveria pedras preciosas, possuindo suas águas o poder de curar todas as enfermidades.
Pouco importa a verossimilhança deste e de outros relatos míticos, seja como for, vários relatos se misturaram e foram transmitidos oralmente durante toda a Idade Média, confluindo com a lenda do Prestes João.
Enraizou-se no imaginário popular Ibérico uma imagem paradisíaca de um reino vasto, rico e poderoso que poderia tornar Portugal um grande Estado.
Não obstante ao fato do real reino do Prestes João ser ainda mais pobre que Portugal, bem como os cristãos da Índia existirem em número reduzido, em comunidades segregadas que viviam isoladas nas montanhas.
Segundo um índice cronológico anônimo, impresso em 1841, pertencente ao acervo da Biblioteca Nacional de Lisboa, embora tenha sido D. João II um dos maiores incentivadores da expansão ultramarina, especialmente motivado pela busca do Prestes, “havia na Europa desde o século 12 a idéia vaga e confusa de hum príncipe mui poderoso d’aquelle oriente, que seguia e professava a religião christãa”.
Os lusos enviaram muitas expedições de missionários em busca do Prestes, mandando embaixadas a Pérsia, a Tartaria, a China e a outras terras Orientais, intensificando estas viagens terrestres a partir do século XIV.
É fato que os reis portugueses se valeram de mercadores judeus, conhecedores do árabe, para acompanhar missionários ao Oriente.
Estas embaixadas alcançaram tal sucesso que, mesmo depois de iniciada a busca de um caminho marítimo para a Índia, pela altura em que Bartolomeu Dias, em 1486, foi enviado a explorar a África, embaixadas continuavam mandadas em busca do Prestes-João.
Algumas chegaram até o Cairo e em Jerusalém, estima-se que talvez mesmo até a Índia.
Destarte, mito como do Prestes João e dos cristãos de S. Tomé estimularam as explorações ultramarinas, servindo para vencer a imagem negativa presente no imaginário popular.
Concluindo.
Em sua tentativa de encontrar o Prestes João e os cristãos de São Tomé, a Coroa portuguesa conseguiu vencer o imaginário popular negativo e adquirir conhecimento prévio das rotas comerciais e relações na Índia.
Os missionários e exploradores puderam transmitir informações para Coroa, facilitando a penetração lusitana em meio ao milenar comércio de especiarias, desde muitos séculos controlados por mercadores muçulmanos.
Todavia, talvez os portugueses nunca tivessem chegado ao Oriente e nem tampouco as explorações marítimas atingido o ritmo rápido que alcançariam, não fosse o poder régio ter tomada as rédeas do movimento em direção ao Atlântico.
A manipulação do imaginário popular foi essencial para atrair voluntários dispostos a rumarem em direção ao desconhecido.
Os mitos fabulosos, combinados a audácia e coragem de alguns mareantes e aos relatos contados por aqueles que retornavam da Índia, conseguiram propiciar a Coroa a oportunidade de reverter o quadro negativo presente na mente da imensa maioria do povo miúdo.
A imagem a substituir os monstros enraizou no imaginário popular uma Índia onde os pagodes e as casas eram mais ricas que qualquer igreja de em Lisboa, sendo as mesmas todas cozidas em ouro de todos os quilates.
A cobiça dos portugueses foi aguçada em favor da empreitada ultramarina, que pensando em colocar as mãos nas especiarias e metais preciosos, passaram voluntariamente a seguir rumo à Índia, mesmo temendo por suas vidas.
Estava superado o medo do desconhecido e ao mesmo tempo resolvida à questão da mão de obra necessária.
Entretanto, devemos fazer notar que, mesmo superada a dificuldade imposta pelo medo do desconhecido, em vários momentos, nem sempre o recrutamento de tripulantes para servirem nos navios lusitanos foi voluntário em igual medida para todas as rotas abertas pela Coroa.
Os voluntários a se oferecerem, por exemplo, para tripularem a Carreira da Índia abundaram em determinado período, enquanto na mesma época tinham os marinheiros que ser recrutados à força para servirem na rota do Brasil ou nas Carreiras de África, sendo nestas rotas inclusive utilizada largamente à mão de obra infantil, do mesmo modo que a situação se inverteria parcialmente com o tempo.
Seja como for, mesmo temerosos, os lusos desbravaram o oceano passando a serem temidos, pois aprenderam inclusive e explorar as construções no nível do imaginário para tirar proveito de seus inimigos.
Prova disto é que quando Vasco da Gama chegou à Índia, passando por uma cidade ao norte de Calecute, chamada Pantalayini-Kollam, no dia 21 de maio de 1498, fez desembarcar um degredado de nome João Nunes, que foi interpelado por dois muçulmanos tunisianos que sabiam falar castelhano e genovês.
O dialogo que se seguiria sintetizaria o que estava por vir e os reais objetivos lusitanos.
O degredado ouviu dos muçulmanos a seguinte saudação:
“Ao diabo que te dou; quem te trouxe cá?
E perguntaram-lhe o que vínhamos buscar tão longe.
E ele respondeu:
Viemos buscar cristãos e especiarias”.
A consolidação da presença lusitana no Oriente constituiria realmente um verdadeiro inferno para os nativos.
No entanto, não cabe analisar esta questão neste momento, esta já é outra história.
Para saber mais sobre o assunto.
RAMOS, Fábio Pestana. “A era das grandes expedições” In: Jornal do Brasil. Rio de Janeiro, Caderno Idéias, 22 de abril de 2000, p.04.
RAMOS, Fábio Pestana. “A História Trágico-Marítima das crianças nas embarcações portuguesas do século XVI” In: DEL PRIORE, Mary (org.). História das Crianças no Brasil. São Paulo, Contexto, 1999, p.19-54.
RAMOS, Fábio Pestana. “A superação de obstáculos puramente técnicos nas navegações portuguesas da Carreira da Índia” In: Revista Pós-História, volume 7. Assis, Dep. de História de Assis da Universidade Estadual Paulista (Unesp), 1999, p.135-156.
RAMOS, Fábio Pestana. “Navegação com engenho e arte” In: Jornal do Brasil. Rio de Janeiro, Caderno Idéias, 22 de abril de 2000, p.04.
RAMOS, Fábio Pestana. Naufrágios e Obstáculos enfrentados pelas armadas da Índia Portuguesa: 1497-1653. São Paulo: Humanitas, 2000.
RAMOS, Fábio Pestana. No tempo das especiarias. São Paulo: Contexto, 2004.
RAMOS, Fábio Pestana. “O Brasil entre a fronteira do real e do imaginário: o confronto cultural e militar entre índios e portugueses” In: Estudos Ibero-Americanos. Porto Alegre, Dep. de História da PUC do Rio Grande do Sul, 2000.
RAMOS, Fábio Pestana. “O dia-a-dia numa caravela” In: Jornal do Brasil. Rio de Janeiro, Caderno Idéias, 22 de abril de 2000, p.05.
RAMOS, Fábio Pestana. “Os problemas enfrentados no cotidiano das navegações portuguesas da Carreira da Índia: fator de abandono gradual da rota das especiarias” In: Revista de História, n.º 137. São Paulo, Dep. de História da Universidade de São Paulo (USP), 2.º semestre de 1997, p.75-94.
RAMOS, Fábio Pestana. Por mares nunca dantes navegados. São Paulo: Contexto, 2008.
Texto: Prof. Dr. Fábio Pestana Ramos.

