sábado, 17 de agosto de 2013

A diversidade de climas e de formações vegetais


A diversidade de climas e de formações vegetais
 Deves ser capaz de:

- Reconhecer as funções desempenhadas pela atmosfera
-Salientar a importância da troposfera para a meteorologia
- Distinguir estado de tempo e clima
- Referir os elementos do clima;
- Evidenciar o papel dos factores do clima;
- Caracterizar os diferentes climas da terra
-Relacionar as formações vegetais com os respectivos climas;
Referir a distribuição dos climas existentes à superfície da Terra;
Caracterizar o clima de Portugal.

 O clima de um lugar ou região é a sucessão habitual dos estados de tempo, ao longo do ano, sobre esse mesmo lugar ou região, ou seja, uma síntese anual do tempo.
Clima é um conceito usado para dividir o mundo em regiões que dividem parâmetros climáticos parecidos.
O termo mudança do clima, alterações climáticas ou mudanças climáticas refere-se à variação do clima global ou dos climas regionais da terra ao longo do tempo.
A mudança climática pode ser tanto um efeito de processos naturais ou decorrentes da acção humana.
O estado de tempo corresponde às condições atmosféricas (temperatura, precipitação, nebulosidade) num certo momento e lugar.
Os climas distinguem-se uns dos outros, sobretudo, pelas características e variação da temperatura e da precipitação. Essas variações são determinantes pelos factores climáticos, dos quais se destacam:
Latitude
- Os climas dividem-se em quentes, temperados e frios, de acordo com a quantidade de radiação solar recebida.
- Nas latitudes ocupadas pelas faixas de altas pressões, os climas são secos, ao contrário das latitudes onde dominam as baixas pressões.
As regiões climáticas podem ser classificadas com base na temperatura e precipitações.
- A temperatura e a precipitação são os dois elementos principais para caracterizar um clima.
- O regime térmico permite distinguir os climas quentes , temperados e frios, o regime pluviométrico permite diferenciar os climas húmidos e secos.
Relevo
- com o aumento da altitude, os climas tornam-se mais frios.
A altitudes muito elevadas o ar é seco e quase não há precipitação.
Oceanicidade/proximidade do oceano
- Nas margens dos continentes, onde os ventos marítimos são dominantes, os climas tendem a ser mais amenos e chuvosos
Continentalidade
No interior dos continentes, longe dos ventos marítimos, os climas tendem a ser secos e com elevados contrastes de temperaturas.
Cada clima corresponde a um tipo determinado de fauna e flora - São os biomas. Estes adoptaram o nome da vegetação dominante ( savana, floresta mediterrânea, pradaria,…).
A maior parte da vegetação dispõem-se em faixas mais ou menos paralelas, do equador para os polos, tanto no hemisfério Norte como no hemisfério Sul.

Uma das melhores maneiras de conhecer as características climáticas duma determinada região, é através dos gráficos termopluviométricos ou climogramas. Nestes gráficos podem-se analisar as precipitações e as temperaturas dum determinado local, ao longo dum ano. Dum modo geral, apresentam os valores da precipitação em forma de barras (e são lidos no lado esquerdo), enquanto que a temperatura, que normalmente é lida no lado direito, é representada por meio duma linha. na parte de baixo do gráfico, estão representados os doze meses do ano, assinalados pelas respectivas iniciais dos meses. Há no entanto outras formas de apresentar os climogramas, mas a que foi referida, parece ser a mais correcta. Também é normal, que a escala onde estão os valores da precipitação, apresentem valores que correspondam ao dobro da escala das temperaturas.
A vegetação é um grande e precioso indicador do clima de uma determinada área. Sendo a temperatura e a precipitação os elementos mais determinantes da cobertura vegetal, é lógico que quando imaginamos um determinado tipo de clima, associamos mentalmente uma determinada paisagem vegetal, e como é também óbvio, a um determinado clima e cobertura vegetal, estão associados determinados seres vivos.
A biosfera, é formada pelo nosso planeta, a Terra e por todos os seres vivos que nele existem. Na biosfera existem diversos biomas, que são um conjunto biológico associado a uma zona climática. São essas zonas climáticas, ou melhor, são esses climas e os biomas a eles associados, que em seguida iremos ver.

Os tipos de climas e a vegetação
A distribuição e diferenciação dos vários tipos de climas dependem do modo como se distribuem os elementos climáticos e os factores que mais os influenciam. Apesar de várias diferenças regionais, pode-se definir genericamente os seguintes conjuntos climáticos e respectivos climas:

Zona Quente: Clima Equatorial; Clima Tropical (de monção, húmido e seco) e Clima Desértico.
Zona Temperada: Clima subtropical húmido, Clima Mediterrânico; Clima Marítimo ou Oceânico e Clima Continental.
Zona Fria: Clima Continental ou Subpolar e Clima Polar. Os climas de altitude não acompanham a distribuição latitudinal dos climas.
 
Os climas mundiais
 
 
Clima equatorial: Floresta equatorial Clima Tropical húmido: Floresta tropical
Clima Tropical Seco:  savana, estepe e floresta galeria
Deserto: Vegetação xerófila
Clima subtropical húmido: Floreta mista
Clima Mediterrânico: Floresta mediterrânea, maquis e garrigue Clima Marítimo ou Oceânico: Floresta caducifólia  prados
Clima Continental. Pradaria ou Estepe TemperadaClima Continental ou Subpolar:  Taiga ou floresta de coníferas
Clima Polar : Tundra

Os climas quentes
Os climas quentes, num modo muito simples, podem-se subdividir em três: clima equatorial, clima tropical, e clima desértico (quente).
 
As regiões de Clima Equatorial
 
O Clima equatorial, como o próprio nome indica, localiza-se numa faixa que envolve o Equador, limitada, sensivelmente, pelos paralelos 5º S e 5 º N, podendo chegar, em algumas regiões, aos 10º S e 10º N. Abrange, por isso, áreas como, por exemplo, o Zaire, a bacia do Amazonas, a bacia do Congo, Madagáscar e a maior parte das ilhas situadas entre os oceanos Índico e Pacífico, na zona equatorial.
Da análise do gráfico termopluviométrico que está a servir de exemplo, verifica-se com efeito que se trata dum local perto do Equador (neste exemplo, 40 Lat. S, embora, como é lógico, também pudesse ser de latitude Norte).
Principais características:
- temperaturas médias mensais elevadas e praticamente constantes ao longo do ano, geralmente superiores a 20º C) – As temperaturas elevadas praticamente constantes ao longo do ano devem-se à reduzida inclinação dos raios solares e ao facto de a duração do dia natural e da noite ser praticamente sempre a mesma;
- As amplitudes térmicas anuais são muito reduzidas, ou seja, a diferença entre a temperatura média máxima anual e a temperatura média mínima anual, é muito reduzida, normalmente inferiores a 3º C;
- precipitação abundante e mais ou menos regular ao longo do ano, com registos superiores a 1500 mm – Os elevados valores de precipitação justificam-se pela presença constante das baixas pressões equatoriais, que provocam chuvas convectivas e de convecção (chuvas provocadas pela ascendência brusca de ar fortemente aquecido e húmido à superfície);
- Não existem estações (nem Verão, nem Inverno...), pois todos os meses são pluviosos e quentes, isto é, não existem estações diferenciadas (apenas estação húmida), já que todos os meses do ano são muito quentes, húmidos e pluviosos.
 
Ambiente biogeográfico - Floresta equatorial.
 
 
Floresta Equatorial ou Floresta Ombrófila ou ainda, vulgarmente, Floresta Virgem. Trata-se de uma floresta muito densa, compacta e com grande variedade de espécies arbóreas, devido ao calor e humidade intensos. Trata-se duma floresta muito densa, algumas vezes chamada pelos habitantes locais (principalmente na Amazónia) por «inferno verde».
A floresta equatorial é constituída por um elevado número de espécies, muito próximas umas das outras, com troncos altos e esguios e folhas largas e persistentes. Devido à competição pela luz, verifica-se, normalmente, a existência de vários estratos arbóreos: o mais elevado, constituído por árvores de grande porte, com uma altura de 10 a 30 metros, e, por fim, o estrato inferior, que comporta árvores com cerca de 10 metros. Depois dos estratos arbóreos, é possível observar um estrato arbustivo, mais ou menos alto e denso, com folhas muito delgadas, quase transparentes, em consequência da grande humidade e da fraca radiação solar existente a este nível.
Por fim, junto ao solo, é possível encontrar um manto herbáceo pouco desenvolvido, devido à quase ausência de luminosidade provocada pelas copas das árvores, que compõem os diferentes estratos superiores. Na floresta equatorial é possível observar ainda a existência de lianas e de epífitas, cuja forma de vida assume características muito particulares. As lianas são plantas trepadeiras que se enrolam nas árvores, pelas quais sobem, à procura de luz. As epífitas são plantas que não têm as raízes presas ao solo e vivem sobre outras plantas, que lhes servem de suporte.
Estratificação da floresta densa (equatorial)
Neste esquema, podem-se observar com facilidade os estratos da floresta equatorial. O estrato junto ao solo, é o estrato herbáceo, pouco desenvolvido e onde quase não existe luz, pois as plantas dos estratos superiores dificultam a passagem da luz. O estrato superior, é constituído por árvores bastante altas, cujas copas apresentam uma forma arredondada (tipo guarda-chuva), e os seus troncos, de casca fina,  são lisos, apenas ramificados na parte superior.
É muito vulgar nestas florestas, alguns tipos de plantas trepadoras e parasitas, que se servem das árvores para irem subindo e alcançar a luz; muitas vezes estas trepadeiras desenvolvem-se tanto que acabam por estrangular as árvores onde se enrolam. Estas trepadeiras, normalmente lianas, atingem um desenvolvimento tão grande, que quem as vê, diria que se tratava de uma autentica árvore. Há lianas com cerca de 200 metros de comprimento.
Com estas condições ambientais, a vida animal também é muito abundante e diversa, mas é raro haver nestas florestas animais muito grandes, pois a vegetação é tão densa, que os animais grandes não se conseguiriam movimentar ali dentro. Pela imagem, pode-se fazer uma ideia dos animais que existem na floresta equatorial: nas árvores, alguns mamíferos (macacos, lémures, jaguares, esquilos, preguiças...), imensos répteis (cobras, lagartos, serpentes, jibóias), um grande número de aves (quase sempre muito coloridas e de grande beleza - tucanos, araras, catatuas, papagaios, quetzal...), e uma imensidão de insectos; ao nível do solo (ou perto dele), também mamíferos (leopardos, gorilas, mandarins, antílopes, ratos....) répteis, batráquios (sapos e rãs - muitas delas venenosas), vermes, etc.. Nos rios, quase sempre de águas muito lamacentas e turvas, abundam crocodilos, jacarés, búfalos, rinocerontes, pequenos anfíbios, roedores, e como é lógico, muitos peixes, entre os quais, as famosas piranhas, enguias-eléctricas, etc...

A floresta equatorial, bem como o clima equatorial, está mais ou menos distribuída nas seguintes áreas a verde. Na imagem, vê-se perfeitamente três grandes áreas mundiais de florestas equatoriais: na América do Sul, a Amazónia, a maior floresta equatorial e a mais conhecida; no Centro de África, a chamada floresta equatorial da bacia do Congo; e na Ásia, quase toda a região da Indonésia, bem como a Malásia, Filipinas e países vizinhos.



As regiões de Clima Tropical
 
Os climas tropicais localizam-se entre os Trópicos de Câncer e Capricórnio, a seguir à faixa do Clima Equatorial, sensivelmente entre os 5º e os 12º de latitude Norte e Sul (clima tropical húmido) e entre os 10º e os 12º e os 15º e os 18º de latitude Norte e Sul (clima tropical seco).
 
Principais características:
- temperaturas médias mensais muito elevadas ao longo do ano (superiores a 20º C);
-amplitudes térmicas reduzidas, embora ligeiramente superiores às do clima equatorial;
- as chuvas são abundantes , mas concentram-se numa só época do ano (estação das chuvas);
- apresentam duas estações distintas: uma estação húmida e uma estação seca.
Na zona intertropical, a precipitação diminui com o aumento da latitude e a estação seca torna-se mais longa à medida que nos afastamos do Equador.
Verifica-se com facilidade a existência de apenas duas estações: a estação seca e a estação húmida.
Se a estação pluviosa é mais longa do que a estação seca, o clima é Tropical Húmido. Se, pelo contrário, a estação seca for mais longa do que a estação húmida, o clima é Tropical Seco. Observando os climogramas da figura (que servem de exemplo), verifica-se que no clima tropical húmido, há cerca de cinco meses secos (mais ou menos de Junho a Outubro), enquanto no clima tropical seco, os meses secos são em maior quantidade, mais ou menos dez meses (de Setembro a Junho).

O Clima Tropical de Monção
Existe um caso "especial" de climas tropicais, trata-se de uma variante do clima tropical húmido, que se caracteriza por elevados valores de precipitação na estação húmida, sendo estes valores, muito superiores aos do clima equatorial. Nas regiões afectadas pelas Monções, o clima é muito pluvioso na estação húmida, designando-se o mesmo por Clima Tropical de Monção.
 

O Clima tropical húmido e o tropical seco.
O clima tropical, pode ser subdividido em dois sub-climas: o tropical húmido e o tropical seco.
O









Principais características:
- As temperaturas médias mensais são elevadas ao longo do ano, superiores a 240C. Embora possa ocorrer um ou dois períodos relativamente frescos, a maior parte dos meses apresenta temperaturas médias superiores aos do clima equatorial.
- As amplitudes térmicas anuais, embora maiores do que as do clima equatorial, são pouco acentuadas, tendo um valor aproximado entre 100C e 120C.
- A precipitação distribui-se muito irregularmente ao longo do ano, concentrando-se, na sua quase totalidade, numa só estação.
Ambientes biogeográficos: savana; floresta tropical e estepe tropical.
Nas regiões de clima tropical, existem estes três géneros de formações vegetais, porque este tipo de clima é uma transição entre outros tipos de climas, ao contrário do clima equatorial, que não faz transição com mais nenhum outro tipo de clima. O clima tropical, consoante a latitude (e a continentalidade), apresenta valores diferentes de precipitações e de temperaturas, pelo que pode fazer transição entre o equatorial e o o desértico. Por estas razões (e não só), as formações vegetais variam de acordo com a maior ou menor abundância de precipitações.
Vegetação característica do clima tropical húmido:
 
Floresta Tropical (floresta bastante densa com árvores mais baixas que as da floresta equatorial, mais espaçadas entre si e de copa mais larga);
 
 Savana (formação vegetal dominante e que é constituída por ervas altas e espaçadas intercaladas por uma vegetação rasteira).
Pode-se dizer que a savana é uma formação vegetal herbácea (ervas) alta, atingindo nalgumas regiões os 2 metros de altura, e "salpicada" de algumas árvores e arbustos. Os arbustos são quase sempre espinhosos e as árvores, são, na sua grande maioria, de folha caduca, com troncos muito duros e revestidos de casca espessa. As raízes das plantas da savana são muito profundas e ramificadas, para poderem captar o máximo de água (que lhe permite sobreviver na estação seca). As árvores mais típicas da savana são a acácia e o embondeiro (árvore de grande porte, também conhecido por baoba).
Figura - Savana
Figura - baoba
 
 
Os locais do bioma de savana, encontram-se distribuídos nas seguintes áreas do mundo:
mais informações sobre savanas e os seus animais, clique aqui (em inglês)
 
Vegetação característica do clima tropical seco
Floresta Tropical Seca, muitas vezes espinhosa, e na sua quase totalidade desprovida de folhas na estação seca; Savana (ervas e tufos de arbustos espinhosos); nas zonas mais áridas pode-se encontrar a Estepe Tropical (formação vegetal típica e que é constituída por plantas herbáceas baixas; pequenas e raras árvores e tufos de arbustos dispersos). Nas regiões em que a estação seca é mais prolongada, a vegetação apresenta já características xerófilas (plantas adaptadas à secura, isto é, muito pouco exigentes em água).
Figura- Estepe
 
 
Ao longo das margens dos rios que correm nas regiões de savana aparece a Floresta- Galeria. A humidade do solo permite o desenvolvimento de uma floresta densa semelhante à selva.
 No que respeita à fauna (animais) do bioma savana, ela é constituída principalmente por grandes herbívoros, tais como búfalos, elefantes, zebras, impalas, antílopes, girafas, cangurus (nas savanas australianas). Como os herbívoros são o alimento preferido dos carnívoros, a existência de muitos herbívoros, faz com que existam nas savanas também muitos carnívoros, tais como leões, leopardos, panteras, tigres, chitas, etc... Nas savanas também existem répteis (lagartos, cobras, serpentes), aves (águias, abutres, falcões...) e muitos insectos, principalmente gafanhotos e mosquitos.
As regiões de Clima Desértico
 
Encontra-se a seguir à faixa dos climas tropicais e, localiza-se entre as latitudes 15º e 30º Norte e Sul. Abrange, por isso, áreas como, por exemplo, os desertos do Sara, da Namíbia (Calaári), do Arizona (Mojave), do Atacama e do Grande Deserto Australiano. Contudo podemos encontrar desertos em latitudes mais elevadas do globo em virtude de factores locais como: a continentalidade, as barreiras orográficas e as correntes marítimas.
Nas grandes faixas de altas pressões subtropicais, predomina um clima quente e muito seco: é o clima desértico quente. A enorme aridez, é a característica principal deste género de climas.
Da observação do gráfico termopluviométrico, nota-se perfeitamente as fracas precipitações. No caso que serviu de exemplo, verifica-se que os meses mais pluviosos (Março, Agosto e Setembro), registaram, cada um deles, pouco mais que 10 mm de precipitação. Mas há locais onde a precipitação é praticamente igual a 0 mm. Podem-se passar anos sem cair uma única gota de água, mas, repentinamente, podem-se também desencadear chuvadas torrenciais, de curta duração (de alguns minutos a algumas horas), que originam enxurradas que arrastam tudo à sua frente. Há relatos históricos, da II Guerra Mundial, em que durante algumas destas chuvadas, tanques de combate foram arrastados pelas enxurradas como se fossem rolhas de cortiça. Os povos nómadas do deserto do Sara (os tuaregues) costumam dizer que "há duas maneiras de morrer no deserto: de calor e sede, ou afogados!"

 
Principais características:
- As temperaturas médias mensais são elevadas. Embora não seja facilmente observável no gráfico, que dão a impressão de no clima desértico quente as temperaturas médias mensais, não serem muito diferentes das dos climas tropicais, a verdade é que são muito mais elevadas. O que se passa, é que neste tipo de clima, além de apresentar uma amplitude térmica anual relativamente acentuada (perto dos 200C), possui amplitudes térmicas diurnas (durante o dia, ou as 24 horas), elevadíssimas, Que são uma característica importante deste clima; durante o dia, as temperaturas chegam a atingir os 500C, mas durante a noite a temperatura tem valores próximos dos 00C e até mesmo temperaturas negativas, originando assim, amplitudes térmicas diurnas de mais de 500C.
- amplitudes térmicas anuais relativamente acentuadas, geralmente, superiores a 15º C;
- amplitudes térmicas diurnas elevadíssimas, podendo ultrapassar os 30º C – Estas amplitudes térmicas diurnas explicam-se devido à escassez de vapor de água na atmosfera;
- precipitação rara e irregular (menos de 250 mm por ano);
- não existe estação húmida (podem passar-se anos sem cair uma gota de água, mas quando chove é torrencialmente, formando-se enxurradas que tudo arrastam na sua frente).
 
Ambientes biogeográficos: a estepe e o deserto absoluto
Nos desertos existe uma grande escassez de água e humidade, influenciada por: altas pressões permanentes (altas pressões subtropicais), rápida evaporação, forte insolação, continentalidade, ventos fortes e secos e barreiras orográficas. Neste desenvolvem-se a vegetação xerófila que se adapta à secura extrema e ás elevadas amplitudes térmicas. Com espécies carnudas como por exemplo: os cactos, , figueira-da-índia, agávea, tasneira, etc, que armazenam água nos caules, adaptando-se à secura.
Com tanta secura ambiental, é óbvio que a vegetação é rara e muito rudimentar, escassa ou mesmo nula. Nos locais onde ainda consegue cair algumas chuvas, predomina a vegetação herbácea baixa e pequenos arbustos, bem como alguns cactos. Nas regiões onde as chuvas são extremamente raras, a vegetação está completamente ausente: é o deserto absoluto, arenoso ou pedregoso. Apenas nos Oásis (espaço com vegetação no meio do deserto) onde as águas subterrâneas (toalha freática) estão próximas da superfície ou nas margens dos raros cursos de água, surgem  áreas verdejantes,  que são chamadas de oásis, podendo até, nalguns deles, praticar-se a agricultura. por exemplo, as margens do rio Nilo, não são mais do que um extenso oásis no meio do grande deserto do Sara.
Deserto absoluto Vegetação rala sobrevive no deserto Oásis
paisagem de deserto absoluto, com as famosas dunas.
 
A fauna dos desertos é representada por animais pouco exigentes em água e alimentos: algumas aves (como por exemplo a avestruz e o falcão), répteis (cascavel e monstro-gila), roedores e insectos (como o escorpião). Em relação aos mamíferos, os mais típicos dos desertos, são o camelo e o dromedário, mas também existem outros, como a raposa. nas zonas de transição, ou mais nas estepes, surgem uma variedade maior de animais. Devido às elevadas temperaturas registadas durante o dia, a grande parte dos animais dos desertos, são mais activos durante a noite.


observação: os restantes desertos assinalados na figura, mas sem legenda, apesar de serem desertos, não são considerados desertos quentes.



Climas Temperados Embora se considere como zonas temperadas, as superfícies limitadas pelos trópicos e pelos círculos polares, a verdade é que nem todas as regiões situadas entre aqueles paralelos apresentam clima temperado. Ao estudar os climas, e principalmente os climas temperados, convém não esquecer dos diferentes factores climáticos: a influência da latitude, a continentalidade, as correntes marítimas (que afectam bastante o litoral Atlântico da Europa), e o relevo. Convém também ter presente, que na zona temperada, há regiões que são afectadas por uma "luta" entre massas de ar polar e massas de ar tropical, ou seja, o ar frio (polar) está numa área de contacto com o ar quente (tropical), originando aquilo a que se chama de superfície frontal. Muitos climas temperados, são afectados por esta constante "guerra" entre o ar quente e o ar frio.
A nível de estudo de Geografia em Portugal, em relação aos diferentes géneros de climas, são os climas temperados aqueles que mais importa reter as suas características, uma vez que é nestes tipos de clima que está incluído o nosso território, bem como a maior parte dos países da U.E. e do resto da Europa. Por isso, alerta-se os alunos para uma maior dedicação a estes climas e biomas.
Os climas temperados podem-se subdividir em quatro sub-grupos: Clima subtropical húmido ou clima temperado das fachadas orientais dos continentes ou tipo chinês, Clima clima Temperado Mediteterrâneo (ou sub-tropical seco); clima Temperado Marítimo (ou Oceânico); e clima Temperado Continental.
 