As Grandes Navegações

Ana Carolina Machado de Souza
A geografia da Terra era pouco conhecida pelos europeus no início do século XV. O que eles sabiam se restringia a mitos, lendas e histórias fantasiosas, além de informações imprecisas, que datam da Antiguidade, muitas delas colhidas pelos gregos. Mas foi durante o século XV que as grandes viagens marítimas tiveram início e, uma conseqüência, foi a chegada à América.
Mapa mundi de 1689
Associa-se o início das Grandes Navegações à volta das grandes trocas comerciais da Baixa Idade Média, a ascensão da burguesia e a formação dos Estados Nacionais. O país que possuía todas estas características em alto grau, além de estar numa ótima localização no continente europeu, foi Portugal. Os dois países pertencentes à Península Ibérica (Portugal e Espanha) foram pioneiros nesse novo empreendimento marítimo.
O que permitiu as viagens foi o desenvolvimento de certas técnicas de navegação, instrumentos, a modernização das embarcações e o incentivo das Coroas. Os portugueses visavam a independência do seu comércio com as Índias, sem que precisassem passar pelos árabes, venezianos e genoveses, que dominavam a rota do Mar Mediterrâneo. Apesar dessa conotação econômica, outra justificativa utilizada é a religiosa. Os europeus queriam disseminar o cristianismo, “ajudar” aos povos não cristãos a “salvarem suas almas” com a catequização.
Teatro do Globo Terrestre. Abraham Ortelius, Antuérpia, Bélgica – 1570.
Desde o século XIV, Portugal investiu na criação de uma rota independente para o Oriente. Em 1415 houve a conquista de Ceuta, um pólo comercial no norte da África, muito importante para a construção do futuro Império Português. Em 1435, um grupo de pouco mais de 2000 pessoas embarcou com o objetivo de realizar o Périplo Africano. Nessa travessia houve o surgimento das primeiras colônias portuguesas, como as Ilhas Canárias, Angola e Moçambique. Em 1488, Bartolomeu Dias ultrapassou o Cabo da Boa Esperança. Em 1498, Vasco da Gama chegou a Calicute, na Índia.
Em contrapartida, a Espanha nessa época, expulsou os mouros da cidade de Granada; foi o fim da Guerra da Reconquista, em 1492, e, nesse mesmo ano, chegou à América com Cristóvão Colombo. Este navegador genovês acreditava que seria possível alcançar às Índias atravessando o Oceano Atlântico. No caminho ele aportou na terra que hoje conhecemos como Bahamas, e teve início a empreitada espanhola no continente americano. O nome do continente desperta curiosidade, por que América e não uma referência a Colombo, que primeiro chegou aqui? Isso aconteceu porque Américo Vespúcio, tempos mais tarde, explorou a mesma terra em que o genovês tinha estado, concluindo, assim, perante o Estado espanhol, a descoberta de uma nova terra, e como homenagem esta ganhou o nome de América.
Chegada de Américo Vespúcio à América. Theodore De Bry. (Openheim, Alemanha – 1618)
Outro dado interessante que desperta curiosidade e debate sobre a “descoberta” ou não da América, é que os dois países Ibéricos estabeleceram um tratado, tendo como mediador o Papa Alexandre VI, sobre a definição das terras, ou seja, uma divisão entre eles das regiões descobertas, a fim de cessar a rivalidade que crescia. Esse tratado ocorreu em 1493, chamado Bula Intercoetera. Qualquer terra a 100 léguas de Cabo Verde era portuguesa. Porém, em 1494, Portugal pediu para mudar essa medida para 370 léguas de Cabo Verde. Daí começam as especulações sobre o conhecimento ou não das terras à oeste do Atlântico.
Com os sucessos de Portugal e Espanha na exploração das riquezas dessas novas terras, nos séculos seguintes, Holanda, França e Inglaterra passaram a procurar territórios a serem explorados também. Além disso, questionavam o monopólio entre os dois países ibéricos, portanto foi nessa época que os ataques piratas e invasões continentais tiveram início
Em 1500, o navegante português Pedro Álvares Cabral “descobriu” o Brasil. Essa data foi documentada em carta por Pero Vaz de Caminha, um dos tripulantes nas caravelas de Cabral, para o rei português. As terras brasileiras ficaram por cerca de 30 anos ociosas, mas foram fundamentais para a economia portuguesa com a queda do comércio com as Índias. O grande problema na expressão “descobrimento do Brasil” não é em relação aos debates, ocorridos principalmente no século XIX, sobre se os portugueses chegaram aqui devido às correntes marítimas ou se já tinham conhecimento das terras a leste. A grande questão é que, ao dizer que descobriram, pensa-se imediatamente que a terra estava desabitada, o que não era o caso do Brasil, pois os navegantes encontraram tribos indígenas ao longo da costa brasileira.
Desembarque de Pedro Álvares Cabral em Porto Seguro em 1500. Oscar Pereira da Silva – 1922/ Acervo do Museu Paulista – SP
A Europa, a partir das grandes navegações, estava conectada com todas as partes do globo. Essa “Era dos descobrimentos” foi de extrema importância para o desenvolvimento tecnológico europeu, além disso, a possibilidade de crescimento econômico. As terras descobertas e posteriormente colonizadas passaram a ser fontes de enriquecimento desses países exploradores. Uma das maiores conseqüências dessa nova atitude européia foi o fortalecimento da burguesia mercantil, o que mudaria o destino político e social desses mesmos países séculos mais tarde, com as revoluções.
Dicas de leituras:
Sérgio Buarque de Holanda. Visão do Paraíso, de 1959.
Laura de Mello e Souza. O Diabo na Terra de Santa Cruz, de 1986.

Descubra a verdadeira história sobre o descobrimento do Brasil

Cabral tomou posse, mas chegou depois. Veja como a busca de um caminho para as Índias trouxe outros navegantes portugueses e espanhóis ao Brasil antes do descobridor oficial

Texto Tarso Araújo | Ilustração Alisson Lima | 18/12/2012 15h44
Lisboa, 1502. Com a descoberta de um caminho marítimo para as Índias e de uma terra com proporções continentais do outro lado do Atlântico, a capital do reino de Portugal tornara-se um ponto de convergência para espiões de toda a Europa. A cada viagem, os navegantes portugueses entregavam suas anotações a cartógrafos do rei, que consolidavam toda a informação sobre a forma e os caminhos do mundo em mapas cada vez mais completos. Eles eram guardados a 7 chaves em locais como a Casa da Mina e das Índias. A pena de morte para cartógrafos que contrabandeassem mapas não impediu, porém, que o italiano Alberto Cantino conseguisse uma cópia do mapa mais completo que havia do mundo daquela época, uma "carta náutica para as ilhas recentemente encontradas na região das Índias". O espião contratou um personagem misterioso, que teria levado 10 meses para reproduzi-lo, e remeteu a obra ao duque de Ferrara, na Itália. A cópia entrou para a história como o Planisfério de Cantino e serviu de referência para outros mapas europeus do século 16. Com 218 x 102 cm, revelava um mundo nunca visto: grandes partes da Ásia e as terras descobertas por Colombo e Cabral na América. Misteriosamente, a carta também mostra detalhes do litoral norte brasileiro, que até 1502 não fora visitado oficialmente. O que sugere que o mapa foi elaborado com a ajuda de outros navegantes, que teriam chegado ao Brasil antes de Cabral.

Para entender como isso aconteceu, precisamos voltar um pouco mais no tempo, para o início do século 15. Nessa época, os europeus só sabiam navegar em algumas regiões, como o mar Mediterrâneo e as bordas do continente. Além daí, reinava o medo. "Havia desde sempre uma crença em monstros marinhos. Eles também acreditavam que havia zonas do mar em que não se pode navegar porque a água fervia ou porque os navios encalhavam", conta Francisco Domingues, historiador da Universidade de Lisboa, especialista em náutica da Era dos Descobrimentos. Até os mapas tinham coisas imaginárias, como uma misteriosa "Hy Brazil" (veja na página 35). Também havia, é claro, o medo do fim do mundo, que poucos julgavam ser redondo. Muitos navegantes que se aventuravam pelo Mar Oceano, como os portugueses chamavam o Atlântico, iam e não voltavam. Não por acaso, um dos maiores obstáculos à navegação daquela época era chamado de cabo do Medo, ou Bojador, na costa do Saara Ocidental.

Esse cabo e o medo da navegação atlântica começaram a ser vencidos na década de 1430, quando o infante dom Henrique, filho do rei dom João I, passou a incentivar o desenvolvimento da ciência náutica. Sob sua influência, os portugueses desenvolveram uma série de técnicas e de equipamentos que lhes permitiria realizar algumas façanhas. Um dos mais importantes foi a caravela, embarcação que, com duas ou três velas triangulares, podia navegar "à bolina", ziguezagueando "contra o vento". Em 1434, os homens de dom Henrique já haviam superado o cabo do Medo. Com as caravelas, eles foram - e voltaram - muito mais ao sul na costa africana. Na Guiné, nome com que eles chamam toda a costa noroeste da África, fundaram a feitoria de São Jorge da Mina, onde negociavam ouro, escravos, marfim e pimenta-malagueta. No século 15, essa foi a principal fonte de riqueza de Portugal.

Outra grande contribuição dos portugueses foi a navegação astronômica. Graças a um instrumento chamado quadrante - e mais tarde ao astrolábio - foram os primeiros a navegar longe da costa e descobriram que era possível voltar da Guiné mais depressa se contornassem os ventos contrários que sopravam na costa africana. Metendo-se em alto-mar, encontraram e povoaram os arquipélagos de Açores e Cabo Verde. Ninguém tinha tecnologia parecida. Era como se os portugueses fossem capazes de ir à Lua enquanto navegantes de outros países só conseguissem voar do Rio a São Paulo em teco-tecos. Os únicos marinheiros capazes de missões parecidas eram os vizinhos espanhóis.

Novas técnicas de navegação e as riquezas da África já eram suficientes para atrair a cobiça de outros países. E a capacidade marítima de Portugal ganharia ainda mais importância por causa da queda de Constantinopla (1453) e a limitação do comércio com a Ásia. Lisboa tornou-se destino de cartógrafos, astrônomos e navegadores de toda a Europa, interessados em participar da corrida para as Índias - entre eles Cristóvão Colombo, que viveu ali nas décadas de 1470 e 80. Todos os "descobrimentos do Brasil", até o oficial, foram um efeito colateral da busca pela rota para o Oriente.

As Índias ficaram mais próximas dos portugueses em 1488, quando Bartolomeu Dias dobrou o cabo das Tormentas - e o transformou no da Boa Esperança -, no extremo sul da África. A chegada de Colombo à América, 4 anos depois, deu início a uma crise diplomática entre Portugal e Espanha, a patrocinadora de Colombo. A rusga acabaria trazendo ao Brasil navios das duas bandeiras ainda no século 15.

Briga de Tordesilhas

Quando Colombo chegou às ilhas do Caribe, disse ter certeza de estar no Oriente, a um pulo do Cipango (Japão). O problema é que as ilhas, fossem orientais ou não, pertenciam a Portugal, segundo um tratado assinado com o reino de Castela em 1479. A descoberta lançou os dois países numa espécie de guerra fria, com armadas prontas para o combate. Durante dois tensos anos de negociação, dom João 2º, o rei lusitano, insistiu em garantir a soberania sobre o Atlântico Sul, com uma margem de 370 léguas a oeste de Cabo Verde (veja na página ao lado). Seu esforço diplomático garantiu o acerto de Tordesilhas, em 1494, que deixou os castelhanos com as tais Índias Ocidentais e uma grande suspeita: dom João sabia da existência de alguma terra no Atlântico Ocidental, para defender tão obstinadamente seu direito à região onde hoje sabemos que está o Brasil?
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Não há nenhuma evidência de que dom João 2º conhecia terras por aqui. Existem, porém, indícios de que Portugal estava explorando essas bandas desde o regresso de Bartolomeu Dias, em 1489. Um deles são registros de mantimentos, como uma encomenda de mil quintais de biscoitos (pão assado duas vezes, usado como alimento nas viagens), suficiente para abastecer 2 ou 3 caravelas por 2 anos. Outro indício vem de espiões castelhanos, que avistaram a saída de 4 caravelas da ilha da Madeira, em 1493, navegando para Oeste.