 
As regiões de subtropical húmido
Figura- Clima subtropical húmido
Estes climas localizam-se em regiões de latitudes médias, de 25 a 40º norte e sul, nas fachadas orientais dos continentes.
Características do clima
Invernos suaves e Verões quentes
Amplitudes térmicas moderadas, superiores a 20ºC
A precipitação é elevada durante todo o ano embora mais abundante no Verão, podendo ser de neve no Inverno.
Atendendo às características das estações do ano, este clima é um misto de continental, pelas grandes amplitudes térmicas, e oceânico, pela elevada precipitação.
Esta combinação resulta do facto de na zona temperada as massas atmosféricas se deslocarem de oeste para este, o que leva a que as fachadas orientais sejam atingidas por massas se ar mais frio no Inverno e mais quente no Verão, resultantes do percurso feito nos continentes, ao contrário das fachadas ocidentais, que são atingidas por massas de ar de temperaturas mais amenas, resultantes do percurso feito nos oceanos.
Esta região acusa a instabilidade de massas de ar de natureza e trajectos diferentes. No verão, as massas de ar tropicais marítimas, húmidas e instáveis alcançam as costas orientais dos continentes e dirigem-se para o interior, arrastando ar quente e húmido, o que origina grandes precipitações. No Inverno, é mais comum a invasão de ar polar de trajecto continental (que origina secura, que é amenizada pela presença próxima do oceano.

O bioma que predomina é a floresta mista ou de folhosas
 As florestas mistas são assim designadas por apresentarem espécies características de regiões tropicais juntamente com outras espécies mais típicas de regiões temperadas.
A floresta mista, não é propriamente um bioma, mas sim uma mistura, pois faz a transição entre o bioma de floresta caducifólia e a taiga (que veremos adiante). Chama-se floresta mista porque é composta por vegetação de folha caduca, bem como de árvores de folha persistente, principalmente coníferas.
Encontram-se árvores de grande porte mas com folhas mais pequenas do que nas florestas tropicais. O grau de cobertura vegetal é mais ou menos denso e existem aqui castanheiros, camélias, magnólias e loureiros. Num estrato inferior encontram-se algumas palmeiras, bambus, arbustos e plantas herbáceas. Há lianas enroladas nos troncos de árvores e epífitas. Por outro lado, há musgos a cobrir muitos dos troncos das árvores.
A fauna é também diversificada e rica. Muitos roedores e animais pequenos coexistem com ursos, tigres e predadores de maior porte
As regiões de Clima Mediterrânico
 
O Clima Mediterrânico (ou subtropical seco) distribui-se pela bacia do mar Mediterrâneo (Sul da Europa e Norte de África), Califórnia, região central do Chile, região do Cabo na África do Sul e Sudoeste da Austrália.
 
Principais características:
- Verões quentes, longos e secos (temperatura média do mês mais quente compreendida entre os 21º e os 27º C e temperaturas máximas que podem atingir os 40º C) - (o número de meses secos é por vezes superior a 5);
- Invernos são curtos, húmidos e suaves (temperatura média do mês mais frio entre 6 e 10º C);
- amplitudes térmicas anuais moderadas (entre 6 e 17º C);
- A média do mês mais quente é superior a 20ºC, por sua vez, a média do mês mais frio nunca é inferior a 0ºC.
- A TMA (Temperatura Média Anual), também é próxima dos 15ºC (sendo inferior a 20ºC);
- Fraca nebulosidade.Mesmo no Inverno, registam-se longos períodos de céu limpo e brilhante (normalmente associados à presença de anticiclones);
-Precipitação escassa e irregular, concentrando-se essencialmente nos meses de Outono e Inverno, devido à maior influência das baixas pressões subpolares nesta altura do ano (o total anual pode variar de 400 a 900 mm).
A secura do Clima Mediterrânico, em particular no Verão, explica-se pelo facto de as regiões entre os paralelos de 30º e 40º de latitude serem invadidas, durante grande parte do ano, pelos anticiclones subtropicais que dificultam a formação de nuvens e, portanto, de chuvas. No Outono e no Inverno, os mesmos anticiclones retiram-se para latitudes inferiores, deixando o caminho livre às perturbações frontais vindas de Oeste, originando então chuvas mais ou menos abundantes e muitas vezes acompanhadas de trovoadas.
- o número de meses secos pode variar entre 4 e 7;
 
- Quatro estações bem marcadas e distintas (Primavera, Verão, Outono e Inverno);
Para o distinguir com alguma facilidade dos restantes climas temperados, é o único dos climas temperados que apresenta período seco. Tem período seco no Verão.
A secura do clima mediterrâneo, particularmente no Verão, explica-se pelo facto de as regiões onde ocorre este tipo de clima (entre os paralelos de 300 e de 400, de ambos os hemisférios) serem invadidas, durante grande parte do ano, pelos anticiclones subtropicais, que, como já se referiu, dificultam a formação de nuvens e, consequentemente, de precipitações.
No Outono e no Inverno, os mesmos anticiclones deslocam-se para latitudes inferiores (acompanhando o movimento anual aparente do Sol), deixando então, o caminho livre às perturbações frontais vindas de oeste, as quais originam chuvas mais ou menos abundantes e, muitas vezes, acompanhadas de trovoadas. Sendo a precipitação de origem frontal (associada à passagem das frentes);
 
Ambientes biogeográficos: floresta mediterrânea, o maquis e o garrigue.floresta mediterrânea
Floresta Mediterrânea -formação vegetal constituída por árvores, geralmente de pequeno porte, cheias de nódulos e de folha persistente e, por isso, sempre verde. É constituída por árvores mais ou menos espaçadas entre si, que permite entre esses espaços, o desenvolvimento de um estrato arbustivo mais ou menos denso e também de folha persistente. Quanto ao estrato herbáceo, é pouco desenvolvido, devido a grandes períodos de seca (no período seco). Toda esta vegetação apresenta características de adaptação à secura - folhas pequenas, raízes profundas e ramificadas e troncos revestidos por casca espessa, como é o caso do sobreiro, a azinheira, a oliveira-brava, alfarrobeiras, medronheiros, zambujeiros, pinheiros (pinheiro-manso e pinheiro-de-alepo), o cedro e o cipreste. A actuação humana sobre a floresta (principalmente fogos, pastoreio, agricultura, procura de madeiras...), foi destruindo a floresta mediterrânea original dando progressivamente origem a formações vegetais secundárias: maquis e garrigue.
A Laurissilva - vestígios da antiga floresta mediterrânea da Era Terciária
A floresta mediterrânea original, praticamente não existe. Essa floresta "primitiva" da Era Terciária, está actualmente presente em áreas muito restritas e relativamente afastadas da intervenção humana. Contudo ainda se podem observar em alguns locais, tais como na ilha da Madeira, Açores, Canárias, Cabo Verde. Mas outrora, cobriam vastas áreas da Europa Mediterrânea. Também se chama a essa floresta primitiva Laurissilva (as espécies dominantes são algumas variedades de loureiro - pelo menos quatro).


paisagem de maquis

Maquis - Esta formação vegetal, também designada por chaparral ou matagal, é constituída principalmente por arbustos, muito densa e fechada, formando um matagal de difícil penetração (árvores-anãs). O maquis desenvolve-se, geralmente, em solos graníticos (silíciosos), onde outrora dominou o sobreiro. Entre as várias espécies de plantas que compõem o maquis, destacam-se o medronheiro, o loureiro, a urze, a giesta espinhosa, a piteira e alguns cactos.
paisagem de garrigue
Garrigue- É uma formação vegetal mais aberta do que o maquis, constituída por vegetação arbustiva, mais ou menos dispersos,  e herbácea (formação vegetal que surge em áreas onde o solo é mais pobre – de origem calcária – onde outrora predominou a azinheira). Forma áreas muito aromáticas e onde predominam a oliveira brava, o buxo, o carrasco, o alecrim, a lavanda, o rosmaninho, a alfazema e o timo,  entre outras plantas aromáticas de muito pequeno porte. A vegetação dispersa-se pela paisagem.

Com a destruição da floresta mediterrânea, foram também destruídas, ou levaram a procurar outros locais de refúgio, muitas das espécies faunísticas. Entre os mamíferos, destacam-se os veados, os coelhos, as lebres, os lobos, as raposas, os javalis e pequenos roedores. Os insectos são muito abundantes durante o período de crescimento da vegetação, diminuindo no final do Verão. Há também muitos corvos, tentilhões, águias, corujas e falcões, e entre os répteis destacam-se os lagartos, as cobras e as víboras. Mas pode-se verificar as espécies correspondentes a este bioma (a nível mundial, mas em inglês), clicando aqui.
A distribuição do clima mediterrâneo e do seu bioma, como foi referido, não se confina exclusivamente à área mediterrânea, sendo as principais áreas abrangidas, não só toda a bacia do Mediterrâneo, como também a Califórnia, o centro do Chile, o Sul da África do Sul e o sul da Austrália.
O bosque mediterrâneo é o habitat de muitos animais: coelho, raposa, javali, falcão, lobo, veado, bisonte, castor, gato-bravo, pica-pau, gavião, mocho, …

As regiões de Clima temperado Marítimo ou Oceânico
 
Este género de clima está essencialmente localizado nas fachadas ocidentais dos continentes, entre os paralelos 400 e 600 de cada hemisfério (norte e sul). Predomina na parte litoral da Europa ocidental, desde o extremo norte de Portugal até à costa setentrional e ocidental da Escandinávia, (embora, devido à influência da deriva da corrente quente do golfo, possa atingir, na costa norueguesa, o círculo polar árctico). Existe também em pequenas áreas do Noroeste dos EUA, no Sudoeste do Canadá, no litoral sul do Chile, no sudeste da Austrália e na Nova Zelândia.
 
Principais características:
O clima temperado marítimo (ou oceânico) caracteriza-se, no essencial, por:
- temperaturas médias mensais amenas, sendo o Verão fresco (temperatura média compreendida entre os 15 e os 20º C) e o Inverno pouco frio (temperatura média superior a 5º C);
- amplitude térmica anual pouco acentuada;
A amenidade das temperaturas deve-se à proximidade do mar.
- Precipitações mais ou menos abundantes, e mais ou menos regulares distribuídas ao longo do ano, embora com máximos no Outono e Inverno  e mínimos no Verão.
- não tem meses secos;
- Grande nebulosidade, podendo o céu manter-se encoberto durante vários dias ou semanas.
- apresenta também as quatro estações bem distintas entre si. É, dos climas temperados, o único em que chove durante todo o ano e não tem temperaturas negativas.
A abundância de precipitação deve-se aos ventos húmidos que sopram do oceano e à influência das baixas pressões subpolares, durante o Outono e Inverno, e à passagem de superfícies frontais (a convergência frontal é característica das latitudes médias e ocorre na fronteira de massas de ar diferentes (temperatura e humidade), uma vez que estas regiões são áreas de encontro de massas de ar de características diferentes,  sobretudo durante a época de Inverno, altura em que, no hemisfério Norte, esses centros barométricos se localizam mais para Sul.  Na primavera e no Verão, a proximidade do oceano como factor de clima determina a humidade  e a precipitação. é também devido à presença do mar que as temperaturas se mantêm amenas todo o ano.
 