Apesar da falta de provas, vários historiadores acreditam que dom João organizou viagens de exploração pelo Atlântico, ao sul e ao Ocidente, para estudar os melhores ventos para chegar ao cabo da Boa Esperança. Só assim os navegantes portugueses teriam descoberto a "volta pelo largo", rota que os fazia passar muito perto do nordeste brasileiro. Será que, nessas viagens, eles teriam visto praias? Não se sabe, é claro, mas no diário de bordo de Vasco da Gama, que em agosto de 1497 fez a volta pelo largo rumo às Índias, está escrito que "achamos muitas aves e, quando veio a noite, elas tiravam contra o sudoeste muito rijas, como aves que iam para terra".

A maior evidência de que dom João sabia ou ao menos suspeitava de terras onde fica o Brasil vem de Cristóvão Colombo. Em sua terceira viagem ao Novo Mundo, iniciada em 1498, Colombo saiu de Cabo Verde, como faziam os portugueses, e seguiu muito mais ao sul do que nas duas anteriores. Em seu diário, escreveu que ia verificar "a intenção del rei dom João de Portugal que dizia que no austro havia terra firme e que por isso teve diferenças com os reis de Castela". Seguindo a pista portuguesa, Colombo de fato topou pela primeira vez com um continente. Continuava achando que tinha chegado ao Cipango. Mas era só a futura Venezuela.

A essa altura, o rei de Portugal já era dom Manuel, o Venturoso. Depois de passar 3 anos adiando uma viagem conjunta de demarcação do meridiano de Tordesilhas, porque era candidato à sucessão do reino de Castela, mudou de planos quando sua esposa espanhola morreu e lhe tirou as chances de unir os reinos. Sabendo da nova viagem de Colombo e imaginado uma disputa sobre os limites de cada reino no Novo Mundo, ele teria enviado uma pequena e secreta expedição para verificar onde, exatamente, passava a linha de Tordesilhas. Essa viagem, comandada por Duarte Pacheco Pereira, teria sido a primeira a visitar o litoral brasileiro, em 1498.

Primeiro português

O Tratado de Tordesilhas tinha alguns problemas de aplicação. Por exemplo, ele não especificava de qual ilha do arquipélago de Cabo Verde as 370 léguas seriam contadas, e não esclarecia qual era o tamanho exato da unidade de medida empregada - cada país calculava a légua de uma maneira, na época. Quando a exploração das novas terras começasse de fato, essas dúvidas certamente causariam polêmica. Logo, era importante conhecer bem a região por onde passava o tal meridiano para não negociar às cegas, quando fosse chegada a hora. Duarte Pacheco tinha vasta experiência em navegação atlântica, determinação de latitudes e longitudes, em viagens de exploração na África e fora consultor técnico das negociações de Tordesilhas, o que fazia dele um homem extremamente preparado para a missão de dom Manuel.

O principal indício da viagem de Duarte Pacheco é um livro que ele escreveu entre 1505 e 1508, chamado Esmeraldo de Situ Orbis, narrando seus serviços prestados ao rei. Nele, Duarte Pacheco diz que dom Manuel lhe encarregara de "descobrir a parte ocidental, passando além a grandeza do Mar Oceano, onde é achada uma tão grande terra firme". Pacheco teria saído da ilha de Santiago, no arquipélago de Cabo Verde, em novembro de 1498 - menos de 6 meses depois de Colombo zarpar do mesmo local. Tomando o rumo sudoeste, seguiu ventos alísios que sopram diretamente para o Brasil. No mesmo mês, avistou terra, dois graus abaixo do Equador. Dali, navegou para oeste, seguindo a corrente das Guianas.

Há poucas dúvidas de que a viagem foi realmente feita e de que ele mesmo a comandou. "O livro era escrito para o rei, sobre missões a serviço do próprio rei. Duarte Pacheco não mentiria", explica o historiador Domingues. Já as dúvidas sobre o real destino de Duarte Pacheco são maiores porque o livro nunca foi impresso, talvez por guardar segredos muito valiosos - mais precisamente uma lista com as coordenadas geográficas de todos os portos descobertos por lusitanos desde o infante dom Henrique. E os manuscritos que restaram, encontrados apenas no século 19, não têm os mapas a que o autor se refere na obra. O texto, no entanto, descreve com minúcias a vegetação e os povos encontrados por Duarte Pacheco em sua missão. No livro A Construção do Brasil, o historiador português Jorge Couto reúne vários indícios de que a tal "grande terra firme" que Pacheco visitou realmente é o Brasil, mais precisamente o trecho compreendido entre o litoral maranhense e o estuário do rio Amazonas.

Outros indícios da viagem de Duarte Pacheco apresentados por Couto são documentos de época e o trabalho de outros historiadores. Um dos mais importantes é o Memorial de la Mejorada, documento castelhano de cerca de 1499, que afirma categoricamente que dom Manuel violou o Tratado de Tordesilhas recém-assinado, enviando expedições que navegaram para oeste do meridiano em áreas da coroa espanhola.

Outro documento importante é o Planisfério de Cantino, do qual tratamos no começo do texto. Ele mostra, em 1502, um golfo chamado de Fremosso, no ponto onde a linha de Tordesilhas passa pelo litoral norte brasileiro. Ora, nem Cabral nem Gaspar de Lemos, que voltou de Porto Seguro para dar notícias do descobrimento em Lisboa, passaram por essa parte do litoral na viagem de 1500. João da Nova, que em 1501 foi às Índias e fez uma escala no cabo de Santo Agostinho, em Pernambuco, tampouco passou por ali. O tal golfo também não apareceria em nenhum outro mapa de origem não portuguesa até 1506. Logo, ele só poderia ter sido identificado em nosso litoral por um navegador português que tenha passado por aqui antes de 1500.

Outros dois estudos do século 20, um português e um inglês, comparam mapas espanhóis e portugueses do século 16 e concluem que o desenho da região do Amazonas dependia da existência de pelo menos "uma expedição lusa por essas paragens, anterior à de Cabral", e que algum português teria subido o rio Amazonas por cerca de 900 km. Para muitos historiadores, Duarte Pacheco foi esse cara. Se foi, por que não foi considerado o descobridor do Brasil? Por um motivo simples: praticamente todas as terras que ele visitou estavam a oeste do meridiano de Tordesilhas e, portanto, pertenciam ao reino de Castela, não ao rei de Portugal.

Embora o tratado obrigasse cada lado a informar ao outro sobre a descoberta de terras na jurisdição do vizinho, nenhum dos dois pretendia dar essa informação de graça ao inimigo. Por isso, inclusive, era importante que a viagem de Duarte Pacheco fosse mantida em segredo. Dom Manuel não sabia, no entanto, que, dentro de muito pouco tempo, alguns súditos de Castela também passariam ali por perto - em mares e terras que pertenciam à sua coroa. E sem guardar segredo. Afinal, como se verá a seguir, os espanhóis viajavam em missão privada, não oficial.

Primeiro espanhol
Aquele ano de 1498 foi intenso. Colombo topou com um continente. Dom Manuel perdeu o direito ao trono de Castela. Duarte Pacheco, ao que tudo indica, chegou ao Brasil. E Vasco da Gama à Índia (apesar de só ter voltado no ano seguinte). Além disso, os reis católicos estavam perdendo sua paciência com seu descobridor genovês. Como combinado antes da viagem, o navegante foi nomeado governador das Índias Ocidentais e explorou as terras descobertas com exclusividade. Só que, mesmo que aquilo fosse o Oriente - como Colombo defendeu até a morte -, ninguém achava especiarias, ouro ou prata ali. Para apressar a exploração do Novo Mundo, os soberanos espanhóis decidiram permitir que empreendedores particulares montassem viagens ao outro lado do Atlântico. Ao saber da notícia, um navegante da cidade de Palos de la Frontera animou-se em organizar sua expedição. Ele havia comandado a caravela Nina na primeira viagem de Colombo, enquanto seu irmão conduzira a Pinta. Juntando seus recursos e alguns empréstimos, montou uma expedição com 4 caravelas e partiu para o Novo Mundo em novembro de 1499. Seu nome era Vicente Yañez Pinzón.

"A primeira menção que se faz a Vicente é de que aos 15 anos percorria a costa catalã com uma caravela, assaltando navios com trigo, para impedir que a cidade passasse fome durante a guerra contra Portugal, entre 1475 e 1479", afirma Julio Izquierdo, historiador da Universidade de Huelva e autor de uma biografia sobre a família Pinzón. Izquierdo explica que Palos, a 50 km de Portugal, era uma espécie de sucursal espanhola da ciência náutica lusitana. "Os portugueses eram, ao mesmo tempo, inimigos e mestres de navegação daquele povo. Na segunda metade do século 15, era a cidade que fornecia marinheiros para o reino de Castela." Os Pinzóns, por sua vez, eram uma das mais renomadas famílias de marinheiros da vila. Não foi por acaso, enfim, que a expedição de Colombo saiu de Palos, com os Pinzóns no comando de 2 das suas 3 naves.

A expedição zarpou de Palos no dia 19 de novembro com uma tripulação muito familiar, com dezenas de amigos e parentes - primos, sobrinhos, tios. O irmão mais velho, Martin Alonso, morrera logo depois de voltar da América, mas o mais novo, Francisco Martin, fora com Colombo na terceira viagem e comandou uma das caravelas na nova missão. As 4 caravelas fizeram uma escala em Cabo Verde e saíram de lá seguindo o vento que soprava para sudoeste - exatamente como teria feito Duarte Pacheco um ano antes.

A pequena esquadra de Pinzón tornou-se a primeira expedição espanhola a cruzar a linha do Equador, o que era um problema, pois, diferentemente dos portugueses, eles ainda não sabiam navegar em alto-mar no Hemisfério Sul. Sem a Estrela Polar, eles simplesmente não tinham referências. Meio perdidos, levados pelo vento e com a ajuda de uma tempestade, eles avistaram terra e desembarcaram no Brasil em 26 de janeiro.

Pinzón e alguns tripulantes gravaram o nome dos reis de Castela em árvores e rochas e, na presença de um escrivão, tomaram posse da terra em nome dos soberanos, batizando-a como Cabo de la Consolación. Registros da época afirmam que o local do desembarque foi o cabo que os portugueses chamariam de Santo Agostinho, que persiste com o mesmo nome, em Pernambuco, embora alguns historiadores defendam que o tal cabo fosse a Ponta de Mucuripe, em Fortaleza. Essa é uma das poucas controvérsias que existem acerca da viagem de Pinzón, pois sua existência e seus passos são muito bem registrados.

A viagem de Duarte Pacheco, como vimos, é um acontecimento não apenas possível mas também muito provável. Ainda assim, não dá para afirmar com certeza que ela aconteceu. Não é o caso da viagem de Pinzón. Tudo o que se passou em sua expedição foi descrito em detalhes por pelo menos dois cronistas, que entrevistaram o comandante e outros tripulantes pessoalmente para publicar os textos um ano depois. Além disso, existe um mapa feito ainda em 1500 pelo navegador espanhol Juan de la Cosa, com detalhes de todo o trecho percorrido por Pinzón.Nele, é possível ler a frase "este cabo foi descoberto por Vicente Yañez", no ponto em que o marinheiro de Palos desembarcou. Historiadores portugueses e espanhóis concordam que ele foi, de fato, o primeiro europeu a chegar ao litoral brasileiro, 3 meses antes de Cabral.

Uma passagem da viagem de Pinzón, no entanto, revela outro enigma sobre as primeiras expedições ao Brasil. Rumando para oeste, o descobridor encontrou o rio Amazonas e passou cerca de dez dias em seu curso, explorando a região. No caminho, as caravelas encontraram um grupo de indígenas. Um grupo armado, dividido em 4 botes, desceu para fazer contato, oferecendo um guizo aos indígenas. Os índios, por sua vez, atraíram os espanhóis com o que os cronistas descrevem como um bastão de ouro. Na tentativa de pegar o "presente", o grupo foi emboscado e seguiu-se uma batalha na qual morreram 8 tripulantes. Como os homens fugiram sem pegar o tal bastão, não se sabe se era mesmo de ouro ou não. O fato é que os índios usaram a isca certa. Como sabiam do interesse desses homens vestidos e barbudos pelo ouro? Será que, antes disso, eles encontraram Duarte Pacheco? Isso jamais saberemos.

A experiência no Amazonas, que Pinzón batizou de Santa María de la Mar Dulce, teve outra consequência para a expedição. Enquanto subia e descia o rio, ela foi ultrapassada pelo grupo de Diego de Lepe. Pois é, Cabral não foi nem o primeiro nem o segundo a chegar, comprovadamente, à costa brasileira. Lepe, primo de Pinzón, saíra da Palos 20 dias depois e empreendeu uma "viagem irmã", chegando ao litoral brasileiro dois meses antes de Cabral.

Ao bater no cabo de Santo Agostinho, Lepe navegou algumas milhas para o sul e voltou, percorrendo em seguida a mesma trajetória de Pinzón. Sua viagem está descrita, ainda que com menos detalhes, pelos mesmos cronistas da época, que também o entrevistaram. Logo, enquanto Pinzón foi o primeiro a percorrer o trecho do cabo de Santo Agostinho ao Amazonas, Lepe é considerado o descobridor do trecho que vai do rio Amazonas até o Essequibo, atual fronteira da Venezuela com a Guiana. Os dois viajantes ainda seguiriam a costa sul-americana até o golfo de Pária, antes de subir ao Caribe e regressar à Europa. Essas regiões, no entanto, já haviam sido navegadas e mapeadas por Colombo e por Juan de la Cosa - aquele mesmo autor do mapa que atesta a viagem de Pinzón. O curioso é que, diferentemente do que aconteceu com Duarte Pacheco, boa parte do litoral que os dois percorreram estava na zona de soberania portuguesa de acordo com o Tratado de Tordesilhas.

Papel de Cabral

Pedro Álvares Cabral saiu de Portugal com destino a Índia em março de 1500. Não há dúvida de que chegou, tomou posse, rezou missa, fincou cruz e deu início ao processo que tornou o Brasil uma colônia portuguesa - e por isso mesmo ficou com a fama de descobridor. A controvérsia sobre sua viagem é se teria chegado por acidente ou intenção, mas até isso não é mais mistério. Sabe-se que, no local em que deveria tomar o rumo leste, os ventos sopravam para esse mesmo lado. Logo, é improvável que tenha vindo para oeste por acidente.

O que se discute é se veio por ordem do rei ou dos conselheiros reais, nobres e comerciantes que discordavam da viagem para a Índia. "Os mercadores privados e a maioria do conselho do rei preferiam a expansão no Atlântico, onde não era necessário entrar em conflito com os muçulmanos e os monopólios reais eram restritos a alguns portos e produtos", explica o historiador Thomaz. "Para o rei, o Brasil constituiria somente uma escala para a Índia, mas para os mercadores privados era a perspectiva de um novo mundo a explorar." Portanto, é bem possível que o fidalgo Cabral tenha resolvido contrariar o rei.

A hipótese poderia explicar o fato de ter sido "esquecido" pelo monarca, que nunca mais o escolheu para qualquer missão em mar ou em terra. Cabral morreu sem glória, sem retrato ou busto de descobridor do Brasil. Os outros descobridores não tiveram melhor sorte. Duarte Pacheco ainda foi tratado com honra por dom Manuel, que lhe deu o comando de uma armada para as Índias e o cargo de governador de São Jorge da Mina - posições muito lucrativas. Com a ascensão de dom João 3º, porém, ele seria perseguido e preso sob a acusação de desvio de ouro. Pinzón faria outra viagem ao Novo Mundo, na qual teria sido o primeiro europeu a encontrar os astecas, no México, mas morreu endividado, em 1514. Da vida de Lepe sabe-se menos ainda. Morreu em Portugal em 1515 e não se tem notícia nem de onde foi enterrado.

Dificilmente saberemos se outras pessoas não teriam chegado ao litoral brasileiro antes desses homens. A história dessas viagens foi preservada em poucos documentos. Quantas outras, de menor importância ou maior segredo, não teriam sido feitas? Quando Martim Afonso de Souza veio para o sul do Brasil, em 1530, encontrou por aqui certo Bacharel de Cananeia, degredado europeu apresentado em diversas crônicas do século 16. Os registros da viagem de Afonso dizem que o Bacharel estava no Brasil havia 30 anos. A maioria dos historiadores defende que ele fora deixado aqui por Gonçalo Coelho, em 1502, mas alguns dizem que isso teria acontecido em 1499, numa suposta expedição de Bartolomeu Dias ao Brasil - de qualquer forma, ele estava justamente onde passava o meridiano de Tordesilhas.

Não há evidências concretas de qualquer outra viagem no Atlântico Sul entre 1488 e 1498. Apesar da falta de provas, provavelmente houve, sim, outras expedições à região. Vasco da Gama percorreu no caminho para a Índia a mesma rota que os velejadores fazem até hoje entre a Europa e o sul da África. Gama teria acertado o melhor caminho, de primeira, por pura sorte? Ou teria feito isso depois de um longo e meticuloso período de viagens de exploração? Domingues arremata: "Essa é uma pergunta que se faz há mais de 100 anos".

A briga pelo desconhecido

Tordesilhas criou a suspeita de que Portugal já sabia da existência do Brasil



O Tratado de Tordesilhas ficou famoso por ter divido, em 1494, um mundo que não se conhecia entre portugueses e espanhóis. O primeiro acordo a fazer isso, no entanto, foi firmado entre os dois países na cidade lusa de Alcáçovas, em 1479, quando a disputa de ambos pelo Mar Oceano começava a se acirrar.

O acordo dividia o Atlântico horizontalmente, com as ilhas descobertas por Colombo na área de soberania lusitana. Por isso, Castela buscou um novo tratado. Dom João 2º recusou as contrapropostas castelhanas de divisão vertical - com linhas a 100, depois a 270 e a 350 léguas a oeste de Cabo Verde - e ameaçou ir à guerra até garantir uma margem de 370 léguas. Por que o monarca português insistiu tanto em 370 léguas? Para os reis católicos, ele já sabia da existência de terras no Atlântico sul. Até hoje, a suspeita nunca foi confirmada, mas, curiosamente, essa raia garantiu a Portugal uma boa parcela do Novo Mundo. E, se não fosse pela persistência de dom João 2º, nunca teria existido o Brasil como o conhecemos hoje.

O segredo da volta pelo largo
Portugueses foram os primeiros a dominar a navegação em alto-mar



No século 14, Portugal era principal potência marítima do mundo. As caravelas foram uma de suas principais invenções, ao lado de equipamentos e cálculos astronômicos, que os permitiam situar-se no mar mesmo longe da costa. Assim, descobriram que no oceano a menor distância entre dois pontos nem sempre é uma reta. Quando iam para o sul, enfrentavam um constante vento para o norte ao passar do Equador, o que tornava a viagem muito lenta. Então, aprenderam a seguir os ventos que existem na zona tropical atlântica. Para ir ao sul da África, seguiam para oeste até onde o vento fazia a curva para então rumar para leste. A ¿volta pelo largo¿ fazia os portugueses passarem raspando pela costa brasileira. Se dom João organizou viagens para conhecer ventos e correntezas do Atlântico Sul após a viagem de Bartolomeu Dias em 1488 e antes de Tordesilhas, é possível que seus exploradores tenham visto indícios de terra - ou até terra mesmo - antes de 1494.

A ilha imaginária

"Brazil", terra mitológica de origem celta, aparecia em mapas da Idade Média




Antes da Era dos Descobrimentos, os europeus tinham várias superstições em relação ao mar aberto. Algumas eram assustadoras, como as de monstros marinhos. Outras eram sedutoras, como as que falavam de Hy Brazil, ilha mitológica e paradisíaca situada em algum lugar do Atlântico. Sua origem provável é uma lenda celta, e ela é mais frequentemente localizada a oeste da Irlanda, um dos lugares onde esse povo viveu. Sua posição, no entanto, mudava a cada 7 anos, ou a cada vez que era avistada, dependendo da versão da lenda. Questões geográficas à parte, essa é a ilha imaginária mais desenhada nos mapas europeus dos séculos 14 e 15. O nome da ilha, a propósito, é uma das dezenas de explicações sobre o batismo de nosso país. O termo "brasil" já era usado desde a Idade Média para madeiras de tinta encontradas na Ásia. Quando os portugueses encontraram uma terra com esse tipo de madeira, a existência de um ilha com nome semelhante em tantos mapas teria ajudado o apelido a emplacar.