Ambientes biogeográficos - floresta caducifólia e prados.
Floresta de Folha Caduca (daí o nome caducifólia) ou Floresta Caducifólia constituída maioritariamente por árvores altas e de grandes folhas. A floresta caducifólia, constitui um bioma, mas este, não está apenas restrito ao clima temperado marítimo, sendo mais extenso, e ocupando áreas maiores do que as regiões de clima temperado marítimo. As espécies mais comuns deste bioma, são: o freixo, o plátano, o carvalho-roble, a faia, o castanheiro, a tília, o choupo, o olmo, a bétula,  a giesta, a urze e as silvas. Contudo, também podem coexistir algumas espécies de folha persistente, como o pinheiro-bravo, principalmente nas encostas montanhosas. A variedade das espécies arbóreas, faz com que a variedade de cores seja uma das características deste bioma. No Outono as folhas das árvores exibem cores características desse tipo de vegetação, como vermelho, alaranjado, dourado e cobre.

Interior de uma Floresta Caducifólia.
Prados - os prado são formações herbáceas, tenras, geralmente rasteiras e sempre verdes, devido à abundância de humidade que este tipo de clima proporciona. Os prados são frequentemente resultado da destruição da floresta caducifólia.

prados
  prados
Quanto à fauna típica da floresta caducifólia, podem ver-se alguns exemplos clicando aqui.
distribuição do bioma de floresta caducifólia

Já foi referido que o bioma da floresta caducifólia, não corresponde totalmente às regiões de clima temperado marítimo. Assim, o mapa que se segue, diz respeito apenas às regiões do bioma de floresta caducifólia, embora nessas regiões estejam também áreas de clima temperado marítimo.



As regiões de Clima Temperado Continental
  Localizado sensivelmente à mesma latitude do clima temperado marítimo, mas no interior dos continentes, como no Canadá, no centro dos EUA, no interior da Europa, no interior Norte da Ásia, longe das influências marítimas. Trata-se portanto dum clima rigoroso e agreste, que quanto maior for a continentalidade, maior será o rigor dos Invernos. Em termos práticos, só tem duas estações: O Verão e o Inverno, pois as estações intermédias (Primavera e Outono) são de curta duração e passam despercebidas.
Podem ver-se alguns exemplos clicando aqui.

Principais características:
 
- Invernos longos, secos e muito frios (as temperaturas podem atingir com frequência valores inferiores a -15º C), enquanto os Verões são quentes, curtos e e relativamente pluviosos;
- amplitude térmica anual muito elevada, superior a 20º C, chegando a atingir, em algumas estações, os 40º C;
- precipitações relativamente escassas com máximos no Verão e mínimos no Inverno, frequentemente sob a forma de neve;
 - As precipitações são mais ou menos escassas (veja-se os valores na figura que serve de exemplo), com mínimos no Inverno (frequentemente sob a forma de neve) e máximos no Verão. Neste tipo de clima, vemos que as precipitações são muitas vezes de origem convectiva ;
Esta distribuição da precipitação relaciona-se com a temperatura do ar. No Inverno, o ar, em contacto com o solo muito frio, torna-se mais pesado e desce, formando centros de altas pressões. No Verão, pelo contrário, em contacto com o solo muito quente, torna-se mais leve e sobe, formando centros de baixas pressões, responsáveis pela precipitação mais abundante nesta altura do ano. - vegetação característica: Pradaria ou Estepe Temperada (formação vegetal herbácea contínua, muito densa e mais ou menos homogénea. Nas regiões onde este tipo de clima é menos excessivo e mais pluvioso, surge a Floresta Mista, assim chamada por ser constituída por árvores de folha caduca e por árvores de folha persistente. As mais comuns são os pinheiros e os abetos.
Dentro dos climas temperados, o continental é muito facilmente identificado através de gráficos termopluviométricos, pois é o único com temperaturas negativas e em que a precipitação é mais abundante no Verão.
Ambientes biogeográficos - pradaria
A pradaria, por vezes também é designada por estepe temperada, é constituída por vegetação herbácea, muito densa, formando grandes extensões, relativamente alta, contínua, constituída por gramíneas vivazes (sempre vivas), com raízes muito profundas, que as ajudam a suportar o frio intenso e o gelo próprio do Inverno. Na Primavera, após o degelo, o solo torna-se verdejante, enchendo-se de flores no Verão, o que lhe dá um aspecto multicolor. Este imenso manto herbáceo chega ocasionalmente a ultrapassar os 2 metros de altura. Como o clima é rigoroso, praticamente não existem árvores, embora estas surjam com frequência nas encostas montanhosas e ao longo dos cursos de água.
Figuras - Pradaria nos Estados Unidos


Quanto à fauna destas formações vegetais, ela é constituída por grandes herbívoros (pois o imenso manto herbáceo fornece abundância de alimentos), tais como bisontes, cavalos selvagens, veados, gazelas, etc... Como em locais onde há muitos herbívoros, também costuma haver bastantes carnívoros (predadores), destacam-se os lobos, raposas, cães-da-pradaria, coiotes, chacais, linces, etc... Também existem em grande quantidade, pequenos mamíferos (ratos, doninhas, marmotas), aves, répteis, muitos gafanhotos e mosquitos. Podem-se visualizar alguns dos animais típicos das pradarias (de vários continentes), clicando aqui. Em termos de distribuição geográfica do bioma de pradaria, está localizado nas áreas assinaladas na figura.

Climas Frios
 Nestes géneros de climas, há que ter em atenção duas situações distintas, ambas relacionadas com factores climáticos, mas a cada uma delas, corresponde um factor climático diferente e mais determinante. Num dos casos de climas frios, para além da continentalidade, temos de ter igualmente em atenção o efeito da latitude (caso dos climas frios temperados e dos climas polares - ou desérticos frios), em que a obliquidade dos raios solares é, naquelas latitudes (a partir dos paralelos de 600), sempre muito grande, pelo que, a quantidade de energia solar recebida é muito pequena.O facro de estes lugares estarem cobertos de gelo origina uma maior reflexão dos raios solares e a perda de calor. Os invernos tornam-se muito frios devido à longa duração da noite (nos pólos é de cerca de 6 meses) Como consequência, o aquecimento é pequeníssimo e as temperaturas são, obviamente, baixas. No segundo caso, temos os climas de altitude, que podem ocorrer em qualquer zona climática, ou seja, em qualquer valor de latitude, e independentemente de estarem a maior ou menor continentalidade, pois neste caso, o factor determinante é a altitude do relevo, que, de acordo com o gradiente térmico da atmosfera (inferior), diminui em média (e em determinadas circunstâncias atmosféricas), cerca de 60C por cada 1000 metros de altitude. Deste modo, podem-se dividir os climas frios em: clima subpolar (ou continental frio); clima polar (ou desértico frio); e climas de altitude (ou de montanha). São tanto mais frios quanto mais se avança até às regiões polares.

As regiões de Clima Frio Continental ou Clima Subpolar ou Subártico
 
Localiza-se no interior dos continentes nas áreas de prolongamento do clima temperado continental, sensivelmente entre as latitudes 55º e 65º N. É próprio do Norte da Europa, da Sibéria, do Alasca e do Norte do Canadá).
Nas zonas frias dos 60º Norte e sul estendem-se as zonas frias, onde a zonalidade dos climas se restabelece e onde o factor latitude volta a ser determinante. Alguns países como o Canadá e a Sibéria têm um clima subpolar. Diferenciam-se nestas zonas climáticas vários tipos de clima que correspondem às versões frias dos climas temperados, ou seja, regimes térmicos e pluviométricos idênticos, onde o efeito da latitude se acentua cada vez mais à medida que nos aproximamos do pólo. Daí que se possa falar em clima frio continental (siberiano) e clima frio oceânico).
Clima Continental frio, principais áreas abrangidas - principalmente a Europa Oriental ( sobretudo a Polónia e a Rússia), o interior da Sibéria (na faixa dos 55º), a Manchúria (norte), norte do Japão, norte dos EUA e o sul do Canadá.
Clima Subpolar, principais áreas abrangidas - países nórdicos, Suécia, Finlândia, norte da Rússia (Sibéria), Alasca, grande parte do Canadá.
Clima Sub-ártico, é comum nas regiões de alta latitude que por alguma razão tem seu climograma amenizado no Inverno, sendo raro temperaturas abaixo dos -10 C°, apesar da latitude. O clima sub-ártico pode ser seco, como o encontrado no sul do Chile e da Argentina, ou húmido, como o encontrado nas regiões costeiras da Islândia e do norte da Noruega.

Principais características:
- Invernos muito frios e longos , com temperaturas médias mensais negativas, podendo atingir, nos meses mais frios, valores inferiores a -200C(durante cerca de seis a oito meses a temperatura desce abaixo dos 0º C), a temperatura média anual é de aproximadamente -50C);
- Verões pouco quentes e curtos , com temperaturas médias mensais que raramente atingem os 18ºC;
- Amplitudes térmicas anuais muito elevadas (que pode ultrapassa os 300C);
- precipitações bastante reduzidas (diminuindo progressivamente com a proximidade do pólo), ocorrendo os seus máximos na época estival (Verão). No Inverno, ocorre sob a forma de neve;
- vegetação característica:



Ambientes biogeográficos - taiga ou floresta de coníferas
O bioma que mais caracteriza o clima subpolar será, possivelmente, a Floresta de Coníferas ou boreal.  Na Sibéria esta floresta toma a designação de taiga. Situa-se nas altas latitudes, embora existam também áreas muito perto de zonas polares. É uma floresta monótona, constituída por árvores de folhas persistentes, resinosas e com forma de agulhas, muito densa, constituída por pinheiros ou abetos, de folha persistente, cujas árvores têm a copa e pinhas em forma de cone. A taiga é a mais extensa floresta do mundo, estendendo-se nas regiões setentrionais da América, da Ásia e da Europa.
Localiza-se a latitudes inferiores à tundra, com verões um pouco mais quentes, ventos menos fortes e maior abundância de água. Estas condições climáticas permitiram o desenvolvimento de um número reduzido de espécies arbóreas de folha perene (persistente, não cai), as coníferas, tais como o abeto, o pinheiro, a bétula e o larício.
O reduzido número de espécies e a predominância de árvores de folha persistente (as coníferas, de que o pinheiro é um exemplo, nunca perdem as folhas), fazem da taiga uma floresta monótona e sempre verde, quer no curto Verão, quer no Inverno. Porém, devido ao Inverno ser muito longo e frio, durante a maior parte do ano, a taiga está quase sempre coberta de neve. As coníferas aguentam muito bem o frio (até certos limites) porque, entre outras razões, as folhas pequenas e em forma de agulhas, possuem uma superfície pequena e portanto, a área exposta ao frio também é pequena, e perdem pouca água por transpiração; a sua resina protege os tecidos do frio e também ajuda a diminuir a transpiração; os ramos são muito flexíveis o que lhes permite resistir aos ventos e "bobram-se2 quando estão cobertos com muita neve, fazendo-a deslizar até ao chão.
Entre as espécies de fauna mais importantes da taiga, contam-se a rena, a lebre, o lobo, a raposa, a marta, o arminho, a lontra, o alce, o lince e o urso. Há também muitas aves, principalmente espécies migratórias, que para ali se deslocam no curto Verão. Porém, pode-se observar em mais pormenor as espécies de taiga,  clincando aqui.