Saiba mais

Livro


A Construção do Brasil, Jorge Couto, Forense, 2011
 

BANDEIRANTES, OS BRUTOS QUE CONQUISTARAM O BRASIL

Eles eram bárbaros sanguinários. Matavam velhos e crianças e escravizavam por dinheiro. Mas sem os bandeirantes o país terminaria em São Paulo.

Bandeirantes disfarçados em missionários escravizam índios

Ilha do Bananal, atual Estado de Tocantins, ano de 1750. Um grupo de homens descalços, sujos e famintos se aproxima de uma aldeia carajá. Cautelosamente, convencem os índios a permitir que acampem na vizinhança. Aos poucos, ganham a amizade dos anfitriões. Um belo dia, entretanto, mostram a que vieram. De surpresa, durante a madrugada, invadem a aldeia.Os índios são acordados pelo barulho de tiros de mosquetão e correntes arrastando. Muitos tombam antes de perceber a traição. Mulheres e crianças gritam e são silenciadas a golpes de machete. Os sobreviventes do massacre, feridos e acorrentados, iniciam, sob chicote, uma marcha de 1 500 quilômetros até a vila de São Paulo - como escravos.

Foi assim, à força, que os bandeirantes conquistaram o Brasil. Caçadores profissionais de gente, chegaram a lugares com os quais Pedro Álvares Cabral nem sonharia. Nas andanças em busca de ouro e índios para apresar, descobriram o Mato Grosso, Goiás, Minas Gerais e Tocantins. Percorreram e atacaram povoações espanholas nos atuais Peru, Argentina, Bolívia, Uruguai e Paraguai. Espalharam o terror entre os povos do interior do continente e expandiram as fronteiras da América portuguesa. Uma história brutal. Mas, se não fossem eles, você talvez falasse espanhol hoje. Os maiores trunfos desse avanço eram o conhecimento do sertão e uma disposição que intrigava até os inimigos. O padre jesuíta espanhol Antonio Ruiz de Montoya (1585-1652), por exemplo, escreveu que os paulistas, a pé e descalços, andavam mais de 2000 quilômetros por vales e montes “como se passeassem nas ruas de Madri”. A coragem deles também era extraordinária. Além de terras desconhecidas, sempre enfrentaram temíveis grupos indígenas dispostos à briga. E nem sempre se davam bem. Muitos morreram de fome, em terras estéreis, ou crivados de flechas.

Os grandes perdedores, no entanto, foram os índios. Nas tribos visitadas pelos bandeirantes não ficava palha sobre palha. Muitos territórios viraram desertos humanos, ocupados, depois, por súditos portugueses. Por isso, hoje quase não se vêem índios em São Paulo, Minas Gerais, na Bahia e no Nordeste em geral. No aniversário de 500 anos do Descobrimento, a SUPER traz um retrato desses homens e da aventura que desenhou, com violência, um novo mapa do Brasil.

De costas para o mar, de olho no sertão

De todos os núcleos de colonização portuguesa no Brasil do século XVI, São Paulo era o único que não ficava no litoral e não dependia do comércio com a Europa. A sobrevivência da vila, nos seus primórdios, era garantida pela esperta política de alianças do cacique tupiniquim Tibiriçá, que havia casado sua filha com o português João Ramalho. Seus guerreiros conseguiam cativos de outras tribos para as lavouras dos primeiros colonos.

Ao perceber que não conseguiria chegar pelo sul do Brasil às cobiçadas minas de ouro e prata do Peru, a Coroa portuguesa abandonou os paulistas à própria sorte. Aos bandeirantes restou a exploração do ouro vermelho, os índios. Assim começou o “negócio do sertão”, como era chamado o ofício da caça de gente, base da economia paulista até o século XVIII. A mão-de-obra escrava foi a base do desenvolvimento de prósperas plantações de trigo no século XVI ao XVII, vizinhas à cidade. Áreas rurais, como Cotia e Santana de Parnaíba, abasteciam São Vicente e Rio de Janeiro, os centros produtores de açúcar, a maior mercadoria da colônia.

“Até há pouco pensava-se que os bandeirantes capturavam índios para exportar para as plantações de cana no litoral”, disse à SUPER o historiador John Monteiro, da Universidade Estadual de Campinas. “Mas hoje sabemos que a maioria dos cativos ia para as lavouras dos próprios bandeirantes”, ressalta. Enquanto houve índios, o interior de São Paulo foi o celeiro do Brasil colonial.

Se o campo era rico, o mesmo não se pode dizer da precária vila, que em 1601 tinha apenas 1500 habitantes. Em nada se comparava à solidez dos núcleos canavieiros do Nordeste, como Olinda ou Salvador. São Paulo era umas poucas casas de pau-a-pique espalhadas no meio do mato, entre ruas sujas e barrentas. Um visitante sofreria para achar um endereço. Primeiro porque as ruas não tinham nome. Depois, não conseguiria, mesmo, entender os paulistas: quase todos eles eram índios ou mestiços e falavam a “língua geral”, um dialeto tupi. Aliás, o nome completo da vila era São Paulo de Piratinininga, que quer dizer “peixe seco” no idioma indígena. O português era de uso quase exclusivo da minoria branca. Segundo o historiador Sérgio Buarque de Holanda, 83% da população paulista no século XVII era indígena. O bilingüismo só acabaria de vez em 1759, quanto a língua geral foi proibida pelas autoridades portuguesas, por decreto. Em São Paulo, rico era quem tinha talheres - só dez famílias possuíam - e camas. Isso mesmo: camas. Em 1620, um representante do rei de Portugal em visita à cidade simplesmente não tinha onde dormir. A solução foi confiscar a única cama decente da cidade, que pertencia a um cidadão chamado Gonçalo Pires.

Por cima do Tratado de Tordesilhas

A cidade de Guaíra é hoje um discreto centro produtor de soja com 30 000 habitantes, 680 quilômetros a oeste de Curitiba, no Paraná. Em 1600, no entanto, tinha importância estratégica. Chamava-se Ciudad Real del Guayra e era capital da província de Guayrá, subordinada a Assunção, capital do Vice-Reinado do Prata espanhol. O Guayrá abrangia 80% do atual território paranaense.

Localizada dentro das terras atribuídas à Espanha pelo Tratado de Tordesilhas - que em 1492 dividira os territórios espanhóis e portugueses na América - a província abrigava vilas espanholas e doze missões jesuíticas, que congregavam grande parte dos índios guaranis da região. Era uma verdadeira mina de escravos para os paulistas, já que os guaranis eram um povo agrícola que falava um idioma semelhante à lingua geral de São Paulo. Só que os padres e fazendeiros espanhóis impediam o acesso dos índios aos colonos portugueses. Por isso, os moradores de São Paulo defendiam abertamente uma invasão militar da região. Mas Portugal insistia em manter uma política de boa vizinhança com os espanhóis e respeitar a fronteira. Foram os próprios castelhanos que cutucaram a onça primeiro e vieram apresar índios perto de São Paulo. Era a desculpa que os bandeirantes esperavam. Em 1619, um exército de 2000 índios e 900 mestiços invadiu aldeias e missões no Guairá, capturando guaranis. Hordas foram enviadas acorrentadas para São Paulo. Era o começo do fim do Tratado de Tordesilhas. Nos anos seguintes o território das missões sofreu na mão dos bandeirantes. Logo as expedições militares que partiam de São Paulo passaram a atacar também as missões de Tape, conquistando a maior parte das terras que séculos depois formaria o atual Estado do Rio Grande do Sul, além das missões do Itatim, hoje no sul do Mato Grosso do Sul. Segundo o historiador John Monteiro, até 1641 os paulistas destruíram entre onze e catorze missões jesuíticas espanholas. Cada uma tinha entre 3000 e 5000 índios, o que daria entre 33000 e 55000 índios escravizados.

Nesse apresamento, os bandeirantes tiveram um auxiliar poderoso: as epidemias contraídas pelos índios dos espanhóis, uma vez aldeados nas missões. “Muitas vitórias dos bandeirantes no Guayrá podem ter ocorrido porque os guaranis já estavam enfraquecidos pelas doenças”, ressalta o arqueólogo Francisco Noelli, da Universidade Federal de Maringá, no Paraná. O avanço dos paulistas sobre o território espanhol só diminuiu depois da derrota para os guaranis na Batalha de M’bororé, em 1641 (veja acima). Depois daquela data, a caça ao índio passou a ser praticada por expedições menores. Uma vez encerrado o apresamento fácil dos bons escravos guaranis nas missões, os bandeirantes mudaram de rumo: passaram a buscar, no noroeste de São Paulo, índios mais selvagens, que não plantavam e não falavam tupi, os bravos jês. Viraram-se para o Centro-Oeste.

A corrida em busca de ouro

Sem os escravos guaranis, as plantações de São Paulo entraram em declínio. Os recursos passaram a ser canalizados para a busca de ouro e pedras preciosas, como esmeraldas, mais ao norte. As bandeiras se esticaram. Em 1648, Antonio Raposo Tavares (1598-1659) viajou 10000 quilômetros a pé e de canoa, de São Paulo ao Paraguai, e de lá até Mato Grosso, Amazonas e Pará. Andou quatro anos.

Ao mesmo tempo, as expedições de apresamento de índios tornaram-se menores, multiplicando-se as armações, as entradas familiares que reuniam uns vinte homens. Eram modestas, mas eficientes. Uma das tribos sistematicamente caçadas e escravizadas a partir de 1670, a dos goyás, acabou dando o nome ao Estado onde vivia: Goiás.

Em 1692 a persistência expansionista foi recompensada com a descoberta de jazidas em Ouro Preto, no atual Estado de Minas Gerais. Tão logo a notícia do ouro chegou a Portugal, a Coroa distribuiu os direitos de exploração a lusos e comerciantes do Rio de Janeiro, passando a perna nos bandeirantes. Para piorar, contrabandistas da Bahia também se meteram por ali. Os paulistas reagiram. Em 1709, armaram-se em bandos de índios e mamelucos e partiram para cima dos forasteiros, chamados de emboabas (“galinhas de bota”, em tupi). A Guerra dos Emboabas acabou em 1711 com a expulsão dos paulistas. Com eles fora, em 1720, criou-se a capitania de Minas Gerais. Vila Rica de Ouro Preto virou capital.

Aos bandeirates restou continuar procurando ouro. Alguns, como Bartolomeu Bueno da Silva (1672-1740), o Anhangüera, partiram atrás da mítica Serra dos Martírios, cujos montes - dizia-se - eram feitos de ouro puro. Depois de três anos vagando pelo cerrado, Anhangüera achou metal precioso nas terras dos goyás e fundou, em 1725, a cidade de Goiás. As descobertas atraíam bandeirantes como ímã, mas não só eles. Em 1719, quando a notícia da descoberta das minas de Cuiabá chegou a São Paulo, seus habitantes migraram em massa em direção às lavras do distante arraial. Surgiram, assim, as monções - as expedições fluviais. Mas chegar até o eldorado não era fácil. O extermínio dos guaranis-itatim do Mato Grosso, décadas antes, havia provocado um efeito colateral: a migração dos paiaguás para o Rio Paraguai, bem na rota das monções. Os paiaguás formavam frotas para assaltar os barcos dos paulistas. Para complicar, eles se aliaram a outra poderosa tribo, a dos guaicurus, que usavam cavalos roubados dos espanhóis. O poderio dessa aliança indígena foi suficiente para levar os castelhanos, em 1740, a fazer um tratado de paz com eles, algo inédito na América até então. Em 1727, depois do massacre de uma monção, os portugueses declararam guerra aos índios. Os conflitos terminariam em 1782, com um armistício. Os guaicurus, que atualmente se chamam kadiwéus e moram no Mato Grosso do Sul, até hoje se orgulham disso.

Tropa de choque no Nordeste

O bispo de Olinda, dom Francisco de Lima, ficou horrorizado quando recebeu, em 1694, a visita do paulista Domingos Jorge Velho. Diria depois que “era o maior selvagem com quem já havia topado” e que foi preciso um intérprete, pois o brutamontes só falava tupi. O bandeirante havia sido contratado pelo governador de Pernambuco para acabar com o pesadelo dos senhores de engenho nordestinos: o Quilombo dos Palmares, na Serra da Barriga, oeste de Alagoas. Palmares era um conjunto de aldeias fortificadas que abrigava escravos fugidos - mas também índios, muçulmanos, brancos marginalizados e judeus. Desde 1654, seus guerreiros resistiam aos holandeses e às expedições militares mandadas contra eles. Mas não resistiriam aos índios e mestiços guerreiros do “selvagem” Jorge Velho - que, aliás, falava e escrevia em português. O bispo exagerou no desdém.

Como Domingos Jorge Velho, outros bandeirantes embarcaram para o Nordeste entre 1657 e 1720 atendendo a chamados de administradores regionais. O objetivo era combater grupos indígenas que não aceitavam a ocupação de suas terras pelos criadores de gado. As guerras contra os índios eram consideradas “justas” e os cativos eram declarados escravos. Criou-se assim o “sertanismo de contrato”, com bandeirantes convertidos em mercenários, recebendo os índios que capturassem como pagamento. O resultado foi a eliminação de vários grupos nordestinos, como os anayos, os maracás e os janduins. Muitos paulistas receberam terras e viraram criadores de gado na região do Rio São Francisco.

Com o fim da expansão mineradora e das guerras contra os índios no Nordeste, o ímpeto bandeirante arrefeceu. Em São Paulo, o declínio demográfico dos escravos e a dificuldade crescente de repor a mão-de-obra das fazendas do interior acabou pondo a economia paulista em xeque. Na primeira metade do século XVIII, sem índios e sem poder comprar escravos africanos, que custavam o dobro, as lavouras do interior paulista se estagnaram. Com isso, o “negócio do sertão” perdeu o motor. Os bandeirantes, que se lançaram como gafanhotos sobre o sertão por 200 anos, haviam descoberto um novo país. Mas acabaram tão pobres quanto antes.

Algo mais

A origem do termo "bandeira" tem várias explicações. A mais aceita afirma que as grandes expedições que assaltaram as missões jesuíticas no sul do país, no século XVII, eram formadas por diversas companhias, identificadas, cada uma, por bandeiras. Com o tempo, esse passou a ser o nome genérico das incursões de apresamento de índios dos paulistas.

Tocaia na madrugada

Para atacar aldeias indígenas, os bandeirantes organizavam bandos armados.

1. O chefe da expedição era um sertanista branco experiente, em geral aparentado com os demais expedicionários. Muitas vezes era o próprio empresário. Cabia a ele conseguir financiamento e reunir seus escravos, agregados e parentes para a incursão.
2. Os filhos costumavam se engajar nas expedições desde os 13 ou 14 anos. Ao se casar, recebiam armas, correntes e índios emprestados de pais e parentes, para montar sua própria expedição e, assim, arrebanhar seu primeiro patrimônio - escravos índios. As bandeiras eram um negócio familiar. Uma expedição pequena, uma "armação", reunia uns vinte homens.
3. Índios, geralmente escravos guaranis, eram a infantaria. Andavam nus ou vestidos com trapos. Serviam como guias, batedores, caçadores e cozinheiros. Sem eles não havia bandeira.
4. O arco e flecha era uma das armas mais usadas, tanto por brancos como por índios. Suas vantagens eram a leveza, o silêncio e a velocidade. Um índio disparava até sete flechas no mesmo intervalo de tempo em que se carregava de munição um arcabuz.
5. O alfanje, uma espécie de sabre curto, era a arma branca mais comum. Servia para combates corpo a corpo.
6. O gibão, também chamado de coura, era feito de couro de anta, mais grosso, para resistir a flechadas.
7. O mosquetão era um trambolho que precisava ser carregado por dois. De tão pesado, precisava ser apoiado num tripé. Media 1,75 metro de comprimento.
8. A gualteira era uma espécie de chapéu de pele de anta. Protegia a cabeça como um capacete.

A aldeia urbana

Conheça São Paulo em 1601.

Um arraial entre rios Um dos limites urbanos era o Córrego Anhangabaú, hoje centro da cidade. Um muro de taipa protegia a cidade de ataques de tribos inimigas. Do outro lado do rio era tudo mata. A riqueza estava no campo. Perto da vila estendiam-se fazendas de trigo, que era exportado para o litoral, e plantações de marmelo. O doce, muitas vezes vendido com o peso adulterado, deu origem ao termo “marmelada”.

As ruas não tinham placas. Os endereços eram indicados com referências do tipo “ao lado da cadeia”, ou “vizinho ao padre”. Havia cerca de 150 casas. As ruas eram desertas. A população passava a maior parte do tempo em fazendas ou no sertão, atrás de índios. Fundado em 1554 pelos jesuítas, o Colégio de São Paulo foi o primeiro edifício da cidade.

Galpão, doce galpão

A grossura das paredes de taipa dava às casas o aspecto de fortaleza. Por dentro, eram galpões com depósito, oficina e cozinha. Não havia banheiro. As necessidades eram feitas no quintal. A mobília se resumia a tamboretes e baús. Não existiam quartos nem camas, mas havia redes em todos os cantos da casa. Como nas aldeias indígenas, cada morador tinha uma fogueira ao lado da sua rede. São Paulo tinha muita floresta em volta e o clima era mais frio. Armas havia em abundância: escopetas, espingardas, bacamartes, arcos, flechas, espadas e alfanjes. E correntes para amarrar escravos.

Gente estranha

As mulheres paulistas eram conhecidas como "tapadas", por andarem sempre cobertas por panos escuros, da cabeça aos pés. A maioria falava mal o português.

Escravas índias, a maior parte guaranis, auxiliavam nas tarefas domésticas e na roça. Era perigoso uma mulher andar sozinha. Bandos de índios armados, a mando de famílias rivais, atracavam-se em pleno centro da vila.

Os poucos brancos tinham aspecto ameaçador. Andavam armados de punhais e arco e flecha.

A Batalha de M’bororé

Derrota freou expansão escravagista

A maior derrota bandeirante aconteceu em 1641 no Rio M’bororé, afluente do Rio Uruguai. Um batalhão de guaranis e guaranis-itatim da Missão de São Francisco Xavier, hoje na província de Misiones, Argentina, enfrentou e venceu uma frota de 130 canoas, com 350 bandeirantes e 1200 índios. Os paulistas foram surpreendidos por 70 canoas armadas com arcabuzes e arcos. A luta durou seis dias. Foi o fim das expedições paulistas às missões espanholas.

Um barco com a imagem de S. Francisco Xavier e um canhão vinham à frente das canoas.

Os guaranis das missões usavam armas de fogo. Nesta batalha, contaram com 57 arcabuzes.

Um padre comandava o ataque

Os paulistas que escaparam da morte no rio foram massacrados pelos guaranis-itatim na margem.