Mais uma vez se lembra que este bioma não corresponde apenas ao clima subpolar. A taiga, engloba partes do clima subpolar, do temperado continental e algumas espécies do clima polar. A localização das regiões de taiga pode ser observada na figura ao lado.



As regiões de Clima Polar
Este clima surge nas altas latitudes (70º a 80º) a norte dos continentes americano (Alasca e  Canadá) e asiático (norte da Sibéria) e junto às regiões polares da Europa (Norte da Escandinávia) e na maior parte da Islândia. Faz-se sentir também em grande parte da Gronelândia e na Antártida.
 
            
Clima polar                                                      O clima desértico frio ou gelado
Principais características:
 
- Invernos muito frios e prolongados,  com temperaturas negativas e que chegam a atingir os -600C, ou mesmo, em alguns casos raros, a ultrapassar os -800C (o recorde da temperatura mais baixa registada - na Antártida - é de quase -900C);
- Verões quase inexistentes, embora durante um curto período de tempo (cerca de 2 meses) a temperatura possa atingir valores positivos, as temperaturas do mês mais quente não ultrapassam, em média, os 10º C, é quase as temperaturas do "nosso" Inverno);
- temperaturas médias mensais negativas na maior parte dos meses do ano;
- amplitudes térmicas anuais muito acentuadas;
-só existe, na prática, uma estação: a fria;
-  Precipitações muito reduzidas e concentradas, em grande parte, no período menos frio. Nos restantes meses ocorre sob a forma de neve;
  Ambientes biogeográficos - tundra
Nas regiões de clima polar, a taiga dá lugar à tundra, que é uma formação vegetal muito rasteira e monótona, apenas com alguns centímetros de altura, constituída por ervas, musgos e líquenes. Contudo, podem surgir na tundra, alguns raros e dispersos tufos de arbustos e árvores anãs. A vegetação raramente atinge 1 metro de altura, até o salgueiro-do-árctico (lenhosa) permanece junto ao solo onde está menos frio e o vento é menos violento.
 No curto "Verão", se assim se pode chamar, a tundra não forma um tapete herbáceo contínuo, mas antes alterna com superfícies pantanosas e/ou grandes extensões de rocha nua. Trata-se da formação vegetal mais degradada e pobre da superfície da Terra. 
tundra no "verão" e com o permafrost
Figura - Caribus pastando na tundra (Alasca, EUA            Figura - Permafrost
Nestas áreas, a neve e o gelo formam como que um deserto branco, na maior do ano o solo está permanentemente gelado (permafrost). Permafrost é o solo (incluindo rocha, matéria orgânica e a água no solo - solo escuro) que permanece a temperaturas inferiores a 0ºC por períodos superiores a 2 anos em regiões árcticas (grandes latitudes) e em regiões montanhosas (grandes altitudes permanentemente geladas).  O que dificulta o crescimento de raízes e a absorção de nutrientes minerais. Por isso (aliado aos ventos intensos e temperaturas baixas), quase não existe vegetação arbustiva e arbórea. E, latitudes muito altas, para lá dos 800, a tundra vai-se tornando mais escassa, acabando por desaparecer, já que o solo também desaparece sob um espesso manto de gelo. Figura - Líquenes          Deserto gelado
 
A fauna está adaptada ao frio e é muito semelhante à das regiões da floresta de coníferas, pois os animais migram e hibernam. As condições extremamente rigorosas e rudes localização da tundrado clima e a falta de alimentos, constituem um grande obstáculo à vida animal. Mesmo assim, ela é relativamente abundante. Os mamíferos estão representados por renas, caribus, lebres, lobos e raposas árcticas, ursos, martas, morsas, lontras, etc. São raras as aves sedentárias, mas, na curta estação quente, existem grande número de aves migratórias. No curto "Verão", durante o degelo e nos inúmeros charcos das áreas pantanosas que entretanto se formaram, prosperam autênticas nuvens de mosquitos. Podem-se verificar mais espécies deste bioma clicando aqui. Na figura ao lado, observa-se a distribuição geográfica do bioma de tundra.
Figura - Pinguins

Os climas de altitude (de montanha)
O clima de altitude está presente nas regiões de altas montanhas e de planaltos elevados e, normalmente, vão duma situação de frescura até ao muito frio. Nestas regiões, as condições atmosféricas podem mudar com grande rapidez e, devido à altitude que afecta bastante as precipitações, este tipo de clima pode ser encarado como um reservatório de água, uma vez que se encontra praticamente distribuído por todo o planeta. Estes climas correspondem às áreas que independentemente da sua localização em latitude, vêem alteradas as características dos elementos climáticos, devido à existência de montanhas. Nas regiões de montanhas a influência da altitude manifesta-se de forma diferente na região intertropical e  temperadas. Como a temperatura diminui com o aumento da altitude (a diminuição da temperatura à medida que se sobe em altitude; estima-se que essa diminuição seja, aproximadamente de 0,65ºC por cada 100m – é o gradiente térmico), nas regiões temperadas vamos encontrar neves perpétuas a uma altitude mais baixa. Pelo contrário, nas regiões quentes o factor altitude  tem um papel amenizador das temperaturas o que as torna áreas mais atractivas. Todavia, todas elas registam diminuição da temperatura com o aumento da altitude e a amplitude térmica diurna é significativa.
Da base da montanha até ao topo existem como que diferentes climas, numa sucessão semelhante à distribuição latitudinal dos climas. A precipitação é mais abundante nas vertentes expostas aos ventos dominantes e à medida que aumenta a altitude a precipitação sob a forma de neve torna-se mais abundante.A vegetação vai acompanhar a variação do clima com a altitude e distribui-se por patamares.
“ As montanhas são um factor azonal do clima(…) A disposição do relevo, a altitude, a exposição e o volume (…) originam verdadeiros tipos particulares de clima.
….( com efeito, a rarefacção do ar faz com que a massa atmosférica absorva menos energia solar e o ar das montanhas retenha pouco calor e atinja por isso temperaturas baixas.”
 
Principais características:
Dum modo geral, poder-se-á dizer que este clima, caracteriza-se por:
 - Precipitação abundante, ocorrendo em todos os meses do ano, normalmente, sob a forma de neve;

- Invernos muito frios. A temperatura, durante o Inverno, regista valores negativos;

- Verão: curto e fresco, praticamente inexistentes. A temperatura raramente vai além dos 12ºC;

- Amplitude térmica anual pode ir de fraca a moderada.

- amplitude térmica diurna bastante significativa (chegando a atingir os 25º C e os 30º C, devido; ao rápido aquecimento do ar durante o dia e ao arrefecimento muito brusco durante a noite);
Ambientes biogeográficos
Em termos de biomas/habitats, o clima de altitude é muito peculiar. Dum modo geral, quer plantas, quer animais, necessitam de se adaptarem a este tipo de clima. Ao contrário dos outros climas frios, em que as temperaturas baixas favorecem o aparecimento (e o desaparecimento) de determinadas espécies, no clima de altitude, para além das baixas temperaturas existem outros factores que não existiam em nenhum dos outros tipos de climas. Já foi referido que a pressão atmosférica varia com a altitude, e a composição do ar atmosférico também. Então, no clima de altitude, vamos encontrar espécies adaptadas a temperaturas baixa, espécies adaptadas a pouca pressão atmosférica, espécies adaptadas a pouca quantidade de oxigénio e de CO2 (que é indispensável à fotossíntese) e espécies adaptadas a pouca protecção de raios UV.
Dum modo geral, a vegetação dos climas de altitude, independentemente da região do Mlocalização dos locais de clima de altitudeundo, vai rareando conforma a altitude vai aumentando, de modo que em locais de "neves perpétuas", não se encontram praticamente nenhum ser vivo (tal como nas latitudes muito elevadas - perto dos 900).
Em termos animais, consoante a região do planeta, podem-se encontrar em locais de clima de altitude, o lama, a alpaca, a vicunha, a chinchila (pequeno roedor), o iaque (bovino), o condor, cabras de montanha, leopardo das neves, etc..
Cabra-montês

 Fonte: http://www.prof2000.pt/users/elisabethm/geo7/clima/climas.htm

terça-feira, 16 de julho de 2013

Os jardins verticais de Patrick Blanc



Pincelar as paredes cinzas dos centros urbanos com um pouco de natureza é o trabalho do botânico Patrick Blanc, que viaja o mundo construindo jardins verticais em ambientes externos e internos das cidades.
A intenção do francês é reconectar os habitantes de áreas urbanas com o verde – segundo ele, cerca de 3,5 bilhões de pessoas vivem atualmente nas cidades sem contato com a natureza – e trazer ar mais limpo, clima mais ameno, aumento da umidade do ar e redução do barulho (as plantas são ótimas isolantes acústicas) para os municípios
O botânico coleciona jardins verticais ao redor do mundo (veja todos os projetos de Patrick Blanc), mas em toda a América do Sul apenas a cidade de São Paulo teve a sorte de receber uma visita do francês, que deixou sua marca na Fundação Armando Alvares Penteado (FAAP). Blanc até tinha um projeto para o Rio de Janeiro, mas a ideia não saiu do papel.
Conhecido como o Pai dos Jardins Verticais, o botânico também pode ser considerado um artista, já que encara as paredes em que trabalha como telas de pintura gigantes, onde faz composições harmônicas de diferentes espécies de plantas – cuidadosamente escolhidas com base nas condições locais.
A manutenção dos jardins verticais também é uma preocupação para Blanc, para que seu trabalho não vire um fardo para os moradores da cidade, quando for embora. As plantas são fixadas em um feltro especial, que é irrigado regularmente com fertilizantes, garantindo que as espécies tenham os nutrientes que necessitam e que as raízes não cresçam demais, à procura de água.
Confira, acima, algumas das obras de arte vivas de Patrick Blanc ao redor do mundo.

segunda-feira, 15 de julho de 2013

Travessia Parnapiacaba - Cubatão: Descida do Vale do Quilombo e Subida do Vale do Mogi

Por divanei 

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O mapinha e ilustrativo, não serve para navegaçã.

Paranapiacaba, em tupi, lugar de onde se pode avistar o mar. Para mim sempre foi: Lugar onde se pode ser assaltado. Os vários relatos de crimes no pequeno vilarejo com características inglesas, sempre me manteve afastado daquelas bandas, ainda mais por sempre associar o local com muita muvuca e mochileiros maloqueiros. Talvez fosse mesmo certo preconceito, mas com tanta coisa para fazer e tanta trilha para caminhar, nunca achei que valesse a pena explorar a região. Houve um tempo que o trem ia até o vilarejo, o que acabou tornando Paranapiacaba mais famosa ainda. Na década de 90 até cheguei a fazer uma visita, nos tempos em que me aventurava sobre duas rodas juntamente com meus primos paulistanos. Desci até o poço da Pedra Lisa em uma tarde de muita neblina em que nada vi ao visitar também o Mirante. 

Nos últimos meses começou a pipocar na minha caixa de e-mail, relatos de aventureiros experientes que contavam maravilhas de explorações por lá realizadas. Isso acabou aguçando a minha curiosidade. Foi aí então que no feriado da Páscoa resolvi botar minha mochila nas costas e juntamente com meus amigos Dema e João Paulo, partimos na quinta-feira a noite da rodoviária de Campinas para a capital paulista. Partimos às 20 horas e surpreendentemente às 10 horas da noite já estávamos em São Paulo, sem atrasos, coisa rara em véspera de feriado. Desembarcamos no Terminal Rodoviário do Tietê e logo em seguida pegamos o metrô para estação da Luz. O metrô estava apinhado de gente e o vagão havia se transformado em um verdadeiro hospício. Uns caras batiam em uns tambores e uma centena de pessoas cantava e rebolava. Ficamos paralisados diante daquela cena. Era um tal de “Quica, quica, quica na latinha”. Pra nossa sorte logo chegamos à estação da Luz, onde se juntou a nós o outro integrante da trip. Meu primo Lindolfo mora na capital, se deslocou lá da zona leste para nos encontrar. Desde a Volta da Ilha Grande não caminhamos juntos, já imagino logo: Vai ser uma travessia divertida.


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Da Luz partimos para Rio Grande da Serra e logo nos dirigimos para o ponto de ônibus de onde sai o transporte para Paranapiacaba. Na tentativa de conseguirmos informações, acabamos puxando conversa com uma guia ambiental, que trabalha no vilarejo inglês. Ela nos disse que todos os caminhos partindo de Paranapiacaba estava fechado a muito tempo pelos órgãos ambientais. Ninguém poderia passar, nem os guias estavam podendo trabalhar lá. Fecharam as trilhas para recuperação e a fiscalização estava pegando pesado. Pronto, agora ferrou, pensei logo! A informação que haviam me passado que seria possível passar a noite sem levantar suspeita, agora parecia que não estava mais valendo. Ela ainda nos disse que a Trilha do Rio Mogi havia desabado e passar a noite por lá seria muito ariscado. Paciência, já estávamos a caminho e só nos restava ver no que iria dar.

Menos de meia hora depois saltamos no vilarejo de Paranapiacaba, bem junto da sua igreja principal. Meio perdidos e sem saber o que fazer, pois já passava da uma da madrugada, ao vermos um grupo estacionado em um carro ao lado da igreja fomos tentar obter alguma informação. Quando nos aproximamos levamos um baita susto. Todos os cinco elementos estavam com uniforme do exercito. Putzzz, fomos tentar pegar informação logo com o pessoal da fiscalização, que azar dos infernos!!! Pra nossa sorte não era a fiscalização, era só alguns soldados se preparando para ir até um mirante, também iriam tentar burlar a fiscalização. Convidaram-nos para seguir com eles e nos deram a dica de a partir do Mirante, descer a trilha que vai ao Poço das moças, que ficava no Rio Quilombo.A priori a nossa intenção era descer pelo vale do Rio Mogi e Subir pelo Vale do Rio Quilombo, mas diante da situação, resolvemos acompanhar os soldados, já que moravam na região e conheciam os atalhos para fugir da fiscalização. Tudo acertado, descemos a ladeira que leva até a grande ponte e cruzamos a linha do trem, de onde se avista o relógio parecido com o Big Bem Londrino. Passamos pela lanchonete da Zilda e logo acima estacionamos em um boteco aberto pára comer alguma coisa. Foi nesse pequeno bar que conhecemos o Ronaldo, uma figura totalmente estereotipada, uma mistura de Baden Pawer,o fundador do esoterismo , com o Indiana Jones. Como um amigo depois me disse era o tio do Indiana Jones em pessoa.Um cara extremamente prestativo, que nos deu várias dicas sobre a trilha para o Poço das Moças.



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Então seguimos todos juntos: Nós, os soldados, o tio do Indiana e seu fiel escudeiro. Passamos em total silêncio enfrente da base da polícia militar e alguns minutos à frente pegamos a estrada-trilha calçada, passamos pela base da fiscalização, que pra nossa sorte estava fechada e vazia. Eu estava morrendo de medo de sermos pegos, mas 10 minutos depois veio a notícia que não havia mais perigo, havíamos passado, o caminho estava livre, minha dor de barriga passou. Paramos logo acima para nos abastecer em uma bica. Logo veio a lua e iluminou todo o caminho. A noite estava linda. Passamos pelo grande paredão rochoso e mais a frente na bifurcação, pegamos á direita e em poucos minutos atingimos o topo do Mirante.

De cima do mirante é possível avistar as luzes de Cubatão e suas fábricas e usinas. Já passava da três da madrugada e enquanto a galera ficou tomando vinho com os soldados, eu que não sou dado ao álcool, fiquei batendo papo com o Ronaldo, que acendeu uma tocha feita de bambu e óleo diesel. Ele me contou uma história ou lenda sobre o cara que acionava o gerador que havia ali no topo para iluminar uma antena sinalizadora para aviões. Disse que naquela noite o funcionário que ficava la encima foi morto por uma onça e não pode ligar o gerador e por causa disso um avião de pequeno porte se chocou contra a montanha. Acho que foi o único caso em que uma onça derrubou um avião. Bom, papo vai papo vem, mas já estava ficando tarde. O Tio do Indiana ia descer a trilha a noite,os soldadinhos foram até o pico só para tomar cachaça e fumar um cigarrinho do capeta e já se preparavam para voltar à Paranapiacaba e nós iríamos acampar por ali mesmo. Como a noite estava espetacular resolvemos somente bivacar, sem montar barraca alguma. Estendemos nossos sacos de dormir no concreto que servia de base para as antigas antenas e caímos no sono, mas não demorou muito uma nuvem safada resolveu pingar encima de nós. Então pegamos nossas coisas e fomos dormir embaixo de uma laje destruída, que abrigava os antigos geradores, que por sinal ainda protege as carcaças do dito cujo. O lugar é escuro, sombrio, parece uma toca de ratos, mas estava seco e abrigado do vento e foi lá que passamos a noite, embaixo de uma laje de dois palmos de altura.

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O dia amanheceu lindo, sem nenhuma nuvem no céu. Logo cedo meu primo, que tá parecendo o tio do Rambo (rsrsrsrsrsr), nos acordou e ficou enchendo o saco para a gente levantar. Sem muita vontade e caindo de sono, antes das sete da manhã saímos da toca do rato, tomamos um café, batemos uma foto do mirante e partimos serra abaixo em direção ao Poço das Moças, no Rio Quilombo. A trilha não tem segredo, vai sempre descendo e quase todas as bifurcações vão sempre sair no mesmo lugar. Seguimos de vagar. Eu e o Dema à frente e o Lindolfo e o João Paulo atrás. Quando aparecia alguma trilha duvidosa, eu informava meu primo pelo rádio e lhe indicava qual o caminho a seguir. Pegamos sempre os caminhos da esquerda e não tivemos nenhum problema até que pouco mais de uma hora depois tropeçamos no Poço da Pedra Lisa. Para ir até o poço é necessário deixar a trilha por um instante e cruzar por cima da pequena cachoeirinha, coisa de 20metros e não mais que isso. O poço não é muito grande, mas deve ter uns 2 metros de profundidade. A água é cristalina e um pouco gelada, mas como estava fazendo um calor insuportável, tiramos a roupa e nos “pinchamos” pra dentro daquele paraíso e ficamos lá um bom tempo descansando e jogando conversa fora. A trilha que estamos fazendo muito provavelmente deve ser a tal trilha do zigue- zague, que hoje está interditada e totalmente proibida, o que acabou até sendo uma boa, pois da última vez que estive lá na década de 90 era uma farofada só e hoje somos donos absolutos do lugar. Deixando o poço, voltamos de novo para a trilha, que desce alguns metros até o cabo de aço que da proteção para que ninguém despenque da Pedra Lisa. Cruzamos então por cima da pedra, atravessando o riacho que vem do poço que havíamos tomado banho e entramos logo na mata. A trilha continua descendo e com uma grande inclinação, onde de vez enquando um dos integrantes é obrigado a usar sua área de laser como freio, não eu é claro, porque minha área de laser é outra (rsrsrsrsrsrs).

Sempre descendo, eu e o Dema nos adiantamos muito e então resolvemos dar uma parada para esperar os outros dois. Assim que eles chegaram partimos novamente e não andamos nem 50 metros, tivemos que fazer uma parada obrigatória. Uma peçonhenta havia estacionado no meio da trilha e ficou lá nos olhando com seu olhar venenoso, pronto para nos enfrentar. O Dema foi quem deu o alarme. Nesse momento fiquei feliz de estar portando minha perneira ante cobra tabajara. Sabe como é né, quem já foi picado de cobra, tem medo até de cipó. Quando me aproximei para tentar fotografá-la, ela deu no pé, melhor assim. Novamente nos pomos a caminhar, sempre em um ritmo devagar para não perdermos muito de vista o João e meu primo, que caminhavam em passos de lesma tetraplégica. Mas como nenhum caminho é tão longo que nunca chegue ao seu fim, às 13horas chegamos finalmente ao famoso Poço das Moças.

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O Poço das Moças, no Rio Quilombo, é daqueles lugares que valem o esforço de qualquer caminhada, vale todo o suor derramado e todo o esforço desprendido. Todo caminhante, excursionista, trekking, deveria se sentir honrado de conhecer um lugar como aquele. Principalmente nós que moramos em cidades cada vez mais poluídas, onde a oportunidade de encontrar águas com aquela qualidade é cada vez mais rara. É um gigantesco poção de quase 10 metros de profundidade com águas totalmente potável. Antes de cair no poço a água que passa sobre a imensa laje, serve de verdadeiro parque de diversões. Tem uma piscina profunda, tem um escorregador que te leva para dentro de um buraco que depois te cospe para cima, tem um grande balanço pendurado em uma árvore, de onde você salta e se joga no vazio até cair no poço profundo.

Enquanto a galera se divertia, fui cuidar de preparar o almoço. O sol estava muito quente e vez ou outra eu largava meus afazeres e me jogava na água. Dei muita risada e zoei muito o João Paulo, que tentava sem sucesso saltar do balanço. Ele só pulou porque eu e o Dema encarnamos na alma dele, já o Lindolfo nem se meteu a besta porque esse negócio de água profunda não é com ele,já que o único estilo que ele nada é o machado sem cabo(rsrsrsrsrsr).Pronto o almoço , nos reunimos todos na laje e ficamos comentando como tudo estava dando certo até ali, até agora tudo estava perfeito. Com a barriga cheia, alguns foram tirar uma soneca, eu e o Dema fomos tomar banho no poço que engole e depois de um descanso merecido, jogamos as mochilas às costas e partimos para outras paragens. Atravessamos o rio por onde a água escorre do poção e reencontramos a trilha do outro lado. Ela segue em nível, atravessa um córrego de águas cristalinas e em 20 minutos demos de cara com a barragem, que alguns também chamam de Poço do Quilombo.

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O Poço do Quilombo é outro lugar irresistível, não dá para passar por ele e não se jogar na água. Estávamos lá dando altos pulos, quando vimos um helicóptero da Policia Militar começar a dar rasantes por cima de nós. Voltamos a ficar tensos e apreensivos, poderia ser a fiscalização atrás de intrusos na área do Parque Estadual da Serra do Mar, ou seja, nós. O bicho ficou feio quando o pássaro de aço resolveu pousar junto ao poço. Ficou a uns 10 metros do chão e de dentro do helicóptero desceu 2 homens armados até os dentes. Aquela minha dor de barriga, voltou com tudo. Pensei: ”Agora a gente não escapa”. Logo vimos um grupo de resgate que veio por terra e passou a passos rápidos por nós e então ficamos sabendo que eles estavam atrás de uma pessoa que havia se perdido junto à Pedra Lisa e havia feito contato por celular. Voltamos a ficar aliviados.