Século XVII: a invasão do sul

Durante trinta anos, os bandeirantes saquearam as missões espanholas.
Missões do Itatim 1630-1650
Missões do Guayrá 1619-1641
Missões do Tape 1630-1640

Se virando à paulista

Comer numa bandeira já era, por si, uma aventura. A primeira refeição do dia podia ser um macaco moqueado com uma pasta amarela e mofada de mandioca-brava, a chamada farinha de guerra.O grude era preparado meses antes, em São Paulo, e resistia a sol, chuva e baratas. Haja estômago. Mas isso só se você fosse índio. Para os brancos o rancho era um pouco melhor: farinha de milho, feijão e toucinho, o famoso “virado à paulista”, servido frio, mesmo. A dieta era complementada com a coleta de frutos, já que não dava para levar muita comida na bagagem nem das roças plantadas no caminho.“Muitas expedições eram marcadas para épocas que coincidissem com a colheita de frutas silvestres, como o pinhão”, contou à SUPER a historiadora Maria da Glória Kok, da Universidade de São Paulo. Quando a fome apertava e não havia caça nem pesca, entravam no cardápio até larvas, formigas, cobras, sapos e lagartos. E às vezes nem isso havia. Em 1722, quarenta membros da expedição de Bartolomeu Bueno da Silva, o Anhangüera, morreram de inanição em uma chapada goiana.

Caçada humana - As táticas de guerra dos paulistas.

1. Antes da partida das bandeiras, escravos iam na frente e plantavam roças de milho e mandioca em pontos estratégicos - muitas viraram cidades, como a atual Batatais (SP). A viagem era marcada em função da colheita.
2. As expedições menores, as armações, saíam em fila de madrugada. Os homens andavam até 10 quilômetros por dia. Não tinham volta marcada: o importante era aprisionar quantos índios pudessem.
3. Achada a aldeia a ser atacada, os paulistas amolavam facas, machetes e alfanjes. Bagagem, doentes e feridos eram deixados no acampamento.
4. Os ataques exploravam a surpresa. Para inibir resistências valia aterrorizar, matando crianças e queimando gente viva. Depois era feita a carga, com o maior número possível de índios amarrados e acorrentados.
5. Se o ataque fosse bem-sucedido, as “peças”, como se chamavam os cativos, eram remetidas para São Paulo, para serem vendidas. Parte dos homens continuava atrás de mais índios para escravizar.

Século XVIII: a conquista do Centro-Oeste

Os bandeirantes desbravaram Minas, Mato Grosso, Goiás e guerrearam os índios do Nordeste.
Guerras no Nordeste (1690-1760)
Rota das monções (1710-1780)
Expedições de apresamento e mineração Descoberta de ouro

Cidades fantasmas

O arqueólogo Paulo Zanettini ficou espantado quando trombou com um muro de pedra de 300 metros de extensão no meio do mato, na Serra da Borda, atual município de Pontes e Lacerda, no oeste de Mato Grosso. “Achei que estivesse em uma ruína inca”, lembra-se. Mas o que Zanettini encontrou foi um capítulo esquecido da história das bandeiras. Aquele enorme muro pertencia a um arraial de mineração de ouro do século XVIII. Em 1988, Zanettini identificou vestígios de três cidades de pedra na região: São Vicente, Vila Bela e São Francisco Xavier da Chapada. Na última, há restos de taipa, indício da presença bandeirante - já que essa técnica de construção era marca registrada dos paulistas. As cidades fantasmas foram provavelmente construídas por exploradores que, para fugir do recolhimento de impostos nas minas de Cuiabá, migraram para o oeste a partir de 1720. Arraiais semelhantes foram identificados também no alto Rio Tocantins, em Goiás. “O tamanho deles dá uma idéia do que esses homens fizeram na busca do ouro”, disse o arqueólogo à SUPER. Sua ganância era tanta que o mineral em todos esses arraiais acabou em menos de vinte anos. As cidades foram engolidas pelo mato.

Quem perdeu o Brasil

Nações indígenas foram desalojadas ou extintas pelas bandeiras. Veja as terras invadidas e as migrações forçadas de alguns grupos.

Panará

Antes chamados caiapós do sul, saíram de Minas e foram parar no norte de Mato Grosso. São 161 indivíduos.

Xerente

São parte do grupo akwe que se dividiu durante os ataques dos bandeirantes a Goiás. Moram em Tocantins e são 1500 indivíduos.

Carajá

Quase dizimados durante o século XVIII, são hoje um grupo de 2000 indivíduos.

Goyá

A tribo que batiza o Estado de Goiás foi completamente extinta (não restou sequer uma imagem). Ninguém sabe como eram, que língua falavam nem como viviam.

Guarani

Foram as primeiras vítimas das bandeiras. Segundo o historiador paraguaio Bartolomeu Meliá, eram mais de 800 000 em 1600. Hoje são 30000 em todo o país.

Caiapó

Antigos habitantes do Tocantins, emigraram para o Pará e Mato Grosso. Só fariam contato pacífico com os brancos a partir de 1950. São 4 000 indivíduos hoje.

Xavante

Originalmente parte do grupo akwe, fugiram de Goiás para o Araguaia e depois para o Mato Grosso, onde estão até hoje. São 7 100.

Guaicuru

Terror da região do Pantanal e Chaco paraguaio de 1720 a 1780, fizeram acordos de paz com os portugueses e os espanhóis. Hoje há 1 200 deles, que se chamam kadiwéus e moram no Mato Grosso do Sul.

Holocausto brasileiro

O Brasil é uma invenção recente. Quando Cabral chegou, havia inúmeras nações indígenas, divididas entre si em pequenas tribos, que viviam em guerra umas com as outras. A conquista se fez aos pedacinhos. Para transformar tanta terra em um país só, foi feita uma vasta limpeza étnica. Estima-se que em 1500 havia 5 milhões de índios no Brasil. Hoje eles são 300 000 (0,2% da população) e ocupam 12% do território brasileiro. O lingüista Aryon Dall’Igna Rodrigues, da Universidade de Brasília, calcula que existiam 1 200 línguas. Hoje há 180. No Centro-Sul e Nordeste do país, o genocídio foi executado, na maior parte, pelos bandeirantes. Eles extingiram vários grupos, como os goyás, os janduins, os guarulhos, os araés, os guaranis-itatim e outros cujo nome nem se sabe. Mas sua intervenção nem sempre era direta. Como num jogo de bilhar, os grupos que fugiam dos ataques paulistas invadiam as terras dos outros, iniciando novos ataques e revides sangrentos. Ao migrar, forçavam outros grupos a se deslocar, até novo território. Foi o caso dos akwes, de Goiás, que a partir de 1720 se dividiram em dois. Parte deles fugiu para a região do Araguaia, território tradicional dos carajás. O conflito empurrou os migrantes mais para o oeste, até o atual cerrado mato-grossense, onde estão até hoje. São os atuais xavantes. Os que ficaram em Goiás hoje estão em Tocantins. São os xerentes.

Os bandeirantes souberam manipular os ódios intertribais. Poupavam tribos com as quais mantinham comércio, como os guaianás, e compravam escravos de outras, como os caiapós do sul. Estes últimos passaram de fornecedores a mercadoria, e fugiram de seu antigo território, a região do Triângulo Mineiro. Foram parar no norte de Mato Grosso, onde só seriam encontrados de novo em 1967. Descobriu-se, só então, que a tribo se autodenominava panará.

Ocas de branco

Quem vê um bandeirante numa pintura oficial imagina que eles moravam em vastas casas senhoriais. Nada disso. As residências paulistas eram verdadeiras ocas com paredes de taipa. “Havia uma mistura das influências européia e indígena”, disse à SUPER a arqueóloga Margarida Andreatta, da Universidade de Mogi das Cruzes. Escavando uma casa de 1650 no hoje movimentado bairro do Tatuapé (“caminho do tatu”, em tupi), na zona leste da capital paulista, Andreatta descobriu fragmentos de cerâmica indígena misturados à louça portuguesa. Achou também um polvarinho, um recipiente de madeira usado para guardar pólvora. Como as malocas familiares tupis, as casas tinham redes espalhadas por todos os cantos. Também foi encontrado carvão de vários restos de fogueira, o que sugere que cada habitante tinha um fogo-de-chão ao lado da rede, para cozinhar e se aquecer nos dias frios.

Texto de André Toral e Giuliana Bastos publicado na revista "Super Interessante" edição 151 de abril de 2000. Adaptado e ilustrado para ser postado por Leopoldo Costa

Os vikings e a chegada ao Novo Mundo


Colombo ficou com a fama de ter descoberto a América, mas outros europeus estiveram no continente 500 anos antes dele

Marcelo Ferroni




Quem descobriu a América? Todo estudante sabe a resposta de cor: o navegante genovês Cristóvão Colombo desembarcou em uma ilhota da América Central no dia 12 de outubro de 1492. Desde então, europeus de várias latitudes atravessaram o Atlântico, invadiram o continente, mataram-se uns aos outros e aos moradores originais, tomaram conta e moldaram à sua vontade o que viram. Mas os livros de História muitas vezes se esquecem de mencionar que, antes de Colombo, outros europeus se aventuraram pelo Atlântico atrás de terras desconhecidas. Por volta do ano 1000, os vikings estiveram na costa canadense e chegaram a levantar assentamentos.

Não há dúvidas sobre isso. Ruínas descobertas na década de 60 por um casal de arqueólogos noruegueses, Helge e Anne Ingstad, comprovaram a presença de representantes dos vikings, conhecidos no restante da Europa como um povo bárbaro que aterrorizou a po pulação do que hoje é a Grã-Bretanha, França, Alemanha e norte da Espanha. As andanças dos vikings pelo Atlântico Norte não devem ser esquecidas, mas não tiram de Colombo o título de descobridor europeu do Novo Mundo.

"O que se considera em História não é só o descobrimento, mas a colonização", afirma Leandro Karnal, professor de História da América da Universidade Estadual de Campinas. "É a colonização que produz História, trágica ou não."


A odisséia viking já era conhecida dos europeus por duas sagas ou lendas antigas dos povos escandinavos compostas nos séculos 13 e 14. Elas narram a história de dois navegadores nórdicos, Eric, o Ruivo, e seu filho Leif Ericsson, e a chegada à Groenlândia e à América. Eric, o Ruivo, não era o que se poderia chamar um cidadão benquisto, mesmo entre os belicosos povos vikings. Foi expulso da Noruega e, em seguida, da Islândia, entre os anos de 985 e 986 por causa dos massacres que costumava promover. Degredado com seu bando, o navegador tomou o rumo oeste e acabou batendo na ponta mais ao sul da Groenlândia. Foi dali que saiu a expedição que chegaria à América 15 anos depois.


A segunda parte da travessia, contam as sagas, foi realizada por Leif, o segundo dos três filhos de Eric. Ele aventurou-se mais ao sul, seguindo a corrente do Labrador até chegar ao que é hoje a Terra Nova, no Canadá. A costa recém-descoberta foi batizada de Vinland. No dialeto viking, a palavra pode ter sido sugerida pelas videiras selvagens e solos férteis que então existiam na região. "Não se sabe se Vinland era o mesmo sítio descoberto pelo casal de arqueólogos na costa canadense", conta o histori ador Leandro Karnal. Mas a colonização do continente não foi adiante. Acredita-se que Leif manteve durante três anos uma comunidade chamada Leifsbudir. Depois disso, um mercador islandês chamado Thorfinn Karlsefni esteve na Groenlândia, casou-se com a cunhada viúva de Leif e obteve permissão para continuar viagem até o Canadá com outros colonos. Isso ocorreu por volta de 1010. A comunidade sobreviveu com seus novos habitantes por mais dois anos.

Inferno na terra
Antigo assentamento viking em L'Anse-aux-Meadows

Depois disso, não se sabe mais nada. Mas imagina-se que o contato dos nórdicos com os habitantes locais tenha sido, digamos, longe de harmonioso. Quando os vikings pisaram no Novo Mundo, encontraram tribos que já habitavam a região e, como eles, dotada s de uma cultura naturalmente agressiva. Ao contrário do que ocorreu durante a colonização espanhola, foi a vez das tribos americanas mostrarem sua força.

Se não há provas materiais desse confronto, existem os relatos nas sagas vikings. Para começar, os colonizadores chamavam seus novos vizinhos de skraelingar, no dialeto viking uma palavra com muitos significados, quase todos pejorativos. Para alguns historiadores, quer dizer estrangeiro; para outros, pessoas miseráveis ou doentias.

Pois esses "estrangeiros doentios" devem ter acabado com o paraíso viking naquele pedaço de terra. "Não sabemos como os povos locais se autodenominavam", diz John Hale, arqueólogo da Universidade de Louisville especialista em vikings. "Mas sua cultura em alguns aspectos parece ser ancestral à dos modernos inuits (habitantes do norte do Canadá) e dos esquimós." Seja como for, parece claro que houve combates entre europeus e índios. "Afinal, os vikings brigavam com todo o mundo", comenta Karnal. "É verossímil que isso tenha acontecido, ainda mais considerando como eles chamavam os índios."

Baseado nas sagas nórdicas, Hale levanta a hipótese de que tenha havido brigas violentas entre os próprios colonos, potencializadas pelo isolamento de Vinland do resto do mundo viking. Naquela época, a expansão dos nórdicos na Europa começava a perder força. "A explosão populacional na Escandinávia, que gerou a colonização de partes da Rússia, Finlândia, França e Ilhas Britânicas, não era mais a mesma", conta Hale.

Segundo o historiador, depois do ano 1000, os colonos da Islândia e da Groenlândia não produziram mais as imensas famílias que obrigaram a ida a outros continentes e originaram a iniciativa de colonização da América.


Dúvidas históricas
A história contada acima é o que se acredita tenha acontecido. Mas há muitas interpretações sobre os fatos. O professor Alan Macpherson, da Universidade Memorial da Terra Nova, no Canadá, conta, por exemplo, que as mesmas sagas que falam da aventura de Leif, referem-se também a uma viagem à América anterior àquela protagonizada pelo filho do degredado. Leif pode ter sido precedido por Bjarni Herjolfsson, um mercador que navegava entre a Islândia e a Noruega. "A viagem de Bjarni, em 986, foi um feito m uito maior que a de Leif, mas tem sido denegrida ou ignorada com freqüência", contou Macpherson a Galileu. O professor também não concorda com a denominação de vikings para os que chegaram à América. Para ele, os vikings não eram um grupo étnico. "Ele s eram identificados entre os nórdicos como os saqueadores marítimos que atacavam as partes mais civilizadas e cristãs da Europa."

Para os historiadores, a travessia por mares gelados é mais importante que a colonização em si. É considerada um marco de navegação, em uma região perigosa como o Atlântico Norte. Mas o arqueólogo Peter Pope, também da Universidade da Terra Nova , diz que os nórdicos cruzaram o oceano diversas vezes. Considerando a tecnologia de embarcações da época, acredita ele que o feito não era extraordinário. Para Macpherson, "Leif Ericsson estava retraçando a viagem de Bjarni Herjolfsson de 986".

Seja como for, os historiadores concordam que a colonização não mudou a história da América. A glória da descoberta ainda é de Cristóvão Colombo. Depois de uma viagem atribulada que durou dois meses e à beira de um motim, o navegador genovês e seus mar inheiros finalmente avistaram terra. Que pedaço de terra era aquele e qual a primeira ilha avistada pelos europeus, ainda é tema de grande disputa.

Acredita-se que Colombo tenha pisado primeiro na ilha de São Salvador, ou Watling. Em seguida, as embarcações Santa Maria, Pinta e Niña seguiram caminho, em busca do que os navegantes imaginavam ser a ilha de Cipango (atual Japão). Colombo acreditava ter chegado ao Oriente pelo oeste, dando a volta ao mundo. Não sabia que tinha descoberto um novo continente.


O
valor da concha


Se Cristóvão Colombo tivesse outros interesses além da busca de riquezas e, ao chegar ao Novo Mundo, resolvesse coletar uma simples conchinha depois de ter se ajoelhado, beijado o solo e feito suas preces, a primeira ilha em que o navegador genovês pisou poderia ser conhecida hoje.

A idéia partiu de um artigo do paleontólogo e escritor Stephen Jay Gould, descrita em um de seus livros, Leonardo's Mountain of Clams and the Diet of Worms (Harmony Books, 1998, sem edição em português). Ao relatar a chegada dos europeus e a incerteza em descobrir o local exato do primeiro desembarque, Gould parece se deliciar com a descrição de um tipo de concha de um molusco da espécie Cerion, tão comum nas Bahamas que Colombo provavelmente teria se ajoelhado sobre uma ao fazer suas preces. As conchas variam de ilha para ilha na região, o que poderia indicar o local correto de sua origem e denunciar a chegada dos europeus.

Aceita-se que o primeiro ponto de desembarque seja a ilha de Watling, nas Bahamas, hoje chamada São Salvador. Mas a primazia de outros pedaços de terra, como as ilhas Cat e Mayaguana, ainda é defendida por alguns historiadores.


Massacre total
A história continua. Depois de mais três viagens ao novo continente (1493-1496, 1498-1500 e 1502-1504), o navegante genovês caiu em desgraça. O continente que ele descobriu recebeu o nome de América em homenagem a outro navegador, Américo Vespúcio. Mesmo assim, a sua viagem de 1492 abriu caminho para a futura exploração e colonização européia.

"Os espanhóis alteraram a história da América, e essa alteração foi contínua", relata Karnal. "Se outros navegadores estiveram antes por aqui, isso não mudou nada." O que veio depois já podia ser previsto pelos primeiros contatos. Ao contrário dos nativos do norte, que aparentemente souberam se defender muito bem dos estranhos invasores europeus, os habitantes das Bahamas eram tribos pacatas que não eram páreo para os agressivos colonizadores espanhóis. "O genocídio nas ilhas da América Central é o ú nico com ISO 9000", ironiza Karnal. "Nenhum outro conseguiu a eliminação total de um povo como ocorreu nas ilhas. E isso dificulta a compreensão do que houve quando Colombo desembarcou pela primeira vez."


A
s comemorações do milênio

Reconquista
O Icelander, réplica de embarcação que levou os vikings à América
Mil anos depois, os povos do continente celebram a chegada dos vikings ao Novo Mundo. Nos Estados Unidos, alguns dos principais museus de história natural do país, como o Smithsonian, em Washington, e o Museu Americano de História Natural, em Nova York , montaram a exposição "Vikings, a Saga do Atlântico Norte", com peças e mapas vikings. No Canadá, é celebrado o que se chamou de "Círculo Completo": o reencontro, na Terra Nova, de descendentes dos primeiros Homo sapiens que migraram há milhares de anos da África e acabaram povoando a Ásia, a Europa e o Novo Mundo. Mas a comemoração mais vistosa foi montada na Islândia. Uma réplica de uma embarcação usada pelos vikings, chamada Icelander (foto acima), atravessou o Mar do Norte e refez o trajeto de Leif Ericsson. A viagem foi iniciada em 17 de junho e durou dez dias.



Anote
Para navegar
Exposição viking

Para ler
Vikings - The North Atlantic Saga, de William Fitzhugh (editor). Smithsonian Institution Press. 2000


Ilustração: Pepe Casals
Ilustrações: mapas, Ronaldo L. Teixeira
Foto: Colombo, Zena

Mapas de Povoamento das Américas

Seguem alguns mapas que nos ajudam a visualizar as rotas migratórias humanas para as Américas.

Prováveis rotas de povoamento das Américas. (Fonte: http://4.bp.blogspot.com/_u3wRED2x5RA/S8NiALeud7I/AAAAAAAAAIA/tBnLelAYV0c/s1600/mapa.jpg)


Grupos étnicos que povoaram as Américas. (Fonte: http://4.bp.blogspot.com/_ufut25cYaU4/TAQVwUE0SKI/AAAAAAAAAew/WfnZbWnnXDw/s1600/povoamento_ame.jpg)

Mapa com dados acerca dos mais antigos fósseis humanos já encontrados no mundo. (Fonte: http://www.flickr.com/photos/bldgblog/2398034248/sizes/o/)
E, por último, um interessante mapa da migração humana feito pela national geographic disponível para download aqui.
Fonte: http://unbamericaindigena.blogspot.com.br/2011/09/mapas-de-povoamento-das-americas.html