Pegamos nossas coisas e voltamos para a caminhada. Atravessamos o poço, beirando o lado esquerdo e então saímos já na rua de terra, onde várias viaturas e uma ambulância estavam estacionadas. Uns soldados da polícia militar nos fitavam com cara de poucos amigos, até que um deles, o mais mal encarado de todos me intimou a dar esclarecimentos. “Porra” logo eu! Queria saber de onde víamos, para onde íamos. Hesitei por um momento. Falo a verdade ou conto uma lorota? Não consegui mentir, estava hirto de tanto medo. O policial me olhou com cara de reprovação, mas queria saber se não tínhamos visto o tal sujeito perdido na trilha. Depois dos devidos esclarecimentos, eu queria era sair dali o mais rápido possível e então voltamos a caminhar naquela estradinha tão estreita como uma trilha. Poucos minutos à frente damos de cara de novo com o Rio Quilombo e sua gigantesca ponte pêncil, onde também é possível passar de carro por dentro do rio, já que uma grande laje de concreto foi construída por lá. Foi neste local que reencontramos nosso amigo Ronaldo, que mantém escondido no meio do mato, em algum lugar secreto, uma área de acampamento onde ele vai desfrutar das belezas deste lugar com sua família e seus amigos. Fiquei curioso para conhecer a família do tio do Indiana, um cara de uma gentileza do tamanho do mundo. Encontrar com estas figuras na trilha faz qualquer viagem valer a pena.

Ficamos lá por um bom tempo batendo papo com o Ronaldo, quando chegou o pessoal da REDE GLOBO LITORAL. Conversaram com a gente, perguntaram se sabíamos de alguma coisa, se estávamos a par do acontecido. Foi então que de repente a linda repórter e o feio cinegrafista, perguntaram se a gente não poderia conceder uma entrevista para eles. Até agora não sei quem foi o filho da puta que disse que eu era o cara que deveria falar (rsrsrsrsr).Fui respondendo as coisas que a repórter ia me perguntando, que por incrível que pareça não tinha nada a ver com o caso do sujeito perdido na trilha. Ela queria saber como era aquele negócio de um monte de homens largarem a civilização e sair a caminhar no mato, se a gente fazia isso há muito tempo, se não era perigoso e essa balela toda que a imprensa burra e desinformada gosta de explorar. Demos adeus aos nossos minutos de fama, nos despedimos do nosso amigo Ronaldo e partimos novamente para caminhada, que já sabíamos que seria muito longa, até chegarmos à Piaçaguera-Guarujá, coisa de mais de 10 km, mas a sorte bateu a nossa porta novamente. Uma caminhonete do Corpo de Bombeiros, que estava voltando do local do resgate, parou e nos ofereceu uma carona. Pulamos para cima do veículo e passamos mais de 10 km rindo dos acontecimentos.


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O bombeiro nos deixou enfrente a um bar, a 1 km da Piaçaguera. Resolvemos entrar no boteco para tomar um refrigerante e comer alguma coisa. O nosso próximo objetivo era tentar conseguir uma maneira de chegar até a entrada da trilha do Rio Mogi, sem ter que passar pelas dependências da Cosipa (companhia siderúrgica paulista), porque já haviam me avisado que sair até que é fácil, mais entrar por lá era impossível. Um dos soldadinhos havia me avisado que daria para acessar o Rio Mogi, sem passar pela Cosipa. Nós deveríamos passar por baixo do viaduto em curva e caminhar paralelo a linha de trem e de lá achar uma maneira de acessar o Rio. É muito fácil falar para quem já conhece um pouco o local, mas nós não tínhamos a menor idéia do que ele estava falando. Foi aí que ao perguntar para um senhor no boteco sobre a tal possibilidade, ele me fez uma proposta: “Coloca aí uns 10” conto “ de gasolina e eu levo vocês lá”.Não deixamos nem o homem respirar, antes que ele desistisse,pegamos nosso refrigerante e nossas mochilas, jogamos tudo no porta malas do carro e também nos jogamos para dentro do veículo. Alguns minutos depois já havíamos ganhado a Rodovia Piaçaguera-Guarujá e o veículo foi cruzando por um monte de pontes e aí fomos vendo que jamais encontraríamos o tal caminho sem a ajuda de alguém. O veículo fez um retorno e voltou por cima e depois por baixo de algumas pontes, que sinceramente não tenho nem como dar informações. Só sei que ele passou por baixo de mais uma ponte e começou a rodar ao lado de uma linha férrea e depois de alguns quilômetros ele a atravessou e então paramos quase no final da estradinha de terra, a uns 150 metros da Oficina de Concertos da rede ferroviária, acho que era a antiga Estação Raízes da Serra, bem no local onde as composições começam a subir pela cremalheira, uma espécie de linha com dentes e engrenagens.

Bom, sabíamos que o Rio Mogi estava ali em algum lugar a nossa esquerda e que a Cosipa já havia ficado para trás, mas ainda havia um problema a ser solucionado: Como passar pela Companhia Ferroviária e não ser parado? Quando o carro chegou à guarita não teve jeito, tive que descer e me informar. Lá estava ela, de novo a me importunar, a dor de barriga e o frio na espinha. Pensei logo: Não vão nos deixar passar de jeito nenhum, vamos ser barrados. Na guarita um guardinha com um rádio me pergunta o que eu quero. Sem titubear vou logo dizendo: O chefia como eu faço para acessar o Rio Mogi? Ele olhou na minha cara, me examinou de cima em baixo e disse: “Atravessa a linha na torre que lá tem uma corda que da para descer até o Rio Mogi. Suspirei aliviado e voltei para o carro e pedi para o motorista avançar mais uns 50 metros para nós podermos descer as mochilas sem chamar muita a atenção. Despedimos-nos do dono do carro e cruzamos aceleradamente pela linha sem ao menos olhar para trás. Eu queria chegar ao Rio o mais rápido possível. Estávamos parecendo tartaruguinhas recém saídas do ninho correndo a toda velocidade para a água. Chegamos à tal torre e nada de achar a tal corda. Eu já tava a fim de me meter na capoeira e abrir o mato no peito de tanto medo de sermos pegos.Fomos seguindo a linha do trem até a cremalheira, que fica enfrente á estação velha. Foi lá que vimos uma trilha bem larga , quase uma estradinha saindo á esquerda e o mais rapidamente pegamos aquele caminho e saímos de vez das vistas do pessoal da Oficina de maquinas. Andamos uns cinco minutos na trilha larga. O Dema ia a frente e foi ele quem deu o alarme:”fodeu Divanei , tem um guarda aí na frente e ele já nos viu”. De novo minhas pernas tremeram.Faltava tão pouco e os cara foram nos pegar justo aqui.Mas não era um guarda,era só um morador de um casebre que roçava o terreno com um facão e estava com um uniforme. Perguntamos pelo Rio e o gentil “Seu Severino “ nos guiou até ele,abrindo a picada com o facão. 


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Finalmente estávamos no famoso Rio Mogi. Já passava das cinco da tarde e a noite não tardava em cair. Despedimos-nos do seu Severino e começamos a subir o rio, que tinha águas limpas, mas não cristalinas por causa de um tributário próximo que trazia um pouco de sedimentos. Esta parte do rio é extremamente rasa, mas não há trilhas em sua margem, é preciso ir cruzando de uma margem a outra e escolhendo o melhor caminho para seguir. O dia já se foi e a nossa preocupação era arrumar um local para acampar. Foi quando chegamos a uma praia de areias claras e eu e o Dema batemos o olho e decidimos que o melhor local era ali mesmo. O tempo estava muito bom e não parecia que iria chover e então decidimos por não montarmos as barracas, iríamos bivacar mais uma vez. Acendemos o lampião de velas e enquanto alguns tomavam um banho outros cuidavam do jantar. Na areia da praia espalhamos um grande plástico e esticamos nossos sacos de dormir e isolantes. A lua chegou, mas não era uma lua qualquer, era uma lua cheia, esplendorosa, transformou a noite em dia e isso nos fez ficar conversando sobre a vida até altas horas da noite. Eu e o Dema confessamos a nossa apreensão. Tudo havia dado tão certo até agora que não descartávamos a hipótese de algo muito ruim nos acontecer daqui para frente. Era muita sorte para uma caminhada só, tudo estava parecendo um roteiro de filme.

Fomos para a cama muito tarde, mas mesmo assim eu não conseguia pegar no sono, eu estava muito excitado com os acontecimentos. Fiquei olhando para lua cheia e pensando de como a vida pode ser extremamente simples e de como o ser humano precisa de tão pouco para sobreviver e ser feliz. Estávamos ali, quatro amigos perdidos no meio de um vale, a beira de um rio, dormindo ao relento e felizes da vida. Vai entender a cabeça dessa gente trilheira que encontra prazer nas maiores dificuldades, que dá risada do perigo, que vibra na hora que o bicho ta pegando feio, que se realiza em lugares onde a maioria das pessoas detesta e abomina. É, nós não somos mesmo deste planeta!!!!!!


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Apesar de estarmos no outono, o dia já amanhece extremamente quente e antes das 07 horas já estamos de pé. Estamos no sábado de aleluia, não temos nenhum Judas para espancar, mas temos pela frente um longo dia de caminhada, que nos promete trazer muita aventura e satisfação. Arrumamos tudo e partimos após o café. O caminho é sempre por dentro da água, vez ou outra alguém pisa em uma pedra lisa e vai beijar algum poçinho com mochila e tudo e aí acaba a frescura de tentar não molhar as botas. Um escorregão me fez dar uma boa ralada nos joelhos, sinal que experiência não garante coisa alguma, são as pedra que escolhem suas vítimas. Fomos subindo e em menos de uma hora de caminhada estacionamos na confluência do Rio Mogi com o Rio da Onça, onde se pode acessar o Vale da Morte e a tal Garganta do Diabo. Como estávamos super avançados no nosso roteiro por causa das caronas do dia anterior, resolvemos explorar um pedaço do vale, que estava a nossa esquerda. O Rio da Onça começa rasinho, mas alguns minutos depois já começa a aparecer os obstáculos. Os cânions começam a surgir e já é preciso passar com a água pelo pescoço. Foi aí que decidimos esconder as mochilas no mato e seguir de mãos vazias, apenas com uma corda e as máquinas fotográficas e o Lindolfo levou seu colete salva vidas, só para garantir. Fomos escalando os paredões e subindo por onde dava, algumas vezes era preciso mesmo se jogar com roupa e tudo dentro dos poços profundos e nadar. E nadar de roupa, bota e perneira e ao mesmo tempo segurar a máquina fotográfica para não molhar, era terrível. A água estava com uma temperatura super agradável, a adrenalina estava super alta, nunca sabíamos o que encontraríamos pela frente. Aquilo sim era aventura e das boas. Encontramos com um pequeno grupo que havia descido todo o Vale e aproveitamos a corda deles para subir em um paredão. Subimos o cânion por umas duas horas e voltamos. A volta foi super rápida, deixamos as frescuras de lado e voltamos por dentro da água mesmo, pois já conhecíamos os perigos. Chegávamos à beira dos poços e saltávamos e já saíamos nadando, pura diversão.


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Voltamos, portanto, novamente ao Rio Mogi e daí para cima o rio deixa de receber os sedimentos do Rio da Onça e suas águas são as mais cristalinas e pura que os olhos humanos podem ver. Coisa linda a cor daquelas águas. O único lugar que vi águas tão fascinantes foi ás margens do Rio Aiuruoca, quando acampei na travessia da Serra Negra,no Parque Nacional de Itatiaia. A grande diferença era que em Itatiaia a água era tão fria, que era impossível de tomar banho e no Rio Mogi não. A temperatura da água estava maravilhosa e no primeiro poço de mais de um metro de profundidade paramos para um banho de roupa e tudo e para fazer um lanche. Ficamos mesmo encantados com tanta beleza, mas o tempo passa depressa e era preciso voltar para a caminhada. De 100 em 100 metros aparecia um poço diferente e lá estávamos de novo imersos na água e inventando um adjetivo novo para descrever cada um dos poços e foi neste ritmo que ás 15h30min da tarde, chegamos ao Poço do pulo, onde encontramos um pequeno grupo desmontando seu acampamento. Nossa intenção era seguir até a famosa Prainha do Rio Mogi, uma meia hora á cima, mas como os garotos disseram que já havia um grupo acampando na área, decidimos ficar por lá mesmo, ainda mais quando vimos a qualidade do poço que passaríamos o resto da tarde. Poço de águas verdes, com uma enorme pedra para mergulho. Jogamos nossas mochilas no chão e demos por encerrado nosso segundo dia de caminhada e assim que o grupo partiu, montamos nossas barracas e fomos cuidar do almoço. Nossa comida já estava no fim e a única coisa que sobraria para o dia seguinte seria dois pacotes de miojo e uma caixinha de feijão pronta. Então o nosso almoço também seria a nossa janta. Almoçamos muito bem e passamos o resto da tarde nadando e conversando na Pedra do Pulo, até que caímos no sono lá pela cinco da tarde. Faltando pouco para as 06: horas o Dema me chamou para irmos conhecer a prainha. Topei o desafio e não gastamos mais de 20 minutos para chegar lá, o João e o Lindolfo continuaram no acampamento, descansando. Ao chegar à prainha encontramos três caras acampados por lá. Batemos um papo, tomamos um café e ainda descolamos um valioso pacote de macarrão. A Prainha do Rio Mogi é igualmente linda, mas como já estava escurecendo ,deixamos o banho para o dia seguinte e voltamos rasgando antes que a noite nos pegasse pelo caminho. De volta ao acampamento fomos tomar o último banho do dia e depois ficamos na pedra do pulo apreciando a majestosa lua cheia, batendo altos papos e tomando balde e mais baldes de café e de cappuccino. Então lá para 08h00min da noite resolvemos preparar os dois pacotes de macarrão instantâneo com feijão, já que agora tínhamos mais um pacotão de macarrão, que havíamos ganhado na Prainha do Mogi. Comemos ali mesmo na Pedra do Pulo, onde ficamos celebrando a vida e a amizade, até que resolvi me atirar para dentro da barraca, enquanto o Dema e o Lindolfo preferiram bivacar encima da Pedra do Pulo, nessa hora o João já havia morrido na barraca dele.


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No domingo de páscoa, acordamos preguiçosamente, sem muito compromisso com nada, apenas curtindo o bom e velho ócio, que é a arte de fazer coisa alguma. Vagarosamente, desmontamos as barracas. Tomamos café, demos mais uns pulos no paraíso de águas verdes e partimos. Subimos por uns 10 minutos, onde passamos pelo poço do sonrizal, que chamei por esse nome porque uma pequena queda fazia sair de dentro do poço milhares de bolhas, como se ele estivesse em ebulição. Outros 20 minutos foram gastos para alcançarmos a Prainha o Rio Mogi. Os três rapazes ainda estavam lá e já se preparavam para ir embora. Essa prainha é muito famosa na região de Paranapiacaba, porque é possível alcançá-la por uma trilha de não mais de 3 horas de descida, mas como tudo que desce um dia tem que ser subido ela acaba sendo uma trilha para ser realizada em um dia inteiro e intenso, dessa maneira não é muita gente que se aventura por aqui, ainda mais agora que a trilha esta fechada e vigiada pela fiscalização. Tanto que em dois dias de travessia pelo Vale do Mogi, só encontramos apenas dois pequenos grupos. O poço da prainha também tem uma coloração esverdeada, onde existe uma pedra que serve de trampolim natural. Passamos mais ou menos uma hora nos refrescando e então demos ás costas para o Rio Mogi e partimos para a derradeira subida. 
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A trilha entra na mata pelo lado esquerdo de quem está subindo o rio e vai quase que subindo paralela ao próprio rio, vai cruzando vários riachos e em alguns pontos está tão fechada que é preciso procurá-la no meio da vegetação, sinal que está sendo pouco usada. Eu e o Dema vamos sempre à frente e hora ou outra paramos para esperar o meu primo e o João. È uma trilha longa, mas não de muita inclinação, mas o João e o Lindolfo já começam dar sinal de esgotamento. O Lindolfo não reclama, parece já estar resignado com o sofrimento que está por vir, mas o João não se faz de rogado. Reclama do aclive da trilha, da falta de comida, da falta de água, reclama da cor das borboletas e dos formatos das pedras. Passamos pelo último riacho, encho meu cantil e sigo. Ninguém mais se preocupou em pegar água. A caminhada foi se estendendo, a fome e a sede foi apertando, o João reclamando e dizendo que já estava para desmaiar. Quando vi que a coisa estava feia chamei o Dema em um canto e falei para ele assumir o cuidado com o João e o Lindolfo, que eu iria acelerar na frente até o ponto em que havia água e fazer o nosso rango. Tomei à dianteira e com um pé na frente do outro foi ganhando terreno sem parar nem para descansar. Em certo ponto da trilha me lembrei da água que eu havia guardado para uma emergência. Tomei um pequeno gole, fiz um totem com três pedras e deixei o meu cantil no meio da trilha na esperança de que ele pudesse salvar a vida dos que vinham atrás, pelo menos dos mais despreparados. Logo á frente encontrei os meninos que estavam acampados na prainha. Estavam parados embaixo de uma das torres de alta tensão que serve de acampamento. Perguntei sobre o ponto para pegar água e eles me disseram que eu deveria subir mais umas duas torres. Subi a mil por hora, feito um mamute arrebentando tudo que era mato no peito, até que encontrei a fonte de água cruzando a trilha. Bebi o quanto agüentei, peguei uma panela, acendi o fogareiro e coloquei o macarrão para cozinhar.

À uma hora de distância de onde eu estava, o Lindolfo e o João lutavam para não desistir. O Dema dava o apoio psicológico. Disseram-me que o João teve que comer uns torrões de açúcar para conseguir seguir enfrente. De vez enquanto parava e deitava no meio da trilha e ficava lá feito uma barata tonta, com as pernas para cima (desculpa caro amigo eu jurei que não iria zoar, mas foi mais forte que eu, kkkkkk).

Enquanto o macarrão cozinhava, passou por mim a galera do acampamento da prainha e me ofereceram uma panela de comida pronta e mais um pacote de molho de tomate. Agora sim o banquete estava completo. Logo apareceu o Dema e o Lindolfo e a notícia não era nada boa: “O João está puto com você”. Disse o Dema. Fazer o que, eu havia errado na quantidade de comida por causa da correria que foi na véspera do feriado. Sempre carregamos comida demais e dessa vez faltou. Meu erro quase fez um amigo sucumbir de inanição. Já era quase 3 horas da tarde e os caras não haviam comido nada, mas agora ali estava uma super panela de macarrão com arroz e legumes e um super suco de jabuticaba, espero que eles me perdoem. O João apareceu na curva da trilha. Era o demônio em pessoa, seus olhos arregalados me deram medo, pensei em fugir correndo mata adentro (rsrsrsrsr). O cara me esculhambou legal,foi difícil fazê-lo aceitar as minhas desculpas. Enchi um super prato de comida e dei nas mãos dele. O menino comeu feito um refugiado africano. Para reparar o meu erro, nem almocei, dei toda a minha comida para ele, afinal o erro havia sido meu, eu que pagasse pela minha falta de planejamento.

Todos alimentados, as energias revitalizadas,o humor de volta, seguimos trilha acima até chegarmos ao mirante perto de uma das torres. Lá encontramos uma galera que estava indo ao poço Formoso. Já estávamos preocupados com a fiscalização na entrada da trilha, pois estávamos a menos de quarenta minutos de Paranapiacaba. A galera nos deu uma dica de uma trilha alternativa, que sai a direita antes de chegarmos onde estaria a fiscalização, mas acabamos não encontrando o tal bambuzal que eles haviam relatado e de supetão demos de cara com o carro da fiscalização. Pensamos em voltar, mas os caras já haviam nos vistos. Não havia mais nada o que fazer, era enfrentar aquilo de que havíamos corrido durante três dias. Fomos pegos e agora teríamos que enfrentar nossos pesadelos de frente, com a cabeça erguida, como homens que somos. Realizamos uma travessia perfeita, uma caminhada para entrar para nossa história de excursionistas. Uma caminhada para guardar para sempre na memória, uma caminhada de dias de aventuras intensas, de amizades e companheirismo.
Erguemos a cabeça, estufamos o peito e olhamos direto nos olhos daquele que seriam os nossos algozes. KKKKKKKKK, eram dois tiozinhos jogando baralho dentro da vam do meio ambiente: “ Oceis num sabia que é proibido caminhar por essa trilha e que ela ta fechada pra recuperação”. Não senhor, nós não sabíamos, estamos vindo do litoral e não existe nenhuma placa indicando qualquer proibição,disse eu.” Pois é, agora ceis tão sabendo ! Nos despedimos dos dois “guardas” e ganhamos o estacionamento, passamos enfrente ao cemitério e estacionamos nossos corpos cansados e extremamente felizes enfrente a Igreja principal, exatamente onde tudo havia começado a três dias atrás.

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Na igreja de Paranapiacaba, tentei persuadir os meus amigos a descer até a grande ponte, mas os caras não queriam mais saber de dar mais nenhum passo. Então peguei minha mochila e fui dar uma volta na vila histórica. De cima da grande ponte, de frente para a réplica do Big Bem, fico imaginando e relembrando parte da minha infância, quando viajávamos de trem de Campinas para São Paulo para visitar meus avós. Isso acontecia todo final de ano. Eu e meus irmãos esperávamos o ano inteiro por isso. O meu país só tinha dinheiro para viajar de trem, eram tempos difíceis. Hoje o trem já não existe mais, meus avós já morreram, mas ainda me restam as lembranças. Lembranças que levo deste lugar maravilhoso, que por muito tempo reneguei ao esquecimento e ao desdenho, mas agora que o descobri, prometo voltar muitas vezes, para descobrir novos paraísos, para fazer novos amigos e para continuar celebrando a vida e a amizade com os velhos amigos, porque é isso que faz valer a pena continuar vivo, porque é isso que faz valer a pena continuar seguindo enfrente. Obrigado meus amigos, vocês foram demais...........

DIVANEI GOES DE PAULA- ABRIL/2012